Dra. Elizabeth Monteiro: o neto único

A autora tem longa experiência com crianças, pais e avós que atende em seu consultório, e experiência própria com seus 4 filhos e 6 netos

Por Elizabeth Monteiro

● Palavra de especialista

 

► Assim como o número de filhos, o número de netos vem diminuindo consideravelmente. É ou não é?

E assim como o filho único, o neto único, não necessariamente, se tornará uma criança mimada, solitária e difícil. Tudo dependerá do ambiente em que ele está inserido e das pessoas que o cercam.

Geralmente, quando nasce um neto, os problemas acontecem porque todos querem cuidar dessa criança. Não é assim?

Os avós reclamam porque a criança ficou mais tempo com um, menos tempo com o outro. Reclamam porque os pais limitam as visitas, não aceitam as suas sugestões, não sabem educar como eles gostariam que essa criança fosse educada… E agora? E quando a criança é o único neto?

O neto único sofre muito menos do que o neto rejeitado. Ter de conviver com a questão de certos avós que preferem um só neto é bastante triste.

Porém, não ter outras crianças na família, ser o foco de atenção, cuidados e disputa dos adultos, ter de corresponder às expectativas dos outros, é tarefa árdua para uma criança. Principalmente se existe competição e disputa entre os pais e avós.

Conheci um garotinho que era o neto único. Os seus pais haviam decidido não ter mais filhos e toda a família era pequena. A família vivia como se fosse o famoso “arroz carnaval”, aquele que vem em bloco. Aonde o casal ia, iam os dois casais de avós.

Cara! A criança não dava um passo sozinha!… Tudo lhe era dado nas mãos… Os pais? Pareciam dois bonecos “João Bobo” comandados pelos seus próprios pais. A criança, com os seus 7 anos, era branquinha, frágil, delicada e só brincava com os avós superprotetores.

Jogava xadrez, lia, batia uma bolinha bem comportada, assistia TV e aprendia culinária. Andava sempre impecavelmente bem vestido e tinha um discurso bem precoce para a sua idade.

Bati o olho nesse menino, que chegou a mim com queixa de ser barulhento em casa, e logo fui avaliar a dinâmica familiar.

Chamei o casal na “chincha”. Não poderia concordar com o jeito que essa criança estava sendo criada. Veja só: Que cômodo para os pais, não?

Estavam tão acomodados com a dominação dos avós, que abriram mão dos seus papeis! E o pior… Estavam se comportando como idosos, pois passaram a não aguentar nem os barulhos que o menino fazia para brincar com os seus carrinhos. A casa toda não era feita para uma criança.

Ser neto único, nessas condições, é o assassinato de uma infância.

Uma criança precisa de muita gente em torno dela. Gente de todas as idades, de todos os perfis. A criança necessita de muitos modelos de identidade para crescer.

Uma casa precisa ter espaço físico e afetivo para acolher uma criança. Crianças não andam: correm. Crianças não falam: gritam. Sofá foi feito para se pular e espelho para fazer caretas.

Crianças precisam de avós que a deixem voar. Precisam de avós que passeiam os seus olhos sobre ela, que brinca em liberdade e em pleno gozo de felicidade.

Não existe nada de mal em ser neto único. O mal que existe está nas pessoas que a cercam e no ambiente que lhe apresentam para crescer.

 

Elizabeth Monteiro é psicóloga e psicopedagoga, especialista em relacionamento entre filhos, pais e avós, autora dos livros “Criando Filhos em Tempos Difíceis”, “A Culpa É da Mãe”, “Cadê… o Pai Dessa Criança?” e “Avós e Sogras – Dilemas e Delícias da Família Moderna”; tem quatro filhos e seis netos, e escreve todo mês no portal avǒsidade

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2 Comentários

  1. Maria Cunha said:

    Que ótima abordagem, sempre bem vindo o olhar de um terceiro, também sou avó de neto único e me preocupo com a educação, com minhas atitudes, temo por excesso e por falta mas meu amor e o amor dela por mim ah!!! É uma delícia!!!!

  2. Maria de Fatima Pinto said:

    Tudo demais tende a ficar doentio! Tenho sete netinhos entre 7 meses e 8 anos. Procuro dar atenção para todos. Um deles é filho único. Temia que ele ficasse mimado,bobão mas não ficou . É esperto,moleque e brincalhão. O preconceito sobre filhos únicos existe!!

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