Anna Chiesa: “Orientações para o dia-a-dia estão em constante mudança”

Especialista na área de desenvolvimento infantil, e agora também vovó, a Dra. Anna Maria Chiesa tem conselhos que resolvem muitos conflitos familiares

● Entrevista com a doutora Anna Maria Chiesa

 

Enfermeira com doutorado pela USP, professora, mestre em Saúde Pública, consultora de programas para primeira infância e avó da Olívia, de 1 ano, Anna Maria Chiesa fala com enorme clareza sobre alguns dos temas que mais geram conflitos de gerações entre avós e seus filhos, por causa dos netos. Também ressalta as bases da importância da presença dos avós para a família. Sobre ter experimentado a própria avosidade, ela diz: “É um processo de doação no qual a gente ainda sai ganhando”.

 

O bebê deve tomar chá para cólica? Precisa ficar em qual posição? Como colocar para dormir? O que pode comer em cada idade? A doutora Anna Maria explica que, por mais que os conselhos das avós para os assuntos tenham sabedoria e boa intenção, “as orientações para o dia-a-dia estão em constante mudança, inclusive porque a ciência produz novos conhecimentos”. Ela diz: “O que a gente precisa é trabalhar não é só com a recomendação, mas com a fundamentação de por que as recomendações mudam”.

Uma dica de ouro, segundo a especialista: “Os protagonistas são sempre os pais dos netos. Nós, avós, somos os coadjuvantes”. Mas, principalmente, ela ensina: “O diálogo é a melhor resolução de conflitos”.

Quando fala da relação ideal entre pais e avós, a enfermeira, mestra em Saúde Pública e consultora de políticas para a família Anna Chiesa explica que a interação em torno do neto pode ser benéfica para todos: “Para os pais é bom contar com a ajuda dos avós, para ter um apoio enquanto segue a rotina profissional. E, para os avós, é saudável ter o contato com a criança, quando está cuidando voluntariamente. Assim, o conjunto da família sai ganhando”.

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Na vida particular, Anna ganhou a primeira neta há um ano. Poucos meses depois, ela acompanhou a filha, que foi fazer um curso na França e precisava de ajuda dela para tomar conta de uma criança. Aproveitou para recuperar as energias, porque tinha acabado de perder a mãe. “Foi uma experiência maravilhosa”, disse. “Exatamente como ela tinha contado na teoria.”

“A vivência traz uma possibilidade de entendimento da situação maior do que os livros”, afirma. Para ela, os avós experimentam um caso de doação com ganho: “O amor é um sentimento que, quanto mais a gente usa, mais a gente tem”.

 

Veja nos vídeos os principais trechos da entrevista com a doutora Anna Chiesa:

 

Experiência x teoria

Depois de trabalhar com programas de primeira infância para famílias, Anna teve a primeira neta: “A vivência traz possibilidade de entendimento maior que a leitura de muitos textos”.

“A experiência é infinitamente mais completa do que a teoria. A vivência traz um aprendizado e uma possibilidade de entendimento da situação muito maior que a leitura de muitos textos. Eu estava já desejando, já era uma expectativa de que os filhos já começassem a ter filhos. Eu tenho três filhos, tive a Mariana com 24 anos. Em brinco que no período dos 20 aos 30 eu tive os três filhos e ela com 30 ainda não tinha nenhum. Então, já começou aquela cobrança, porque ela já vinha em um relacionamento estável há bastante tempo. Mas acho que uma questão que está colocada hoje para a mulher é investir primeiro na carreira. Existe essa necessidade de primeiro se estabilizar, que na minha geração não era assim. A gente casava e já tinha filhos, a coisa era antecipada, Então, foi muito gratificante. Desde a notícia (da gravidez), a gente curtiu muito e pôde ficar próximo, ajudando a aliviar algumas dificuldades que a maternidade traz pro casal, a parentalidade, ajudando tanto do ponto de vista técnico, eu sou enfermeira e meu marido é médico, mas também esse lado da ajuda, de alguém que divide, de dar colo, de escutar, de ajudar a entender o que o bebê está sentindo, quais são as necessidades de valorizar tudo o que eles vão criando como rotina, ajudando a Olívia (a neta) a se desenvolver. Então, está sendo uma experiência muito boa, fantástica.”

 

Pais são os protagonistas

Para Anna, o papel dos avós é ajudar a família a realizar a rotina determinada pelos pais. “Fiquei preocupada vendo que muitas mães incluem suas mães e excluem os pais da criança.”

“Agora, eu acho que o cuidado é participar ajudando os filhos a serem protagonistas, porque o papel de pai e mãe não pode ser um substituto. Você atua como coadjuvante.”

 

Tênue diferença

Toda a centralidade tem que estar na criança, naquele sujeito que veio fazer parte daquela família”, diz a doutora.

