Almino Affonso: “Solidariedade é mais forte do que o amor”

Almino Affonso cita a frase de que o avô é o pai adocicado, mas diz que, com os netos, mais ouve do que fala e mais aprende do que ensina

● Entrevista com o advogado e político Almino Monteiro Álvares Affonso

 

Almino Affonso, de 86 anos, já passou por muita coisa na vida, principalmente na política, e também foi premiado como escritor. É viúvo com quatro filhos e oito netos, e não hesita na hora de dizer qual é a melhor lição que aprendeu e quer passar para os descendentes: a solidariedade, que, segundo ele, é mais forte do que o amor.

 

Ele é neto de um importante político do Rio Grande do Norte, nasceu no interior do estado do Amazonas, estudou em São Paulo e daí seguiu sua carreira. Foi ministro do Trabalho no governo João Goulart e após 1964 ficou exilado por 12 anos, vivendo em vários países, como Iugoslávia, Uruguai, Chile, Peru e Argentina. Voltou ao Brasil e ocupou vários cargos públicos, entre eles o de vice-governador de São Paulo, duas vezes secretário do governo do Estado e uma vez do Município de São Paulo.

Pelo seu livro sobre o golpe de 1964 ele tem em casa uma estatueta do Jabuti, o principal prêmio literário brasileiro. Tem o mesmo nome do avô, Almino Álvares Affonso, que foi senador pelo Rio Grande do Norte no tempo do Império e se destacou como abolicionista. Um de seus filhos é o músico e compositor Sérgio de Britto Álvares Affonso, membro do grupo Titãs, que utiliza como nome artístico apenas o sobrenome da mãe.

Ele concedeu entrevista exclusiva para o portal asidade em seu apartamento no bairro de Alto de Pinheiros, em São Paulo. Assista a seguir os principais trechos da entrevista.

 

Solidariedade

A maior lição que aprendeu com o pai, que deixou tudo o que queria para ajudar o irmão

“Eu quero dizer isso aos meus netos, que saibam ter solidariedade. É mais forte do que o amor, a solidariedade. Porque o amor você dá e pede o amor. A solidariedade você dá e não precisa pedir de volta. É dar! Meu pai soube dar. Pra mim, é a lição mais alta que meu pai me deu. Tomara que meus netos saibam ter sempre, uns com os outros, e na sociedade também.”

 

Valores

Liberdade, honradez e autoconfiança são valores básicos a transmitir para os netos

“O que resulta disso que eu estou dizendo? Que é importante de alguma maneira transferir onde se possa. Eu escrevi um livro sobre 64, sobre o golpe de 64. Não sou historiador, mas dei o meu depoimento onde o ponto central que eu imagino é contar uma verdade histórica para as novas gerações, que também esquecem o passado de anteontem. Tudo isso são valores, o valor da liberdade, o valor da honradez, o valor da confiança em si próprio a partir de valores. Isso para mim é uma visão básica. Me alegra eu ver meus filhos tendo-a e me alegra imenso que meus netos também a tenham.”

 

O avô

O exemplo do avô é lição que passa de geração em geração até os netos dos netos

“Eu tenho a sensação de são que os valores que foram sumindo, valores que na minha geração nós herdamos muito dos pais. A minha visão familiar é muito vinculada a valores. Dos meus avós, por exemplo, o meu avô paterno, de quem eu herdo o nome, Almino Afonso, foi um homem cuja origem modesta, no interior do Rio Grande do Norte, se transformou num advogado, advogado brilhante, grande orador, segundo o depoimento de tantos, ele jogou a vida dele na defesa da liberdade dos negros, a luta pela abolição dos escravos. Pouca gente sabe porque no Brasil a história e meio também calada, fica só a história oficial. Os três primeiros estados a libertarem seus escravos foram o Ceará, o Rio Grande do Norte e o Amazonas, em 1883 e 1884, quatro ou cinco anos antes da Lei Áurea. Meu avô estava nessa luta. Ou seja, então, eu cresci na minha casa tendo a notícia de que um homem público, o meu avô, dedicou a parte fundamental de sua vida (depois ele foi senador da república, etc.), numa luta de valores que é a liberdade. A liberdade de terceiros, de um negro. Isso me marcou na vida social, no pensamento político, muito.”

