Dr. Saul Cypel: relações intrafamiliares dos avós com os pais são delicadas

Um dos maiores especialistas brasileiros em neurologia e comportamento infantil, o Dr. Cypel diz que avós têm papel na formação da nova geração

● Entrevista com o médico neurologista infantil Dr. Saul Cypel

 

Ele é considerado um dos maiores especialistas em neurologia infantil de todo o país e nessa especialidade é professor na conceituada Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). É Membro do Comitê de Especialistas e de Mobilização Social do Ministério da Saúde para o Desenvolvimento Integral da Primeira Infância. É o autor do livro Déficit de Atenção e Hiperatividade e as Funções Executivas, publicado pela Editora Casa Leitura Médica.

 

Quando o assunto é neurologia e comportamento infantil Saul Cypel é referência no assunto. Formado pela Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre, doutor em Medicina, esse gaúcho radicado em São Paulo desde o fim dos anos 1960 já atendeu em seu consultório, no Bairro de Pinheiros, milhares de mães, pais e filhos.

O entanto, se o assunto for a relação com seus seis netos, frutos dos casamentos de suas três filhas, o médico deixa de lado todo seu conhecimento e afirma que para ser avô é preciso ter tempo na agenda e não há um manual a ser seguido: “existe toda uma gama de informações a respeito da função do pai, da função da mãe. Mas a respeito da função dos avós a coisa é um pouco limitada.”

Nessa entrevista, o expert em comportamento descreve sua relação com os seis netos e fala sobre a rapidez com que as relações mudam (assim como muda a tecnologia) e a importância do papel dos avós na formação dessa nova geração da família.

 

Confira os principais trechos da entrevista com o Dr. Saul Cypel:

 

Avós pouco instrumentalizados

Dr. Saul diz que a gama de informações sobre a função de avó e avô é muito limitada

“Tudo acontece muito de repente. Num dia você não é avó, no outro dia você já é. Você recebe o título de avó e é interessante porque existe toda uma gama de informações a respeito da função do pai, da função da mãe. Mas a respeito da função dos avós a coisa é um pouco limitada. Existe toda aquela parte emocional, a surpresa, o prazer, um novo momento de vida. Mas eu acho que nós chegamos a esse momento pouco instrumentalizados.”

 

Família não são só pai e mãe

Desenvolvimento da criança, principalmente nos aspectos psíquicos, tem muito a ver com os vínculos que eles estabelecem dentro da família

“Lido muito com a parte de neurodesenvolvimento e tenho uma convicção de que o desenvolvimento da criança, principalmente nos seus aspectos psíquicos tem muito a ver com os vínculos e com as relações que eles estabelecem dentro da família. Entendendo essa família não só como pai e mãe, mas ela mais ampla: os irmãos e principalmente os avós. Todo esse conjunto acaba sendo importante. E é muito oportuno falar dessa condição dos avós para que a gente de alguma maneira, junto com outras pessoas, consiga ter um perfil do que é isso. É um momento novo, diferente na vida, que tem uma dose de prazer e uma dose de satisfação muito grande e que também tem uma dose de transpiração.”

 

Perfil da avó e do avô

Os avós têm função, são um pedaço da família expandida com tarefas a cumprir

“Qual é o perfil de ser avó? É uma coisa que cada um cria à sua maneira e o seu modo de funcionar. Acho que aquela figura do avô sempre sorridente, muito acolhedor, fazendo todas as vontades do neto é uma figura meio de Papai Noel, um pouco idealizada. Na verdade, o avô também tem as suas funções. Ele é um pedaço da família, do casal, expandida. Os avós por parte de pai, os avós por parte da mãe. E eles tem as suas funções. Sejam funções de presença, da atenção, de resolver algumas questões ou ficar com o neto no momento em que os pais têm que sair ou têm alguma atividade. Mas ao mesmo tempo existe toda outra vivência que não é tão prática assim. Como criar uma relação com esse neto de tal forma que ele consiga ter com você uma intimidade que é diferente da que ele tem com os pais. Como é que a gente estabelece isso? Não é uma coisa gratuita. Não é porque é neto, parente, que a coisa vai se dar bem. Implica num certo interesse, num certo despojamento. Doar tempo para poder estabelecer esse tipo de relação. Quando você me pergunta como é ser avô, acho que é ser uma tarefa. Não é como se dizia para as mães: ‘ser mãe é viver no paraíso’. Ser avó é uma tarefa que tem um lado ótimo, uma coisa muito boa da relação, e tem momentos mais delicados. Principalmente quando você tem vários netos e eles são diferentes. E você vai estabelecer uma relação específica com cada um deles.”

