As lições da família Enauenê Nauê

Enauenê
A ilustração da página 36: “Os mosquitos não aliviavam e todas se reuniam perto das fogueiras pra não serem devoradas cruas...”

Por Jorge Luiz de Souza

A experiência de viver em uma aldeia indígena na infância

O livro é para o público infanto-juvenil e foi escrito por quem viveu no ambiente em que a narrativa acontece. A escritora, ilustradora e também atriz Rita Carelli viveu grande parte do seu tempo entre os 5 e os 11 anos de idade aldeia indígena do Mato Grosso e acumulou muita coisa pra contar. Enauenê

É uma obra sobre o papel social de homens e mulheres no o povo Enauenê Nauê e vai fundo nas raízes da cultura indígena e suas influências no resto do Brasil. A autora, uma menina branca, da cidade, fez diversas viagens com os pais dela, a antropóloga Virgínia Valadão e o cineasta e indigenista Vincent Carelli.

O contato com uma língua totalmente diferente, a convivência em casas feitas de palha, o banho no rio e o futebol, que eles jogam só com a cabeça, transformaram o olhar da criança sobre índios, suas diferenças sociais e peculiaridades culturais.

A autora chama o livro de um mergulho nos encantos da cultura indígena. Mostra como entre os índios de uma aldeia há separações rígidas dos papéis dos homens e das mulheres.

Para as meninas ficam reservadas as atividades que acontecem por trás das casas de palha: cuidar da comida, do fogo e dos bebês. Já os meninos brincavam pelo pátio, nas árvores e pelo rio. Meninos e meninas não se misturavam.

Chocando os costumes

Foi então que a autora resolveu inovar, deixar as obrigações das meninas e seguir com os meninos. Enturmada com seus novos irmãos, a menina se divertiu muito, tomou banho de rio com eles, disputou o arco e flecha, aprendeu a remar… num feito inédito para o povo Enauenê.

Mas será que foi feliz assim para sempre? O leitor verá que ela descobriu que ser mulher na aldeia também tem sua alegria e que se reintegrar às atividades femininas não é uma tarefa banal.

O livro traz também belos trabalhos da ilustradora Anabella López, que complementam a delicada narrativa escrita, misturando as linguagens da pintura e da colagem.

Segundo a definição da autora, a obra apresenta a influência dos indígenas em nossa cultura e a importância de preservar esse mosaico cultural nacional, que toca em questões como a divisão do trabalho, a diversidade cultural e os diferentes modos de vida.

O que é ser mulher

A antropóloga Betty Mindlin assina o posfácio da antropóloga Betty Mindlin. “Rita mergulhou no mundo indígena e guardou uma compreensão que talvez poucos profissionais sejam capazes de atingir. Sua integração temporária aos Enauenê-Nauê, a um conjunto de valores diferentes dos urbanos, é um aprendizado – ou a perplexidade – sobre o que é ser mulher ou ser homem, qual a melhor escolha – questão moderna, eterno debate”, diz Betty Mindlin.

Enauenê

Há também um texto da especialista em Etnologia Indígena e pesquisadora da Unesco, Ana Paula Lima Rodgers, que aborda outros aspectos do modo de viver dos Enauenê Nauê e algumas de suas dificuldades nos dias atuais.

“Este livro é uma declaração de amor aos Enauenê Nauê, povo mágico que tanto me deu, e, em especial, à família indígena que me acolheu”, declara Rita Carelli. A Editora FTD, já centenária, em 2015 reposicionou sua marca e passou a se chamar FTD Educação, cujo slogan é “Educar bem é pensar além”.

As autoras

Rita Carelli nasceu em São Paulo, mas viveu momentos importantes da infância entre os indígenas, acompanhando seus pais em viagens e pesquisas, especialmente com os Enauenê Nauê, onde esta história se passa. Coordenou para uma instituição chamada Vídeo nas Aldeias a coleção Um Dia na Aldeia, em seis volumes, publicada originalmente pela editora Cosac Naify com patrocínio do programa Petrobras Cultural e reeditada em 2018 pela Editora do Sesi.

Para esta mesma coleção, ela escreveu e ilustrou alguns títulos. Um deles, A
história de Akykysia, o dono da caça, foi parar no Catálogo White Ravens da Biblioteca de Munique (Alemanha) e ganhou o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).

Rita estudou Letras na Universidade Federal de Pernambuco e Teatro na Escola Internacional de Teatro Jacques Lecoq, em Paris. Foi também palhaça no programa Doutores da Alegria, que atende crianças doentes em hospitais do Brasil. Também faz filmes e peças de teatro.

A ilustradora Anabella López nasceu na Argentina e se formou em Design Gráfico pela Universidade de Buenos Aires, onde também lecionou por vários anos. Foi professora na primeira escola de ilustração de Buenos Aires, a Sótano Blanco, e atualmente é uma das coordenadoras da escola de ilustração Usina de Imagens, em Recife.

Já publicou mais de 30 livros na Argentina, no Brasil, no México, nos Estados Unidos, no Canadá, na França e nos Emirados Árabes. Em 2015, ganhou o primeiro lugar no Prêmio Jabuti, categoria Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil.

Serviço Enauenê

Editora: FTD Educação
Autora: Rita Carelli
Ilustração: Anabella López
Número de páginas: 48
Indicação: A partir dos 10 anos de idade (5º ano – EFI)

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Jorge Luiz de Souza é jornalista, editor do portal avǒsidade e avô de Mateus, Sofia, Rafael, Natalia, Andrew e Thomas

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