Dr. Fabio Ancona: “O que vale hoje pode não valer amanhã”

Nos vídeos abaixo, o Dr. Fabio diz que criança com dobrinhas, só até 1 ano, e que nos anos seguintes é melhor se ela for magrinha

Por Elisabete Junqueira e Jorge Luiz de Souza

● Entrevista com o médico avô-pediatra e nutrólogo Fabio Ancona Lopez

► Com sua experiência de mais de 50 anos de exercício da Pediatria, com especialização em Nutrologia, além de ser avô há 19 anos, o médico Fabio Ancona Lopez diz que “as leis da Medicina são verdades transitórias” e que “nas recomendações dos pediatras, o que vale hoje pode não valer amanhã”. Sábios conselhos!

O Dr. Fabio é autor do livro “Avós e Netos – uma forma especial de amar – manual de convivência” (Editora Manole, 2011), foi também o organizador da série de livros de sucesso “Filhos – da gravidez aos 2 anos de idade”, “Filhos – de 2 a 10 anos de idade”, e “Filhos adolescentes – de 10 a 20 anos de idade”.

Ele também coordenou a elaboração do “Tratado de Pediatria”, editado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), entidade da qual é vice-presidente, após ter sido por três anos presidente da Sociedade de Pediatria de São Paulo. É médico desde 1963, formado pelas Escola Paulista de Medicina (hoje Unifesp). Foi professor titular do Departamento de Pediatria da Unifesp até se aposentar.

Voltando às dicas do Doutor: “As coisas mudam e mudam muito. Então, com um tempo grande de atividade profissional, a gente passa por todas essas fases. Teve um tempo, no tempo das avós, vamos dizer assim, em que se imaginava que criança devia ser ‘gordinha’, criança tem que ter dobrinhas, criança sem dobrinhas é uma criança magra. Hoje a gente tem consciência plena de que, tirando o primeiro ano de vida, que é a idade de criança ter dobrinhas, daí pra frente ela não deve ter dobrinha nenhuma.”

Entre estar acima do peso ou um pouco abaixo do peso, afirma, “é preferível estar um pouco abaixo do peso”. Mas observa que “esse é um conceito que dificilmente as pessoas assimilam”. Segundo ele, “existe no inconsciente das pessoas a ideia de que, se eu estou acima do peso eu tenho uma reserva orgânica maior para reagir a infecção, a doenças, enfim, eu estou mais resistente do que se eu estiver sem essa reserva”.

De onde vem isso? A resposta é: “Quando o mundo começou a usar fórmulas infantis, o chamado leite em pó para crianças, os primeiros trabalhos comparavam o ganho de peso de crianças que recebiam fórmula na mamadeira com o ganho de peso das crianças que recebiam aleitamento materno, e concluíram que fórmula era muito bom porque as crianças ganhavam mais peso usando fórmula”.

E o experiente pediatra e nutrólogo arremata: “Hoje, a gente sabe que exatamente esse ganho de peso maior, que acontece com o uso de fórmula, em função de uma quantidade de proteína maior, de uma quantidade de gordura diferente, é um risco para a criança quando ela for um adulto. As avós não se conformam porque cresceram achando que não era assim. Ouviram lá das avós delas que tem que comer, né?”

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O Dr. Fabio tem quatro filhos e quatro netos: Talissa (19 anos), Victor (11), Giovanna (8) e Manoela (2 anos). Na orelha do seu livro “Avós e Netos”, sua neta Talissa, que então tinha 14 anos, escreveu:

“Vou roubar agora este pedacinho do livro do meu avô para explicar, em poucas palavras, qual é a sensação e a importância de ter avós. Os avós marcam a vida dos netos por estarem sempre de braços abertos para recebê-los e acolhê-los. Estão sempre presentes e sabem defendê-los muito bem quando necessário. O que mais impressiona os netos são as características e os costumes da maioria dos avós: histórias emocionantes, habilidades gastronômicas surpreendentes, truques invencíveis no baralho, inteligentes lições de vida e, principalmente, sua incrível capacidade de agradá-los, sem medir esforços!”