“Eu acho que apoio é quando você entende a necessidade que o casal tem, a partir também da característica da criança, que vai mudando muito rapidamente no início. Toda a centralidade tem que estar na criança, naquele sujeito que veio fazer parte daquela família e que, ao longo do seu crescimento e desenvolvimento, vai mudando, vai exigindo diferentes formas de organização da família e de resposta às suas necessidades. E os pais têm que conciliar isso no momento em que eles também estão no auge da carreira profissional. Então, por exemplo, no nosso caso, com cinco meses de idade, o meu genro passou a trabalhar em Brasília durante a semana e vir só nos finais de semana. Então, a nossa participação é no sentido de consultá-los pra saber como eles querem que a gente participe, sem definir a priori: “olha, eu vou fazer desse jeito, eu sei que isso é melhor para a Olívia”. É sempre no sentido de tentar ver qual é a opinião deles, como eles esperam que a gente participe e em determinados momentos também dizer: ‘isso não é possível, esta é uma parte que é melhor vocês assumirem’. Enfim, é tênue essa diferença.”

 

Presença do pai

“Muitas mães alijam o pai do processo porque já incluem a própria mãe como se essa fosse a ajudante-mor. E o pai some”, constata.

“Numa pesquisa que a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal fez em parceria com o Ibope e o Instituto Paulo Montenegro, acompanhamos vários grupos focais de gestantes e mães de crianças pequenas, perguntando como era a relação das crianças com os pais e os avós. Fiquei preocupada vendo que muitas mães alijam o pai do processo porque ela já inclui a própria mãe como se essa fosse a ajudante-mor. E o pai some. Então eu acho que o pai tem que estar presente, essa é uma combinação que precisa ser feita, mas, para a criança, o mais importante é a convivência com o pai e a mãe. E mesmo a distância, saber que eles que gostam que as coisas sejam feitas assim, valorizar essa participação. Aí eu acho que a diferença de intromissão é quando a gente tem esse cuidado de saber que está ajudando o casal a colocar em prática uma dinâmica, uma rotina que eles definiram como melhor, e dialogar permanentemente apontando lacunas, apontando quando você acha que tem que ser diferente.”

 

Avós: não façam escondido

Uma dica importante é: os avós não fazerem escondido as coisas que acham que é certo: “É um desrespeito, uma intromissão”.

“Por exemplo, me assustam alguns casos do tipo: a filha e o genro decidem que o filho não vai ter contato com açúcar até os dois anos de idade. Quando os pais saem e a avó cuida, a avó dá açúcar, porque acha isso uma bobagem. ‘Quando ele está comigo, eu dou!’ Eu acho que isso é um desrespeito, é uma intromissão. E depois não conta que fez isso. Não é um bom começo. Você pode até acreditar que é bobagem essa regra, mas os pais é que têm a palavra final. É uma dica importante: não fazer coisas escondido, porque acha que está errado, enfim.”

 

Família ampliada ajuda

O dilema ético: ou eu trabalho, ou eu vou cumprir minha maternidade

“Dos sete aos dez anos não tem tanta diferença, agora, de zero aos três o tempo físico real é o mesmo mas as exigências, as mudanças, as adaptações… é muito diferente. E tem também muito adoecimento. A criança fica muito mais doente, toma mais vacinas, nascem os dentes, são as primeiras viroses, as primeiras febres e diarreias. Então, é um período que exige muito, e para muitos casais que só contam os dois e muitas vezes uma figura de um profissional contratado pra cuidar ou uma instituição, como a creche, por diversas vezes ele não vai conseguir ter, porque a criança ficou doente e não pode ir pra creche, não pode ir pro berçário. Então, isto é extremamente angustiante. Eu acho que para a mulher, principalmente para a mulher, mas pro homem também, fica sempre aquela sensação da ‘escolha de Sofia’, o dilema ético: ‘ou eu trabalho, ou eu vou cumprir minha maternidade’. A família ampliada alivia esse processo. Você consegue atravessar essas turbulências das conjuntivites, amigdalites, essas doenças que a criança fica diferente, você precisa estar estruturada para uma outra rotina. E muitas vezes, é assim: a babá faltou nesse dia e você tem uma reunião importante… Então, faz o que com a criança? Então, ter alguém que possa ajudar sem cobrança, ajudando sem cobrar e também ganhando com esse processo… Pros adultos também é extremamente saudável poder ter o contato com a criança, você se sente bem quando está cuidando, está voluntariamente cuidando. Quando você tem isso, o conjunto da família sai ganhando.”

 

Superação de conflitos

“Eu acho que tem que dialogar, tem que combinar o que é que espera, o que não quer que aconteça”, afirma.

