Avó na hora certa

Hora
Arthur nasceu no início da pandemia, mas mãe e filho contaram com a valiosa ajuda da avó, embora não morem na mesma cidade

Por Marcia Meccia

Esforços redobrados para cuidar do neto na quarentena

Estou aqui com o coração aos pulos porque amanhã, a esta hora, estarei com meu neto Arthur no colo. Quando o embarquei para o Rio, onde ele mora, dois meses atrás, ainda não sentava sozinho, não engatinhava e era alimentado exclusivamente com leite.

O bebezinho que receberei agora aos 7 meses, está bem diferente, sapeca e cheio de novidades. Ainda tento me acostumar à ideia de que sou avó, e que meu neto e eu não moramos na mesma cidade.

Logo que soube que sua chegada ocorreria no mês em que o ano começa de verdade em Salvador (após o carnaval), comecei a reorganizar minha vida profissional.

Alterei o sistema de trabalho do meu escritório, prestigiando o home office, antecipei todas as tarefas possíveis, comprei muitas passagens de ida e volta, aproveitando todos os feriados do primeiro semestre de 2020.

Seu nascimento estava previsto o dia 20 de março. Mas, cismei de arrumar minha mala no dia 8. Fui ao shopping comprar uma roupa, porque queria recebê-lo usando peças novas, sem memórias, sem energias anteriores. Fiz meu marido, sob protestos, arrumar a mala dele também.

Quinta-feira, 12, foi um dia normal: logo cedo fui para a corrida e depois passei o dia no escritório. Teria ainda um jantar de aniversário para ir, e confesso que estava receosa: já se ouvia falar da chegada do coronavírus no Brasil.

Mal abri a porta de casa, ouço meu marido Paulo anunciar esbaforido que a bolsa de Rafaela havia estourado. Imediatamente, chamei o táxi. Apenas fechamos as malas e em menos de duas horas, estávamos dentro de um avião, decolando.

O nascimento de Arthur hora

Meu amado Arthur nasceu sexta-feira, dia 13 de março. Quatro dias depois, meu marido e nossa filha mais velha Camila, madrinha do bebê, voltavam para Salvador e eu fiquei para uma temporada carioca que jamais seria capaz de prever.

Meu sentimento mais forte era o de gratidão ao Universo, que me permitiu estar ali antes dos aeroportos e estradas fecharem. Digo que jamais agradecerei o suficiente a Deus.

Na minha imaginação, ser avó seria dedicar algumas horas dos meus dias para “visitar” um bebê.

Não foi nada assim… hora

De repente, aquela situação inusitada, sem sair de casa, com medo de contrair aquela doença estranha, sem auxiliares domésticas. ver minha filha vivenciar as demandas da amamentação, da privação de sono, da ausência das amigas, ao mesmo tempo em que estava exposta àquelas horríveis notícias pela TV e pelas redes sociais.

Hora

Foi algo desesperador para mim. Tudo o que queria era blindá-la. Ficávamos juntas muitas horas por dia. Eu havia alugado um flat vizinho ao apartamento dela. Então, chegava muito cedinho de manhã.

Percebemos que era fundamental que eu tivesse dormido bem à noite para que ela pudesse me entregar o bebê e descansar um pouco. O simples fato de andar dois minutos na rua, mesmo coberta da cabeça aos pés, me deixava tensa. Chegava ao apartamento deles, trocava toda a roupa e gastava muito sabão e álcool.

Existia uma trabalheira braçal, bebê com fome, bebê rindo, bebê chorando, chupetas a esterilizar, fraldas a trocar, muitas tarefas o dia todo. Eu tinha prazer em tudo! Porém, à noite, quando voltava ao meu flat, percebia como meu mundo estava estranho.

Rotina alterada hora

Pela primeira vez na vida, após 40 anos de casada, estava sozinha, trabalho parado, sem rotina de exercícios, preocupada com aqueles dois seres, mãe e filho. Ou seriam dois filhos para eu cuidar?

Minha cabeça deu muitas voltas. Digo que um dia dormi arquiteta e acordei babá. Não sentia estar preparada o suficiente para ter certeza de que fazia o melhor por eles.

Apesar de prazeroso, foi um período nada fácil.

Dias passando, e chegou a hora de voltar pra casa. Como escolher uma data para cortar aquele vínculo? Como superar o medo de viajar, de sair dali, de entrar num avião, medo da realidade, afastada daquele novo ser na minha vida?

Nem sei como consegui, após 100 dias. Será que queria mesmo fazer o caminho de volta? Mas, claro, tinha que fazer. Difícil, foi difícil demais.

Aprendi na marra a praticar o óbvio: o que temos para hoje?

Tudo voltou a como era antes. Mas será? Que nada! Quando Arthur aparece no FaceTime, quando ele viaja para minha casa, gente, o mundo para! Para mesmo. Nenhuma outra coisa parece fazer sentido.

Agora, estou torcendo para ganhar outro neto ou neta. Penso em multiplicar berços e minutos de dedicação. Porque a alma, o coração, todo meu ser já está irradiando alegria.

Hei de ser como as avós que tive: carinhosas, leitoras de histórias e fazedoras de guloseimas. Inesquecíveis. Hei de fazer esse vínculo divino representar as melhores emoções, para mim e sobretudo para todos os netinhos que me chegarem!

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

E mais…

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Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

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Marcia Meccia é arquiteta

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