A graça da terceira geração

Vovô Anthony em montagem que fez para a neta Luísa, cavalga no dragão entalhado em madeira por artesão do Ceará

Por Anthony de Christo

► Netos? Como não tê-los se administrei oito filhos sob amplo, geral e irrestrito livre arbítrio? Nas contas atuais são cinco paridos: três meninas que já não emporcalham os assentos das privadas e dois gêmeos ainda incapazes da gentileza de levantá-los antes de mijar. Os gêmeos – Lucas e Valentim – são idênticos: um, a cara da mãe; outro, o focinho do pai. Impossível distingui-los, além disso, pelas roupas diferentes que vestem; por tipo de alergias de que são acometidos e humores ferinos que os mantêm sob permanentes arrelias.

Uma sexta ou um sexto cresce no bucho da mãe e deverá vir à luz em outubro. Os pais estão voltando às origens humanas, dispensam o conhecimento do sexo antes do nascimento, coerentes com a opção de viver uma vida rural, mais chegada à natureza, com as próprias mãos, o suor dos seus rostos e o auxílio eventual de algum parente mais contemporâneo. … Mais ou menos como deus teria ordenado a Adão e Eva se virarem sem auxílio de ancestrais.

Adoro essas metáforas e invejo a determinação do filhote e da nora… Aliás, adoro todas as minhas noras, mesmo as que já se separaram dos meus filhos. Essa é uma tônica dos tempos modernos com a qual precisamos conviver sem dramas ou conflitos… Os netos não têm nada a ver com a modernidade dos seus avós: precisam apenas se sentir queridos e prestigiados…

Como não me saber avô, grato a esta minha terceira geração, cheia de graça e diversidade, uns assim outros assados? Com a Luísa – primaneta hoje nos fricotes dos doze anos – ainda pequenina, experimentei emoção e lágrimas ao lhe pentear o loiro pixaim sob protestos, muxoxos e finalmente aconchegos. Cândida menina acumpliciada na fantasia de um dragão que surrupiava ao avô os biscoitos de polvilho que lhe destinaria. Há pouco tempo revelei o segredo: um enorme bicho abrasileirado e talhado em madeira que adquiri nos antigamentes, no Ceará.

O dragão, materializado em montagem que fiz ao ilustrar uma cartinha à neta, servia de mote para início de conversas quando nos encontrávamos, para comermos biscoitos de polvilho e para Luiza atiçar a curiosidade de Maria Clara (seis anos) e Ana (cinco anos) contra o avô. Maria, de lhaneza a toda prova, adora desenhar e se vestir bonita. Ana, de lhaneza à flora da pele, ama se vestir bonita, dançar e intervir nas histórias dos outros.

Ao contrário da minha geração e da que me sucedeu, quando se encontram, meninos e meninas integram-se às mil maravilhas, exceto por contusões devidas a divergências instransponíveis de gênio.

Tudo o que as crianças querem – e os netos excedem qualquer expectativa neste caso – é conhecer e apreender o mundo em volta o mais depressa possível. Os avós precisam ser incansáveis nas histórias, nas explicações e na invenção do mundo com o qual todos vão conviver. Abusem das fantasias, dos microscópicos detalhes e das enormes realidades. Não economizem advertências. Lucas e Valentim, por exemplo, aos sete anos, tanto se deslumbram com a imensidão do mar quanto pelo passeio de uma joaninha em direção à próxima folha do capim. Mas, como as meninas, eles detestam mentiras… principalmente as mais infantis. Dessas têm asco, semelhante ao que nutrem pelas pessoas que os tratam como crianças ignorantes.

Aprendi com os filhos e funciona com os netos: caixas de lápis de cor, giz de cera, aquarelas, pincéis, folhas de papel bem grandes o blocos de rascunhos são ótimos para acalmá-los por alguns minutos enquanto você recobra o fôlego.

Um velho truque que me foi ensinado no século passado por um velho amigo é ótimo para longos sossegos, mas só funciona uma vez. Reúna a criançada com papel e lápis e peça um bonito desenho, de uma fruta, de um carro, do que quiserem. Quem acabar por último ganha chocolates, sorvetes e que tais. Dada a partida você verá que pelo menos uns três se levantam com a obra pronta. Você explica que perderam, diz que é “por último”, que desta vez não valeu, mas que da próxima é “a vera”.

Quando o mais atento descobrir o logro a brincadeira acaba e todos vão participar do banquete prometido.

Um conselho? Não queira arrostar o frisson informático ou o glamour das bonecas cintilosas. Ponha-os em seus devidos lugares com os seus próprios predicados. Recupere bolinhas de gude, piões e pipas, jogos da memória, bonecas de pano, quebra-cabeças; conte suas histórias, sua vida, seus sonhos. Mostre a natureza que está por perto, as nuvens, os passarinhos. Poucas coisas fascinam tanto os netos como a vida e as manias dos avós; como o que explicam sobre as cascas das árvores, os ônibus, os aviões e o funcionamento da televisão e dos elevadores.

Mas nada se compara para um neto como dormir encorujadinho no avô e acordar todo babado, correndo para fazer xixi.

 

Anthony de Christo é jornalista e avô de Luísa, Lucas, Valentim, Maria Clara, Ana e mais um ou uma a caminho

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3 Comentários

  1. Nair Suzuki said:

    Caro Anthony: li seu artigo quando estava em Uruguaiana, quis fazer um comentário e passou batido no meio dos afazeres com as netas. Mais tranquila agora, reli seu texto e voltei a me emocionar com detalhes da sua narrativa. São observações de um avô que convive com os netos, conhece-os bem e curte bastante o seu papel. Adorei!

    • Anthony de Christo said:

      Oi Nair

      Acabei não lhe respondendo. Saudades. Logo depois nasceu a Nina. E agora, em julho, nascerá um menino, do meu caçula Fernando, com a Su. Apareça!

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