Marina e a Fortuna

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O vovô Sérgio Vaz descreve com ricos detalhes as nuances da neta Marina, de 3 anos, assistindo a um musical infantil (Foto: Carlos Bêla)

Por Sérgio Vaz

● O olhar de um avó diante de um musical com a neta

► Aos 3 anos e 10 meses, Marina demonstra com absoluta clareza como gosta de ver show de música. Não dança, não canta junto. Presta absoluta atenção, séria; concentra-se totalmente no que está diante dela. Fica mesmerizada.

Nada contra quem, em show de música, dance e cante. Só quero registrar que Marina é assim, do tipo que não dança e não canta. Fica em silêncio, prestando absoluta atenção, séria, totalmente concentrada. Mesmerizada.

Não faz comentários durante o show. Se provocada, se perguntada, responde monossilabicamente – querendo dizer que está prestando atenção à música, e por favor não perturbem, tá?

Não responde de maneira grosseira, pouco educada, não. Responde apenas de maneira firme. Fim de papo – por favor.

A rigor, não há novidade alguma nisso. Desde muito cedo Marina já demonstrava que tinha uma capacidade de concentração maior do que parece ser a mediana entre as crianças. E aí vão os genes, o DNA.

O pai é assim – é capaz de se ausentar do que está ocorrendo à sua volta, por mais barulhento que seja o momento, para se concentrar em uma música que lhe ocorreu, um pensamento, uma ideia.

A mãe sempre foi muito de observar, quieta, o que ocorre em torno dela, antes de se manifestar de alguma forma. Primeiro vê, assunta, observa, tenta entender – só depois se solta. Pai e mãe são pessoas de grande capacidade de concentração; esse é um traço da personalidade deles.

O teatro aos olhos de Marina

Nem sempre e nem em tudo – estamos todos cansados de saber – os filhos puxam aos pais. Mas muitas vezes puxam, sim, não degeneram, não – e então era mesmo de se esperar que Marina fosse assim. E desde cedo já demonstrava pendor para isso.

Mesmo assim, observá-la hoje, no show da Fortuna, Tic Tic Tati, no Teatro Vivo, foi fascinante, impressionante.

Parecia que nem piscava.

Em volta dela, vi crianças cantando, dançando, pulando, chorando, gritando, falando, algumas sendo levadas para fora para se acalmarem.

Marina passou o show inteirinho sentada na cadeira, quietinha, o amiguinho Elmo no colo, aos mãozinhas grudadas uma na outra, like a prayer. Os olhões de jabuticaba muito abertos, as mãozinhas grudadas uma na outra.

Houve uma hora que as mãozinhas apertavam tanto uma à outra que a avó as segurou, silenciosamente, como que fazendo carinho – e aí então as mãozinhas deram uma leve soltadinha.

Só se mexia para bater palmas após cada música.

Tínhamos colocado Marina na cadeira junto do corredor, porque os cantores-bailarinos que acompanham Fortuna sairiam do palco e andariam pelos corredores, interagindo com as crianças.

Então tínhamos ficado numa posição um tanto esquisita – a criança na extrema direita do grupo formado por, da direita para a esquerda, avó, mãe, pai e avô.

(Éramos o maior grupo de adultos acompanhando uma única criança naquele teatro, brinquei, lá pelas tantas – mas que culpa tem a pequena se todos nós queríamos acompanhá-la para ver Fortuna?)

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Marina, curiosa, ao final da peça, durante a sessão de autógrafo (Foto Carlos Bêla)

Fixação pela arte

Quando Fortuna e seu ótimo grupo atacaram de “O Vira” (Luli-João Ricardo), um dos pontos altos do show, os cinco cantores-bailarinos, conforme previsto, desceram do palco, ocuparam os espaços nos corredores, cantando e dançando e brincando com as crianças. Um deles se colocou por um momento exatamente ao lado de Marina, à direita dela, juntinho dela.

Me estiquei para ver (me estiquei para vê-la durante o show inteiro, claro). A visão era impressionante: a pequena não dava a menor bola, a menor atenção para o cantor-bailarino colocado a menos de meio metro dela: os olhões, sem piscar, permaneciam firmes no centro do palco.