“Eu acho que tem que dialogar, tem que combinar o que é que espera, o que não quer que aconteça. Quanto mais diálogo, melhor. As práticas estão mudando ao longo da vida, inclusive porque a ciência produz novos conhecimentos. Então, muitas vezes, eu imagino, se você tem um histórico anterior de uma mãe ou de uma sogra que quando vem te visitar critica o jeito que a casa está organizada, critica as escolhas, as prioridades, você pode se sentir menos à vontade de tê-la ajudando a criar. Porque é um momento em que você está mais fragilizada. Então, você pode dizer: ‘eu não quero que participe’. É uma escolha. A gente não pode trabalhar com regrar universais. Eventualmente, pra um casal, pode ser um momento do relacionamento, um momento importante pra eles ficarem sozinhos, pra eles se sentirem mais seguros, até fortalecidos nesse processo. Agora, quando existe uma demanda que não está dentro do que planejei, que você vai precisar de uma complementação, de uma ajuda extraordinária, eu acho que a melhor maneira é dizer claramente o que quer e o que não quer que aconteça. O diálogo é a melhor alternativa para se trabalhar com a superação de conflitos.”

 

Orientações mudam

As práticas do dia-a-dia para cuidar de um bebê estão em constante transformação, por isso pode haver choque entre gerações.

“Muda o tempo todo. Se a gente for pensar, na época em que eu nasci, a gente vivia o final dos anos 1950, começo dos 1960. A mortalidade infantil era muito grande. Toda orientação pra família era: não mexe com o bebê, deixa ele lá quietinho. Enfaixa, não mexe, porque a mortalidade infantil era muito alta. Agora a gente já tem melhores indicadores e começa a ver que a neurociência aponta que a estimulação precoce desde a fase intrauterina é saudável, é positiva. Uma avó pode dizer: ‘Que bobagem! Vai cantar pra ele? Ele não entende’. E a ciência mostra que ele já escuta. Essa é uma interação que já deixa uma base no nível cerebral e isso vai ser utilizado depois num processo futuro também. Outra norma, depois que eu tive meus filhos: depois que mama, coloca pra arrotar e coloca de lado ou de bruços. Agora, não. Coloca de lado ou de barriga pra cima. Muita gente diz: ‘Imagina, sempre fiz de outro jeito’. Agora a gente tem recomendações quando introduz alguma fruta e a criança já tem dentinhos, introduz com seis meses. Ela já começa a ficar mais sentada, então você pode dar um pedaço de fruta pra criança comer. Alguém pode dizer assim: ‘Que absurdo, tem que peneirar’. Então, as orientações para o dia-a-dia estão em constante mudança. O que a gente precisa é trabalhar não só com a recomendação, mas com a fundamentação do por que as recomendações mudam e como tranquilizar as famílias sobre as formas de colocar em prática essas novas recomendações.”

 

O polêmico chá de erva-doce

A especialista em primeira infância explica que há sabedoria em usar chá contra cólica do bebê, mas que hoje já se sabe que é melhor que ele só consuma leite por seis meses.

“Erva-doce é a base do Luftal. A dimeticona vem da erva-doce. Então tem muita sabedoria aí. Tem muita sabedoria empírica, de que a erva-doce ajuda mesmo a aliviar gases. Só que, hoje em dia, o manejo da cólica passa por outras medidas, de calor. E, para o aleitamento materno, é mais importante durante seis meses só tomar leite, do que ter a introdução de um chá. Então, não estava errado, só que agora a gente consegue fazer isso de uma outra maneira. É importante. E outra: chá adoçado, nem pensar, nem pensar!”

 

Criar filhos é mais arte do que certeza

Os avós são importantes para fortalecer os pais no processo de criar uma criança, defende Anna: “Muitas vezes não existe o momento ideal para ter filhos, mas sua matriz pode ajudar”.

“Eu acho que a gente tem que trabalhar sempre numa perspectiva emancipatória. Quer dizer: ajudar os filhos a se fortalecerem pra assumirem o papel de serem pais, desenvolverem práticas parentais adequadas. E com isso curtir o papel de pais praquilo que tem de positivo. Porque muitas vezes o discurso era muito em termos de obrigação, assim : ‘é sua responsabilidade’. Mas você pode ter prazer com isso. Muitas vezes não existe momento ideal. A gente tem trabalhado muito com muitas certezas: ‘eu só quero quando tiver isso, aquilo’. E muitas vezes a experiência de ter um filho pode ser prazerosa independente de você ter a vida nesse nível de organização, né?”

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Um comentário

  1. Maria Dinelza said:

    Excelente esse canal que o Portal Avosidade está nos oferecendo. Realmente fica difícil para os avós que criaram seus filhos há décadas passadas, conviver e aceitar as novas “teorias” que a ciência está nos mostrando no que se refere ao cuidado com os bebês. Particularmente acho que há muito exagero por parte de alguns pediatras, e terminam tornando a coisa mais complicada. Acho que a velha intuição e a experiência, (como disse a Dra.Anna no começo da entrevista) contam muito em determinadas situações. Mas o que vale mesmo é a vontade dos pais, não tenho dúvida disso.

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