 

Às vezes ocorrem raios e trovões

As condições de vida são mais complexas e estabelecer regras de convivência é em parte um trabalho dos avós

“Se você tem netos, esses netos têm os pais e um dos pais é seu filho também. Esse relacionamento é muito gratificante. E precisa-se tornar isso um relacionamento prazeroso porque são relações que, às vezes ocorrem raios e trovões. A relação dentro da família não é uma relação muito simples de conduzir. Tenho a impressão de que de fato as coisas mudaram. Nós saímos de uma época onde se achava que se dizer não para criança era um ato terrível. Anterior a isso se deveria deixar a criança fazer tudo que quisesse. Para um momento agora, onde as condições de vida são mais complexas e você tem que estabelecer regras de convivência. Como fazer isso. Uma parte desse trabalho é feito pelos avós. Os avós assumem de alguma forma. Sempre dizia que avó e avô eram para mimar. Eu não sei se era bem assim. Tive uma avó que era durona. Mas ao mesmo tempo em que ela era durona, era ela quem esfriava quando o tempo esquentava lá em casa e eu perturbava meu pai e minha mãe. Ela vinha, entrava sem criar confronto com meus pais e acertava as coisas.”

 

Modernidade e novas tecnologias

As relações também começam a ficar diferentes devido às circunstâncias do ambiente

“Certamente na medida em que a modernidade for suprindo de novas tecnologias as relações também vão continuar mudando. Você ia para a casa dos avós e ficava lá jogando joguinho de damas, servia uns bolinhos, doces e coisas gostosas. Hoje o neto vai para casa dos avós e para ficar jogado videogame e ficar na televisão. A relação com os avós fica truncada. Até os avós precisam aprender como lidar com isso. Não é que não posso jogar ou brincar. Mas tem limite, como qualquer coisa em excesso. Gosto muito de chocolate, mas se comer 1 quilo por dia vou implodir. A mesma coisa com qualquer outro tipo de atividade, principalmente com essas coisas tecnológicas. Que são muito boas, são interessantes, desde que usadas de maneira adequada. Essas situações todas vão trazendo modificações nas relações. Por exemplo, se pegarmos a questão a segurança: na minha época de garoto eu jogava bola na rua. Nem era bola, era bola de meia. Agora não se vê ninguém na rua brincando. Então as relações também começam a ser diferentes em função das circunstâncias do meio ambiente.”

 

Relações intrafamiliares delicadas

Os avós precisam ser muito cautelosos e se dar conta de que têm experiência, mas que não podem pisar muito fundo no acelerador e sair a dar conselhos

“Essas relações intrafamiliares dos avós com os pais são relações delicadas. Entra todo um contexto grande e aspectos emocionais de cada um deles. E por parte dos avós, que é nosso tema aqui, acho que precisam ser muito cautelosos e talvez tenham que se dar conta de sabem, que têm experiência, mas que não podem pisar muito fundo no acelerador e sair a dar conselhos e dizer “faça desse jeito”. Talvez esperar um pouco que haja solicitação tanto do pai como da mãe. Ou muito delicadamente tentar trazer o assunto. Porque qualquer coisa que seja falada está sendo falada do filho daquele casal, do filho daqueles pais. E é muitas vezes difícil eles aceitarem algum comentário, alguma crítica em relação ao comportamento do filho. Porque ele é o perfeito, é aquele esperado. Se você sai a fazer alguma crítica ou sugerir que se faça alguma coisa às vezes os pais se incomodam muito com isso. Eu acho que tem que ter uma certa cautela. Como eu disse: esperar que eles busquem conversar sobre isso. E qual é a estratégia? Como é que faz? É mais prudente a avó conversar com a mãe, que é filha dela, do que ela ir conversar com o marido. Porque já tem um canal entre elas que é antigo. Pode ser até mais bem aceito.”