Ela assistia ao show da Fortuna. Não importava se era uma música mais alegre, em que todo mundo batia palmas para marcar o ritmo, ou uma música bem mais suave. Para ela não fazia a mínima diferença. Ao longo de todo o show, ela assistia, observava, prestava atenção, absorvia.

Marina não é, de forma alguma, adepta daquelas coisas de teatro participativo, de happenings, teatro vivo, interativo. Gosta mesmo é de assistir a um espetáculo: os artistas lá no palco, nós, da platéia, aqui, sentadinhos, prestando atenção.

Teria ela, nesse ponto específico, puxado o avô? Quem sabe?

Sou fã de Fortuna desde 1996, quando ganhei da minha amiga Vera Siqueira o CD Cantigas. A partir daí comprei todos os novos discos que essa cantora extraordinária lançava. Fortuna faz um maravilhoso trabalho de gravar as canções da tradição sefardita, dos judeus da Península Ibérica antes que algum europeu chegasse às Américas.

Reunião de gerações

Assim, quando bati os olhos no DVD Tic Tic Tati, lançado pelo Sesc de São Paulo, um trabalho de Fortuna voltado para crianças, comprei imediatamente. Marina teve uma época em que sempre pedia para ver o DVD aqui em casa – na casa dela não tem o DVD, só o CD.

De uns cinco meses para cá, no entanto, nunca mais pediu para ver, e, quando eu oferecia, dizia que não queria, e ia atrás de alguma outra coisa.

Assim, achei surpreendente quando minha filha disse que havia contado para ela que haveria show da Fortuna, e Marina disse que queria ir. Mary e eu imediatamente dissemos que queríamos ir também.

Marina é um ser absolutamente gregário, igualinha que nem a mãe. Adora estar junto com as pessoas – quanto mais, melhor. Esta vez agora foi a primeira em que fomos pai, mãe, avó e avô com ela a um show, e ela demonstrou adorar a experiência. Estava muito feliz, no caminho, durante a espera toda. Esbanjando bom humor.

Demonstrou não ter mais medo do escurinho do teatro. Da última vez em que Mary e eu tínhamos ido ao teatro com ela, para ver uma boa encenação de Frozen, no Teatro Bibi Ferreira, há uns seis meses, ainda tinha um pouco de temor quando as luzes se apagavam. Hoje, disse para a avó que o Elmo, seu amigo que hoje era filhinho, tinha um pouco de medo, mas ela já não.

Espetáculo iniciado, ficou daquele jeito, quase imóvel, olhões grudados no palco, ouvidos atentos, concentração total. Mesmerizada.

Gostinho de quero mais

Quando houve o bis, e muita gente ficou de pé, pediu para a mãe levá-la para mais perto do palco. E quando enfim terminou mesmo, deu uma choradinha: reclamou que queria mais.

E, após o show, fez questão de entrar na fila para chegar perto da Fortuna.

A fila não era gigantesca, mas era longa, e a pequena agora já pesa um tantinho, minhas costas já mostram o peso das muitas décadas, e lá pelas tantas encaminhei para ela a possibilidade de, se ela ficasse cansada, a gente ir embora. Foi firme: – “Quero ir até lá”.

Na hora H, na hora de chegar pertinho da Fortuna, agarrou-se à mãe; mal olhava para a estrela que a encanta já faz algum tempinho. A mãe explicou que Marina é tímida. Fortuna replicou de prima que ela também é.

Estou curiosíssimo para saber se, na próxima vez que vier aqui pra casa, vai pedir para ver o DVD da Fortuna.

De uma coisa já estou certo, embora a pequena ainda não tenha sequer feito 4 anos: que maravilha de espectadora essa criatura é.

Após o final do show, cantou algumas das músicas. Não é que não goste de cantar. Adora. Só que, durante o show, entende que é melhor ouvir.

Das muitas qualidades que admiro em Marina, esta é uma das melhores. Ela gosta de ouvir. Ela sabe ouvir.

♥♥♥

E mais…

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Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, revista Marie Claire, Portal Estadão, jornal O Estado de S. Paulo), edita os sites 50 Anos de Textos e 50 Anos de Filmes, e é avô de Marina

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