Avós não morrem, se transformam…

Vó Thereza com a bisneta Lisa, passando de geração em geração o significado de coisas simples, mas poderosas: amor, afeto, cuidado

Por Liliam Benzi

► Se eu pudesse escolher apenas duas palavras para definir minha infância, elas seriam Luiz e Thereza. Meus avós, pessoas bem diferentes, mas de uma complementaridade ímpar, foram e são até hoje minha principal fonte de inspiração. Foi com eles que aprendi – e vivenciei – o significado de coisas simples, mas poderosas: amor, afeto, cuidado… Eles sabiam praticar os sentimentos e não apenas discursá-los.

Quando fui deixada na casa dos meus avós, ainda bebê, para me recuperar de uma desidratação que quase me levou desta para melhor, eles não só me receberam no sobrado simpático da Pompeia. Eles escancararam seus corações e mentes para uma criança frágil e carente e se viram obrigados a reaprender a brincar, ensinar, educar. O único filho, meu pai, já havia deixado o ninho há tempos.

E de repente foram apunhalados pela ruptura. Minha mãe “arrancou” a Lilás (meu apelido até hoje e que foi carinhosamente dado pelo vó Luiz, acho que porque cheguei lá roxa…) de lá aos três anos, pois achava que eu precisava viver mais em família. Assim, da noite para o dia, a família passou a ser a madre superiora de uma creche na qual eu ficava o dia todo.

Até seus últimos dias, meus avós lamentaram o ocorrido, mas, para o bem da família, entenderam ou fingiram perdoar. Mas este é um outro capítulo, não para “avŏsidade”, mas para “paisidade”.

Nesta época são vivas e doces as lembranças das visitas à casa de vô Luiz e vó Thereza duas vezes por semana. O fusca do meu avô parava na porta da minha escola às terças e quintas para me levar de volta ao paraíso. Na noite anterior, eu já havia ligado para minha avó e estipulado o cardápio do almoço. Aqui cabe um aparte: minha avó era uma cozinheira premiada. Seus bolos, tortas, pizzas, feijoada e panetones não conquistaram apenas prêmios culinários; eles enchiam os olhos e aguçavam o paladar de vizinhos, parentes e amigos.

No Natal, a produção de panetones inundava as ruas da Pompeia com o aroma de fornada recém-saída. Eram mais de 60 para presentear a todos. Me lembro do orgulho de ir com meus avós, quando já era mais velha, visitar os parentes e amigos para presenteá-los com o quitute. Ninguém era esquecido e todos ganhavam o mimo com a certeza de estarem recebendo junto um quinhão de amor e gentileza. Outro aprendizado dos meus avós: presentear, dar aos queridos o seu melhor.

Sobre o paladar, só hoje aos 48 anos me dei conta de como os sabores da avó Thereza são importantes na minha vida. Precisei de um namorado importado, que ama comer e cozinhar, para perceber que cozinhar é genuinamente uma prova de amor indelével. Os sabores ficam e por mais simples que seja a comida, seu sabor virá da quantidade de amor depositada na receita. E minha avó Thereza, intuitivamente, sabia disso…

E por falar em Natal… Ah, os Natais! Eles só começavam quando meus avós chegavam e traziam a reboque a fartura da comida e os presentes. O Natal também me faz lembrar que duas vezes por ano – verão (pré Natal) e inverno (pré meu aniversário) – minha avó me levava na famosa Rua José Paulino para comprar roupa.

Lá, ela aproveitava para me contar sobre sua infância no bairro do Bom Retiro, das enxurradas que enfrentava e como a friagem excessiva da época de criança pobre tinha levado à perda da audição de um dos ouvidos. Aliás, eu e meu avô, no final das tardes das terças e quintas, enquanto jogávamos peteca da sala, adorávamos caçoar da nossa surdinha predileta. Tudo como muito amor, respeito e o carinho que sempre permeou nossa linda relação. Nestes momentos me perguntava por que não havia nascido filha deles. Hoje sei que foi muito melhor: nasci neta!

