Marina no meio da febre da falta de vacina

Marina com vovó Mary, na agitação da espera de uma vacina contra a gripe, que está em falta: ela se mostra um ser iluminado

Por Sérgio Vaz

► Na espera de 3 horas, ela se mostra um ser iluminado.

Nesta quinta-feira, dia 31, participamos todos de um episódio estranho, ruim, desagradável, inédito para muita gente, que, sem dúvida alguma, é uma das muitas demonstrações de como a saúde pública está em frangalhos no país.

É um evento que se repetiu na maior e mais rica cidade do Brasil em diversos bairros, e seguramente continuará se repetindo nas próximas semanas pelo país afora.

Uma experiência inédita. Uma das funcionárias da clínica, experiente, veterana, dizia que nunca em sua vida havia visto nada sequer parecido com aquilo – essa imensa quantidade de gente querendo vacinar os filhos e não haver vacina suficiente, provocando aquela agitação nervosa.

Mas, à parte o fato de ter importância dentro do quadro maior, da História, foi um episódio que demonstrou fartamente como Marina é um ser iluminado, abençoado.

Direto ao fato: durante cerca de 3 horas, Mary e eu ficamos com Marina à espera de uma vacina contra a gripe, junto de uma clínica particular em Perdizes (São Paulo). Havia na clínica algumas centenas de pessoas – crianças com seus pais ou avós ou babás.

O chão dos diversos cômodos estava tomado por adultos e crianças, num calor insuportável. A algazarra, a algaravia era altíssima – dezenas e dezenas de vozes falando ao mesmo tempo.

Era final da tarde, começo da noite.

Eu me senti um tanto mal em alguns momentos, numa impaciência brutal.

Pois Marina, 3 anos redondos recém-completados, deu umas choradinhas, umas reclamadinhas, em duas ou três ocasiões, apenas.

Em seguida se distraía, fazia alguma outra coisa, transformava alguma coisa em brincadeira, e ia em frente.

Acho absolutamente inacreditável, fantástico, sensacional.

A mãe chegou do trabalho nos momentos finais da espera, quando faltavam uns dez minutos para ela ser vacinada, seguindo a ordem das senhas distribuídas várias, várias horas antes. E então a mãe pôde ficar com ela no momento exato da picada da agulha – e aí, claro, óbvio, ela chorou. Mas não durou cinco minutos.

Quando entramos no carro da Mary para fazer o percurso de poucas quadras até a casa delas, a pequena já não chorava – e perguntava para a mãe por que tinham feito furinho na perna dela e, em seguida, se não daria para eles jantarem fora de noite.

(Tem adorado jantar fora de noite.)

Assim que as deixamos junto da portaria do prédio, Mary e eu, quase na mesma hora, comentamos como essa criança é uma bênção.

Ah, mas é demais da conta…

***

Tá certo: houve fatores favoráveis.

Não ficamos com Marina o tempo todo dentro da clínica, na fila.

Quando, no trabalho, no meio da tarde, foi avisada de que aquela clínica tinha recebido um lote de vacina contra a gripe, minha filha tomou providências, pediu para a Cláudia ir lá pegar a senha e ficar lá. E pediu para que, em vez de pegarmos Marina e trazê-la aqui para casa, conforme combinado havia dias, nós a levássemos diretamente para a clínica.

Mary teve a bela sacada de não esquecermos livrinhos, e levei dois. Então, depois de entrar na clínica, conversar com a Cláudia, nos inteirarmos da situação, pudemos ficar com ela lá fora – achamos um lugar de sentar na porta de uma casa vizinha à clínica, e Marina abriu os presentes do tio Floriano, e ouviu as duas histórias.

Uma delas, “Eu fico feliz, você fica feliz”, de um ursão que se encontra com um arganaz que toca flauta, é gostosa, mas um tanto longa, e ela só quis ouvir uma vez. A outra, “Mãenhê!”, ela adorou. Pediu que eu contasse de novo. Depois pediu que a avó contasse mais umas três vezes.

Me senti um pouco enciumado, porque a função de contador de história, aqui, é minha, mas a pequena pediu para a avó e a avó revelou-se melhor contadora de história do que eu. Paciência: o que eu posso fazer se tudo o que a avó faz é melhor do que eu faço?

***

Teve um momento em que ficamos no carro, durante uns 15, 20 minutos. Com a sorte imensa que tem, Mary tinha conseguido parar o carro bem pertinho da clínica. Foi quando caiu uma chuvinha – e foi um dos momentos em que Marina demonstrou impaciência, cansaço, irritação: dizia que não queria vacinar, que queria ir pra casa do vovô e da vovó.

Dei uma choradinha. Argumentamos com ela. Achamos na lancheira dela um tanto de milho, que ela adora, e ela comeu um pouquinho. Mary tinha ligado o ar, e de repente a pequena começou a brincar com aqueles controles da saída de ar, e se divertiu.

Teve também um momento em que fomos a uma loja de conveniência – bem pequena, bem simples – no posto de gasolina diante da clínica. Foi uma maravilha, porque, quando propus a ela que ela fizesse xixi, topou de primeira e alegremente (isso nem sempre acontece; é loteria), e foi com a avó e depois me chamou também para ver que no teto do banheiro tinha um espelho e o banheiro parecia um avião!

***

Então: de fato, houve fatores favoráveis. Sem dúvida.

Enquanto a Cláudia aguentava a barra na fila, pudemos ficar com Marina durante bom tempo lá fora. De vez em quando entrávamos, para ver como iam indo as coisas, mas na verdade Marina pôde ser poupada de ficar lá dentro o tempo todo.

Tivemos sorte? Sim, tivemos. Marina teve sorte de ter os avós vizinhos e disponíveis. É verdade.

Mas isso não tira o mérito dela.

Meu Deus do céu e também da terra, que criaturinha iluminada.

 

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, revista Marie Claire, Portal Estadão, jornal O Estado de S. Paulo), edita os sites 50 Anos de Textos e 50 Anos de Filmes, e é avô de Marina

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