 

Palpites inconvenientes

Uma mãe de primeira viagem está com a ansiedade à flor da pele e não tem muito controle porque ela está no limite

“Você imagine o seguinte: nasceu um bebê, essa mãe é mãe de primeira viagem. Está ansiosa. Preocupada se seu leite é bom. Não sabe que de fato todo leite é bom Está insegura se o leite vai poder sustentar seu bebê, se ela está se achando gorda, os seios cresceram. Será que o marido vai continuar apreciando ela daquele jeito? Ela está assim com a ansiedade à flor da pele. Aí vem a avó, a mãe do pai, pode ser até a própria mãe dela, e de repente solta um comentário não muito conveniente. Dizer: ‘Olha, estou achando seu filho meio magrinho’. É uma bomba que ela solta no meio dessa relação. A mãe não tem como ter controle porque ela está no limite. Então, é preciso ter essa sensibilidade.”

 

Aprendizado emocional

Pai e mãe são aqueles que vão esculpir o desenvolvimento do filho e vão diretamente influir na estrutura dos aspectos emocionais

“Eu escrevo muito sobre isso porque acho que pai e mãe são aqueles que vão talhar, esculpir o desenvolvimento do filho. É como se subisse no cérebro do filho e fizessem uma escultura. Ele vai depender deles. E entender que essas relações não são externas. São relações que vão diretamente influir na estrutura dos aspectos emocionais, vão participar dos circuitos cerebrais. Com certeza, porque os avós também vão ter oportunidade de ensinar coisas para o neto. Também haverá um aprendizado emocional que da mesma forma como outros aprendizados deixa registro nos circuitos neuronais.”

 

Capa livro Déficit de  Atenção e Hiperatividade

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6 Comentários

  1. Maria Dinelza said:

    É muito difícil mesmo essa relação. Os avós precisam estar atentos a essas questões, pois ás vezes o que é feito com a melhor das intenções, pode causar desconforto entre pais, noras/genros e filhos.

  2. Salete R Pezzo said:

    No meu caso, não são os pais (minha filha e meu genro) do Ulisses e do Raul que têm filhos perfeitos; eu e meu marido temos netos perfeitos! Aí há fricção…

  3. Terezinha said:

    Boa noite! Tenho quatro netos, lindos e dois do meu filho mais velho ñ veem na nossa casa! Me sinto muito triste com esta relação.Mas chegou numa situação tão difícil .Que tive que me submeter ao desapego.sofro muito! Mas já devolvi para Deus meu Filho pq ñ tem mais volta.As tenho dois, que convivem comigo muito bem ! Graças à Deus!Mas ñ é fácil.Meu neto que tem treis anos ñ me conhece.triste isto!! Mas levo comigo,que ñ fiz nada.Me sinto de consciência leve.Um grande Abraço para quer ler .É nunca passem por isto!!!

  4. Terezinha said:

    Boa noite! Tenho quatro netos, lindos e dois do meu filho mais velho ñ veem na nossa casa! Me sinto muito triste com esta relação.Mas chegou numa situação tão difícil .Que tive que me submeter ao desapego.sofro muito! Mas já devolvi para Deus meu Filho pq ñ tem mais volta.As tenho dois, que convivem comigo muito bem ! Graças à Deus!Mas ñ é fácil.Meu neto que tem treis anos ñ me conhece.triste isto!! Mas levo comigo,que ñ fiz nada.Me sinto de consciência leve.Um grande Abraço para quer ler .É nunca passem por isto!!!

  5. Maria cunha said:

    Adorei a matéria, e vejo que nunca pensei muito sobre ser avó , essa situação foi bombástica para mim, me trouxe um mundo novo, um amor novo, de um amor que eu nunca tinha sentido, tão grandioso que se espalhou por toda minha vida familiar. Pessoal e profissional e tenho vivido numa paz que amo meu filho, amo a mãe de minha neta, amo minha neta e os respeito, jamais questiono suas posições em relação a nada e apenas curto e amo cada momento que tenho com ela!!! Acho que quando se ama não tem muito que pensar, o coração sempre acerta!!!

  6. maria said:

    É muito engraçado. Sou avó mãe. Tenho cinco netas, as filhas das minhas duas filhas moram comigo. Aos poucos, fui assumindo esse papel junto com meu marido de pai avô e mãe avó. Por isso sou muito rigorosa com elas, porém tb muito carinhosa.
    Acho que na minga vida os papeis se inverteram. Fui avó qd era mãe e agora sou mãe qd deveria ser avó.
    Talvez por ter sido mãe muito cedo.
    A minha responsabilidade aumenta cada vez mais.
    Tento todos os dias, alerto minhas filhas para o seu papel. Mas elas encaram as filhas como irmãs e eu como a matriarca.

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