 

Assista a seguir aos vídeos com os principais trechos da entrevista:

 

Dobrinhas

Nas recomendações dos pediatras, O que vale hoje pode não valer amanhã

“As leis da Medicina são verdades transitórias. O que vale hoje pode não valer amanhã, pode voltar a valer depois de amanhã, e assim vai. Pode comer ovo, não deve comer ovo; ovo não faz mal, ovo faz mal; colesterol depende disso ou depende daquilo. Enfim, as coisas mudam e mudam muito. Então, com um tempo grande de atividade profissional, a gente passa por todas essas fases. Teve um tempo, no tempo das avós, vamos dizer assim, em que se imaginava que criança devia ser ‘gordinha’. Criança tem que ter dobrinhas. Criança sem dobrinhas é uma criança magra. Hoje a gente tem consciência plena de que, tirando o primeiro ano de vida, que é a idade de criança ter dobrinhas, daí pra frente ela não deve ter dobrinha nenhuma. Entre estar acima do peso ou um pouco abaixo do peso, é preferível estar um pouco abaixo do peso. E esse é um conceito que dificilmente as pessoas assimilam. Porque existe no inconsciente das pessoas a ideia de que, se eu estou acima do peso eu tenho uma reserva orgânica maior para reagir a infecção, a doenças, enfim, eu estou mais resistente do que se eu estiver sem essa reserva. E essa reserva acaba sempre sendo gordura acumulada no organismo. Então, a gente tem que saber que a ideia inicial de que as crianças têm que ter mais peso, ela não é correta. Quando o mundo começou a usar fórmulas infantis, o chamado leite em pó para crianças, os primeiros trabalhos comparavam o ganho de peso de crianças que recebiam fórmula na mamadeira com o ganho de peso das crianças que recebiam aleitamento materno, e concluíram que fórmula era muito bom porque as crianças ganhavam mais peso usando fórmula. Hoje, a gente sebe que exatamente esse ganho de peso maior, que acontece com o uso de fórmula, em função de uma quantidade de proteína maior, de uma quantidade de gordura diferente, é um risco para a criança quando ela for um adulto. As avós não se conformam porque cresceram achando que não era assim. Ouviram lá das avós delas que tem que comer, né?”

 

Ocasional

Há muita diferença entre a avó que tem contato diário e a avó ocasional

“Tem avó que tem contato ocasional com o neto (…) se ela não conseguir fazer esse compartilhamento de modo de agir, vai ser uma relação complicada.”

 

Nutrição

Há uma série de modismos sobre alimentos que as pessoas leigas acreditam

“Nutrição é um assunto que vende, é só a gente ver em banca o que tem de revistas (…) as mães são vítimas desse tipo de informação.”

 

Nutrologia

Excesso de informações inadequadas desorienta pais e avós e é ruim pras crianças

“As pessoas têm muito essa ideia de que alimentos são (…) é melhor buscar informação e bom senso com quem tem como orientar de modo mais adequado.”

 

Cuidados

Diferenças entre ontem e hoje quanto aos cuidados dos pais com os filhos

“Eu acho que houve uma mudança importante na relação pais e filhos (…) não é mais comeu, pronto, vestiu, botou na escola e tudo bem, como era antigamente.”

 

Desfraldar

Criança não é bandeira para desfraldar, é preciso respeitar o tempo dela

“Hoje, tem criança com 6 meses e às vezes até menos (…) tenta uniformizar todo mundo, mas não é assim, muito pelo contrário.”

 

Vínculo

Pais compensam o pouco tempo com os filhos oferecendo superalimentação

“Essas realidades hoje fazem com que a mãe (…) na realidade, não é isso que ele está querendo, ele está querendo é a mãe, não está querendo sorvete.”

 

Participação

É muito importante que avó, mãe e pediatra falem a mesma língua

“Eu diria que as avós participam mais hoje (…) se ela tirar o filho da creche e ficar três horas com o menino dentro de casa vai funcionar muito melhor.”

 

Família

Papel dos avós quando um casal tem filho e se transforma em família

“Um casal vai pra maternidade (…) a avó tem que entender a importância disso para estar exatamente defendendo a posição da filha dela, como mãe.”

 

Pai e avô

Fruto da luta por espaço da própria mulher, avô e pai hoje participam mais

“Hoje, sem dúvida nenhuma, o pai participa de um jeito diferentes (…) o vovô hoje deita no chão e brinca com o neto, desde que a coluna dele permita.”

 

Maturidade

Paternidade muito cedo x maturidade que valoriza a relação com as crianças

“Eu fui pai (…) mesmo se trabalha muito tempo, se fica pouco tempo em casa, o tempo em que está junto tem que estar aproveitando isso.”

 

Aprendendo

A gente aprende a ser pai ou mãe, assim como a ser avó ou avô

“Eu gostaria de dizer que a gente está sempre aprendendo (…) pra viver uma paz permanente e proporcionando o equilíbrio da família, desde criança.”

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Elisabete Junqueira e Jorge Luiz de Souza são fundadores do portal avosidade e avós de Mateus, Sofia, Rafael e Natalia, e esperam mais um neto para daqui a poucos dias

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