Das alegrias e agruras de ser avó e avô

Vovô Sérgio e as netas gêmeas de 1 ano e 10 meses: “Avós são a síntese do acolhimento. No entanto, é sempre delicado agir. Pisa-se em ovos”

Por Sergio Augusto de Castro

► Avós não são perfeitos. Eles também não são pais, embora sejam. Avós são, apenas, ou sobretudo, linhas da urdidura, fios do tecido familiar e social que surge com o nascimento de cada criança. Pais e filhos tem uma relação única, fundadora. Avós e netos são o desdobramento disso, a primeira possibilidade da criança sair da cápsula que a encerra em sua aventura existencial.

Pais são advérbios. Avós são substantivos. Pra remedar, pais são prosa. Avós são poesia. Avós não atuam no plano do real, do cotidiano, em que pese seu papel utilitarista de socorrer os pais nas várias ocasiões, e por todas as razões, em que eles se ausentam. Avós não querem ser pais. Querem mesmo ser avós, pois é a condição em que se sentem abençoados, como diria minha inesquecível vovó.

Buscam, em metáfora própria, recriar suas vivências com a maternidade e a paternidade, renovar relações e afetos. Giram numa órbita afetiva e lúdica, acima do costumeiro e do recorrente, e se tornam referência, uma espécie de ponto cardeal da origem e do caminhar da família. São eles as raízes familiares, o elo das crianças com o passado e o que faz alocar em nossa memória futura uma área onde armazenamos e decodificamos a formação da nossa infância.

A ternura que vem disso é o que nos fortalece e nos torna mais generosos na vida adulta. Sempre, em nossas lembranças, lá estará a casa da vovó e do vovô, as comidinhas, as guloseimas, as conivências, as alegrias, os passeios brincalhões com eles. Nossa saudade, um dia, haverá de repousar nessas reminiscências.

Manuais sobre o papel de avós já encheram páginas de normas e conselhos de como dar banho, usar o sabonete “certo”, respeitar horários e outras frivolidades que a vivência dos avós dispensa, em geral sem encontrar temperança nos pais. Avós podem errar numa troca de fralda, numa combinação de roupas. Mas acertam toda vez que acolhem os netos no colo, com seus afagos e beijos.

Avós são a síntese do acolhimento. No entanto, é sempre delicado agir. Pisa-se em ovos, sobretudo para não chatear os pais com nosso jogo leal e amoroso, muitas vezes conivente, às vezes permissivo e quase sempre tolerante com os netos. Avós carinhosos e sensatos procuram o ponto de equilíbrio para atuar de forma não conflitiva com os pais.

Mas, como tudo e todos, podem cair na margem de erro pois os avós tem prerrogativas próprias de avós e isso os habilita a amar e se relacionar com os netos de forma diferente dos pais. Esses avós, que enfrentaram a vida sem tutorial, também sabem, por seus cabelos brancos, que não há teoria para aprender a ser ou desempenhar “bem” o papel de avós seguindo arquétipos.

Quem nos ensina isso são nossos próprios netos. São eles que nos puxam pelas mãos… e nos mostram por onde ir. E nossas almas agradecem.

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Sergio Augusto de Castro é um avô em formação (suas primeiras netas gêmeas ainda têm menos de dois aninhos)

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