 

Perguntar

O conselho sobre netos: em caso de dificuldade, não se calar, e sim perguntar

“Eu não sei se há algo que diga que possa ter algum significado na vida dos próprios netos, mas eu diria que, para todas as relações humanas, de pais para filhos, de avós para netos, ou nas relações tão significativas na vida de cada um de nós, que é a vida que em algum momento todos temos, que é a vida matrimonial, a mulher com o marido, que aprendam a perguntar ao outro quando as coisas não sejam claras. Porque às vezes, na relação humana, como é natural, às vezes há algum momento que talvez nos fira, nos arranhe. Se nós nos calamos, isso fica, isso marca, isso distancia. Se eu puder dizer aos meus netos que estão ainda crescendo, desde minha jovem advogada com seus 32 até à menorzinha Carol, com seis anos, ou a Dorinha, que tem 12 anos, etc., se eu puder dizer alguma coisa pra eles eu diria isto: aprendam a perguntar o porquê. Porque o porquê lhe dará a resposta para que aquilo que teve um arranhão sare e prevaleça o que há de belo na relação que se cria ao unir-se um ser com outro.”

 

Asas

Com o neto adolescente, respeitar a liberdade de criar asas e encontrar o rumo

“Eu tenho um neto homem só, só um, que é filho exatamente do cantor e compositor, é um rapaz também que já tem hoje 16 pra 17 anos. Vai ser também na linha do pai? Eu às vezes penso que sim, o pai é artista, compositor. Eu não sei. Aos 16 anos, o Sérgio não tinha isso deliberado. Vai lá ser? Que ele tenha asas próprias, não é verdade?”

 

Função

A função dos pais a e função dos avós, vamos ouvir a voz da experiência

“Eu acho, se você me permite a ponderação, aí já é eu falando de pai para eventual pai que me ouça, é respeitar cada um que vai nascendo. A grande função do pai eu acho que é essa: permitir que as aves criem sua própria plumagem. E voem.”

– E a função do avô, qual é?

“Eu acho que é algo semelhante, com um acréscimo muito comum de se dizer, que o avô é o pai adocicado. Não sei, essa frase é meio prosaica, mas há algo disso, porque você deixa de ter tarefas impositivas eventuais que qualquer pai em algum momento tem, pai e mãe em algum momento têm. Modos decisivos de que ‘é, não é, pode, não pode’, por mais que queira ser aberto, em algum momento talvez haja até uma necessidade real da formação dos filhos. O avô não tem essa tarefa realmente. A tarefa do avô é alegrar sem transmitir e eu insisto em dizer o que disse, que é aprender com os netos, aprender com os netos. Essa nova geração é tão diferente da minha geração, em tudo, como é que eu posso conversar com eles se eu não ouvi-los? Não terei condição de conversar.”

 

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2 Comentários

  1. Elaine Merseburger said:

    Sou a emoção do amor que é latente em mim..que me transforma..que me concede..que me e exerce.. mais maturidade..que me deixa em estado de amor maior..ser Avó me permite acariciar minha alma..me transforma diariamente ..me proporciona amar em detalhes.. na plenitude das emoções como sempre desejei sentir..

  2. Marisa Castro said:

    Betinha, que delícia de entrevista!

    Conhecia Almino Affonso da vida pública e já o admirava desde quando saiu do PSDB, por não concordar com a conduta política do governo (FHC), fazendo duras críticas à postura política (segundo ele, “própria”) de FHC (o que, em minha opinião, continua deplorável nos dias de hoje). Mas conhecer a sabedoria de sua experiência como filho, como neto, como pai e avô, tal como descreve é uma grata surpresa, já que é carregada de sensibilidade e respeito.

    Gostei muito!

    Bjs e muito sucesso!

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