A expectativa de ser tri-avô na era do teletransporte

Eduardo Ribeiro e o netinho Luan

Por Eduardo Ribeiro

►  Morro de inveja dos avós que têm o privilégio de viver perto dos netos, acompanhando e participando do crescimento e da (des)educação dos pequenos.

Tenho um único neto, Luan, que está para fazer dois anos, mas o danado mora um pouco longe, em Serra Grande, sul da Bahia, entre Ilhéus e Itacaré. Ali, foi o lugar que minha filha Narjara e meu genro Thomas escolheram para viver, decididos a deixar São Paulo e a péssima (na opinião deles) qualidade de vida de uma cidade grande. E o fizeram também em nome da prole futura, que não tardaria a chegar. Primeiro com Luan; e agora, já a caminho, com a irmãzinha que deve nascer em novembro e que ainda não teve o seu nome anunciado.

Ruim, essa distância, não é mesmo?

Pior no entanto seria se fosse em outro país, outro continente? Pior?

Pois vejam isso: nossa outra filha, Ingrid, casada com o Magnus, também está grávida e vai ter um filho em agosto próximo. Na Suécia. Sim, ela terá um filho sueco-brasileiro!!!

E nós, três netos “expatriados”: dois na Bahia e um na Suécia.

Não é demais lembrar que vivemos e trabalhamos, eu e Alice, em São Paulo e do mesmo modo que para eles é muito difícil vir para cá, para nós é complicado ir até eles. A despesa é alta, o tempo escasso e os afazeres múltiplos. Sobra saudade, sentimento de culpa e uma certa impotência para mudar o rumo das coisas, já que por opção sempre incentivamos nossos filhos a ganharem o mundo. O problema é que eles levaram ao pé da letra o incentivo, o que significa dizer que muito provavelmente teremos pouco neto ao vivo em nossas vidas e muito neto virtual conversando pelo Skype, trocando mensagens pelo WhatsApp, na expectativa de que não demore muito e nem seja muito caro o teletransporte do corpo humano!!!

Neto longe aperta o coração. E se tem a vantagem de inibir avós invasivos (juro que não é o nosso caso), tem a desvantagem de limitar a gostosa cumplicidade desses relacionamentos que são marcantes na vida de qualquer criança.

Nunca vou esquecer de uma conversa que tive com um amigo num final de semana, na praia, regada a chope. Ele contou que tinha um filho radicado na Austrália, que ali constituiu família, teve filhos. E nem sonha em voltar para o Brasil. Ao comentar isso, com os olhos marejados fez um pequeno desabafo: “Ele vem ao Brasil a cada dois anos, quando consegue uma folga do trabalho. Eu, se tanto, também consigo ir para lá nesse mesmo período. Na média, ficamos juntos uma semana por ano. Eu já fiz 65 anos. Quantos anos mais vou ter de vida, com saúde? Vinte, talvez, com alguma sorte? Pois esse é o ponto. Quando penso nisso, bate uma tremenda tristeza, pois em verdade não conseguirei ver meus netos crescerem. Não como gostaria, acariciando, beijando, sendo amigo e confidente”.

Às vésperas de ser tri-avô, penso muito em remanejar minha vida para dar a ela a direção dos netos. Meus outros dois filhos, Ivan e Vinícius, são recém-casados e não será de todo improvável que outros netos estejam sendo planejados no curto e médio prazos. Se vier um neto do Ivan, nesses próximos dois anos, será outro “expatriado”, já que está de mudança para os Estados Unidos, com a Nathalia, sua esposa, para um MBA em Harvard. Nossa única chance de um neto próximo é se Vinícius e Bruna resolverem engravidar. Eles moram em São Paulo, bem pertinho de nós, embora ela seja de Jaú (interior de São Paulo). Aí será a chance de pegar o neto nos braços dia sim, outro também, de passar finais de semana juntos, de deixá-lo fazer de nós gato e sapato e de nossa casa um verdadeiro playground. Claro, sem abusar da boa vontade e da paciência dos pais.

Vamos com certeza visitar nosso neto sueco e nossos netinhos baianos. E se vier, também o americano. Até lá, o negócio é aproveitar para curtir também os netos alheios – e são vários ao nosso redor, felizmente – o que em parte compensa a ausência dos netos genuínos e vale como uma espécie de aquecimento para os que vão chegar.

E que cheguem com muita saúde, porque o amor, mesmo à distância, é imenso e está aí felizmente a tecnologia que nos ajuda a sofrer menos, a acompanhar ainda que virtualmente os primeiros passos, as primeiras palavras, as primeiras travessuras.

 

Eduardo Ribeiro é jornalista e editor da publicação semanal Jornalistas&Cia. É também diretor da agência Mega Brasil Comunicação

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2 Comentários

  1. angela said:

    Morando na França e com duas netas na Holanda e outro filho no Brasil – que ainda não é pai, mas já casado, entendo bem o dilema do Eduardo. Quem dera pudéssemos nos teletransportar quotidianamente e abraçar nossas netas(e filhos)! Felizmente temos as férias escolares, que aqui acontecem periodicamente cinco vezes por ano, e que são momentos privilegiados para receber as netinhas em nossa casa ou ir visita-las, e assim, tê-las full time conosco!

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