Avô de Cinema

Adriano Paternostro faz uma homenagem emocionada sobre o avô Walter da Silveira, precursor do cinema brasileiro

Por Adriano Paternostro

► Nasci em 1976, seis anos após a morte de Walter da Silveira, meu querido e inclassificável avô. Apesar de não ter tido a oportunidade e o prazer de conhecê-lo, a sensação que tenho é que conversamos todas as noites; ele sentado em postura clássica numa antiga poltrona enquanto eu, sentado ao chão, ouço atentamente suas incríveis histórias. Estes encontros transcendentais repercutem diretamente nas minhas escolhas, e não é difícil entender o porquê.

Meu avô foi uma pessoa fora de série. Começou a escrever artigos sobre o cinema para pequenos jornais de Salvador aos 13 anos de idade. Formou-se em direito aos 20 anos e tornou-se juiz um pouco mais tarde. Foi chamado de “advogado do povo”, por ter atuado no interior da Bahia advogando de forma filantrópica para os menos abastados. Neste período se afastou um pouco das coisas que tanto amava: a escrita e o cinema.

Mais tarde, precisamente em 1950, logo após o seu retorno a Salvador, fundou o Clube de Cinema da Bahia, um marco na produção cinematográfica local e, porque não dizer, nacional. O principal objetivo do cineclube era exibir filmes europeus e aqueles que não tinham espaço no circuito popular – era um circuito alternativo. As exibições eram intercaladas com debates e discussões sobre as películas exibidas. Por conta disso, o CCB era considerado mais do que um encontro de adoradores da sétima arte, era uma verdadeira escola de cinema.

Livro Walter 770

Desse movimento saíram diversos craques da produção cinematográfica baiana, dentre eles um jovem garoto hiperativo e ávido por conhecimento que levava muito puxão de orelha do meu avô Walter: o futuro cineasta Glauber Rocha. Minha avó Ivani me contou inúmeras estórias engraçadas de Glauber, que era um dos muitos intelectuais que frequentavam o movimentado apartamento do meu avô, no bairro da Graça, em Salvador. Numa delas, Glauber, que era conhecido pelo seu visual um tanto quanto “despojado” e subversivo, pediu um terno emprestado para participar de uma premiação na qual concorria com a sua mais notável obra: Deus e O Diabo Na Terra do Sol.

Charlie Chaplin e Jorge Amado

Meu avô escreveu três livros, sendo que um deles a respeito do seu maior ídolo, Charles Chaplin, sob o título de “Imagem e Roteiro de Charles Chaplin”. Ah, como ele amava o vagabundo Carlitos e a maestria de Chaplin. Quadros e cartazes de filmes enfeitavam os corredores do seu apartamento. Na biblioteca, entre os milhares de livros de direito, inúmeros livros, roteiros e ensaios sobre cinema, sua antiga máquina de escrever até hoje espera saudosa pelo gatilho dos seus dedos.

Ele ainda achou tempo para interpretar um bispo no premiado “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte – filme condecorado com a Palma de Ouro em Cannes.

Em 1970, já no leito de morte, acometido por um câncer renal, recebeu uma carta de Chaplin portada por seu amigo Jorge Amado, que voltava de férias na Europa. Na carta, Chaplin agradecia o livro escrito e desejava uma plena recuperação do meu avô. Ele faleceu logo depois, deixando minha avó Ivani e sete filhos.

No ano de 1986, o governo da Bahia inaugurou a Sala Walter da Silveira, um espaço de cinema que se mantém até hoje firme e forte, exibindo filmes do chamado circuito alternativo.

Carrego comigo esse mesmo amor pela arte, o espírito altruísta, a inquietude e a vontade de encontrar a perfeição.

Obrigado, Walter!

 

Adriano Paternostro é neto de Walter da Silveira e também é músico e empresário

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9 Comentários

  1. Maria Dinelza said:

    Parabéns pelo texto, Adriano!!!! Você além de músico talentoso, está mostrando que também é um escritor nato!!! A herança do avô está bem visível. Sucesso com essas sua habilidade!!!

  2. Ana Travassos said:

    Que texto envolvente! Gostei da forma como descreveu a história e a vivência do seu avô, como se estivesse assistindo o desenrolar dos fatos! Parabéns!

  3. Ana Carolina Lavigne Tavares said:

    Parabéns Adriano, a história de seu avô é linda mesmo e você conseguiu retratá-la de uma forma envolvente e empolgante. Senti saudades de sua avó também te lendo agora…Você escreve muito bem, parabéns!

  4. Patricia tavares de castro said:

    Meu primo, me deixa de olhos cheio de lágrimas da maneira que descreve esse grande homem que não tivemos o prazer de conhecer, mas a sua história foi deixada para nos orgulhar do homem “artista “que ele foi !!!
    Parabéns, Adriano!!!

  5. eliana said:

    Querido sobrinho, fiquei emocionando com tudo que escreveu sobre meu meu inesquecível e muito amado pai e seu avò…lágrimas caíram no meu rosto. Saiba que se sua avó, que está fazendo em breve 1 ano que foi levado para junto dele, também ficaria orgulhosa e comovida com suas palavras.
    Um grande beijo no seu coração.
    Te amo.
    Tia Eliana

  6. Maria Fernanda Novaes said:

    Adriano, você é a arte.
    Na música, na escrita e na vida.
    Sucesso no caminho que escolheu e meia parabéns pelo texto.
    Vamos investir nisso…

  7. Carla Zanetti said:

    Tchaco, que texto maravilhoso! Que orgulho de você!! Mais uma linha nessa vertente artista admirável!! Sua amiga e sua fã desde de sempre meu lindo!

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