Avô Nicanor

Nicanor
Protagonista de aventuras memoráveis, o avô Nicanor fez história, teve pecados, mas com seu grande coração como atenuante

Por Fernando Pesciotta

Sonhos, paixões, política e uma vida para ser vivida

Alguém bateu à porta daquela casa na noite calorenta de 1947. A mocinha atendeu e viu do outro lado do portão um rapazote bem afeiçoado transmitir o recado: “O prefeito mandou avisar que vai atrasar um pouco para o jantar porque está havendo um pequeno tiroteio no palanque, mas não é para se preocuparem”. Nicanor

A moça preferiu que o rapaz entrasse para dar o recado diretamente a sua mãe. Nelson era seu nome, e ele acabou casando com a Ariza, a filha do prefeito.

Assim fica claro que meu pai conheceu meu avô por causa da política e antes mesmo de conhecer minha mãe. Mas o que interessa mesmo é que esse é apenas um capítulo das muitas histórias que cercam meu avô materno.

São casos hilários, felizes, tristes e até alguns pouco honrosos. Ricos, de qualquer forma, do ponto de vista humano. Se a vida é para ser vivida, como se diz popularmente, doutor Nicanor viveu a vida.

Bananal, na região do chamado fundo do Vale do Paraíba, até hoje ostenta numa praça pública o busto do Barão do Nogueira. Marco dos tempos de riqueza e glória dos plantadores de café, com direito a importar uma estação de trem inteirinha pronta, feita na Bélgica.

Mas quando Nicanor Ramos Nogueira nasceu a cidade já estava em declínio.

O orgulho de ser paulista o levaria a uma encrenca. Em 1932, quando eclodiu a Revolução Constitucionalista, Nicanor estava em Barra Mansa (RJ), onde morava a família da minha avó, Maria Aparecida, a mesma que anos mais tarde receberia o recado sobre o tiroteio no comício.

Pegando em armas

Nicanor correu para o outro lado da divisa a fim de, em território paulista, pegar em armas para defender seu Estado. Foi preso, acusado de traidor e levado para a sede do I Exército, no Rio. Por sorte, o oficial militar responsável por recepcionar os prisioneiros naquele dia era seu cunhado, meu tio-avô Zico, general por ter feito engenharia na escola militar.

A Faculdade de Farmácia, para estudar odontologia, foi o caminho encontrado para mudar de vida. Carregou a família para São Paulo. Se instalou na cidade, abriu um consultório e enriqueceu.

Morava numa bela casa, mas alugada e teimava em não comprá-la porque sonhava com um palacete. Certo dia, disse para mim e para meu pai que nos compraria um carro novo, desses bem grandes, com geladeira e tudo mais. Sonhador.

Aos sábados à noite, doutor Nicanor vestia uma camisa engomada e seu melhor terno de linho branco, lustrava até não poder mais seus sapatos e saía. Dizia que iria caçar com os amigos.

Essas caças nas festas dadas pelo governador Adhemar de Barros o levaram a ser o prefeito intervencionista de Pindamonhangaba, onde hoje é nome de rua, e, então, conhecer meu pai.

Um grande namorador

Doutor Nicanor não bebia, não fumava e não jogava. Ele só mulherava. Não ficou viúvo muito tempo. Aos 64 anos, casou-se com uma mulher de 24, com quem teve mais quatro filhos.

Por isso tenho tios mais novos do que eu. Para justificar sua escolha, um dia me olhou nos olhos, colocou sua mão direita sobre meu ombro esquerdo e, com um leve sorriso no canto da boca, disse: “Osso machuca, meu neto”.

Esse “vício” ajudaria meu avô a perder tudo que ganhou. Certo dia, de olho numa sirigaita, a alojou em casa e mandou seu marido, com dinheiro, carro e escritura tomar posse de umas terras que comprara no interior do País.

A última vez que vi meu avô foi logo após o derrame que o abateu, quando ele tinha 84 anos. Depois de várias mudanças, por falta de condições para pagar o aluguel, doutor Nicanor morava na periferia de Guarulhos.

No fundo daquela sala, estatelado num sofá, com uma camisa puída que mal lhe cobria o corpo, gesticulou e se esforçou ao máximo para expor sua maior queixa naquele momento: não podia mais ter relações sexuais.

Doutor Nicanor já deve ter sido julgado por seus erros. Seu coração, onde sempre cabia mais um, pode ter sido uma atenuante.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

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Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

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Fernando Pesciotta é jornalista e neto de Nicanor

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