Casa de vó e a nossa casa

Casa
A tranquilidade da casa da avó Ursula, jardim, flores, sombreados, um lugar especial pra leitura, palavras cruzadas e chocolates

Por Natália Pesciotta

Mosaico de afeto, neta traz para a sua um pouco das casas das avós

Desde que pude ter um canto meu para morar, e parei para pensar do que um lar precisa para ser um lar, as casas das minhas avós vivem na minha cabeça. Mais do que nos azulejos e samambaias, penso nos universos que foram para mim. Casa.

De Lorena, como eu achava que chamava não a cidade, mas a própria casa da vó, quando eu era pequena, lembro do barulho. Tinha um movimento constante que parecia colocar a casa viva!

Ela nem existe mais, a vó já não usa casas, mas posso até ouvir: a máquina de lavar, a chaleira, as vozes, o esguicho no jardim, tudo ao mesmo tempo. Casa é o lugar onde se tem a água, o fogo, a terra.

Pelo contrário, da casa da minha outra avó, eu desejava o silêncio. O sombreado. Há décadas invejo o canto dela no sofá, ao lado do abajur, onde pode passar as tardes entre jornais, chocolates e palavras-cruzadas. Eu precisava encher dias e noites com tarefas de jovens…

Tranquilidade e solidão Casa

Agora, não. Nessas semanas duras de pandemia, fico em casa também, e tenho forte comigo a presença delas, minhas avós. Quando espremo um suco. ºQuando molho as plantas. Quando me animo com compras novas. Até quando falo sozinha. Essas sutilezas nos aproximam. Bem na época em que precisamos estar longe dos mais velhos.

É irônico pensar no sofrimento da minha avó na quarentena, justo ela que nunca quer sair de casa. “Hoje tenho muito o que fazer”, costuma despistar os convites. E agora está maluca sem poder ir à feira, à farmácia… Pelo visto, não só ela.

Todo mundo já notou a grande quantidade de idosos circulando, enquanto ficamos em casa por eles! Até achamos graça: como são teimosos, como insistem em desobedecer, como não conseguem parar quietos.

Penso comigo, tampouco conseguimos. É que as gerações anteriores mantêm o hábito de socializar muito na rua. E nós em lives, posts, stories, qualquer coisa online, ao vivo, o que também só fazemos cada vez mais.

Pela internet, ouvi uma psicóloga comentar a dificuldade de idosos no isolamento – querem a independência e a segurança da rotina. Ela explicava ainda o nosso equívoco em muitas vezes brigar como se fossem crianças, em vez de ouvir e estabelecer diálogos.

Não é de hoje. Em nossa casa comum, há tempos faltam caramanchões, baralhos e relógios de parede. E tá difícil de acreditar em reformas.

Quando falamos em avós, não se trata apenas das nossas origens familiares. São nossas origens de humanidade: o contato pessoal, o cuidado, o fazer manual, a pausa, o cotidiano. Coisas que não deveríamos deixar morrer, se quisermos fazer algum sentido como espécie.

(Será por isso que todo mundo deu para fazer pão?)

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então.

E mais… Casa

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Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então.

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Natália Pesciotta é jornalista e colabora habitualmente com o portal avŏsidade

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