Enfim, as memórias são várias e para nunca deixar meus avós morrerem, mantenho fotos deles em minha casa em lugares estratégicos. Ao assistir TV ou passar para os quartos sempre retribuo o sorriso das fotos. Sei que eles não morreram e nunca morrerão.

Vô Luiz e vó Thereza simplesmente se transformaram na energia que diariamente me faz acordar e enxergar o mundo com os olhos da alma. A união de uma Thereza sonhadora e de um Luiz pragmático, ambos amorosos e gentis, me faz uma pessoa feliz e melhor. Assim se me perguntarem quais os melhores momentos da minha infância, a resposta é simples: momento avós!

 

Liliam Benzi – ou Lilás para a família – é jornalista e empresária da área de comunicação. Aos 48 anos, com uma filha. Lisa, de 10 anos, orgulha-se de continuar sendo neta. No trabalho ou no seu hobby – pilotar um balão de ar quente – ela procura repassar a sabedoria e a afetividade herdadas dos avós

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11 Comentários

    • Liliam Benzi said:

      Puxa, escrever já foi um presente, mas receber este comentário, foi ainda mais lindo. Obrigada. Que todos os avós e netos se sintam abraçados e amados. Beijos, Lilás

  1. Maria Evanilda Mazzini said:

    Seu texto é lindo! Lendo-o, reportei-me aos bons momentos que vivi com meus avós maternos. Cada um a seu modo, contribuíram para que eu me tornasse uma avó muito feliz e dedicada. Quero, um dia, poder colocar essa emoção num texto que expresse toda a gratidão por ter tido avós tão especiais como os seus, Liliam!

  2. Vô Delmar said:

    Lindo “Lilás ”

    Manter a chama acesa do amor mais próximo do verdadeiro amor. “O amor dos avós pelos netos” é fundamental para a construção de um mundo melhor. Parabéns pela bela narrativa de amor.

  3. Tânia Lucia said:

    Texto lindo, permitiu-me uma viagem. Lilás, que tenhas sempre inspirações, que sejas abençoada sempre para que possamos viajar no mundo das suas letras.

  4. Bernadeth De Lourdes Moreno Moreira said:

    Lindo texto !!! Eu sou uma vó assim , tenho 4 netos , amo por mas dá conta , amo quando chega férias , minha casa fica cheia , com tantas risadas , tanto vó , estou com fome , vó vem no banheiro , vó estou com sede , vó onde está minhas sandálias , eu fico cansada mas com o coração cheio de amor , sou grata a Deus por essa alegria de ser Avó !!! Parabéns Lilás …

  5. Carmen C Mariz said:

    Lilás, chorei! Seu texto me reportou à minha infância na companhia da minha amada vó Iaiá. Flores de Manacá, chá de flores de laranjeira, bolinhos de chuva e encantadoras estórias sob a luz do luar prateado da minha terra. Até hoje sinto o perfume adocicado do chá e o cheiro dos bolinhos. Mas o que ficou incrustado na alma foi o amor dessa avó amorosa e sábia que até hoje, passados mais cinquenta anos, deixou mim a sua melhor parte: O amor!

  6. Helia Nara ..21 de junho 2017 said:

    Lilás que delicia saborear essa paralavras escritas com tanto carinho que vc dividiu com pessoas desconhecidas como eu.mas desde ja te adimiro pois não tive esse previlegio mas tive e tenho uma mãe que é pra mim pai..e minha vozinha muito querida pela sua dedicação comigo com os netos e os bisnetos o amor dela se transborda e eu tento eu juro com todas minhas forças de ser a melhor filha ( AH SOU FILHA UNICA ) companheira e amiga que ela ja teve e para meus 5 netos por enquanto um amor tão grande ki doi de tanta felicidade por Deus ter me dado o previlegio de er essa mãe maravilhosa e esses meus netos muito fofos..bjss imenso amor Lilás…

  7. Tiana said:

    Estou emocionada, sou avó de 3 netos lindos. É muito amor envolvido! Pretendo ser para meus netos, melhor eu e meu marido tentamos ser avós perfeitos. Talvez um dia sejamos lembrados com muito carinho, igual vc recorda dos seus. Parabéns!

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