Minha neta predileta

Vovô Paulo escreveu este poema para sua neta Bárbara, pensando numa rara homenagem: editar em um livro de 16 páginas ilustradas por ele

Por Paulo Moura

► Minha neta é muito bonita. Acho mesmo que ele é linda. Na verdade, para mim, ela é bárbara! Minha neta (predileta) é inteligente, carente, comovente, meio inconsequente, uma criança parecida com a gente.

Minha neta é cheia de meninice, de candura, de criancice, de meiguice, mas sem tolice ou mesmice.

Minha neta, pula, salta, dá piruetas, é peralta, é pernalta, astronauta, espoleta. Mais parece um cometa e com ela, por favor, não se meta.

Na escola é atenciosa, estudiosa, com todos carinhosa. Acha a comida apetitosa e aos mestres sempre oferece uma rosa.

Na hora do recreio, acorda e pula corda, corre-corre, pega-pega, esconde-esconde, não sei onde.

Depois o vôlei, o basquete e até um joguinho de futebol. E a bola rola e o tempo se embola, e termina a hora do recreio. Com determinação, imaginação, empolgação, correção e finalização. E o notão?

Minha neta é uma boneca, se usa tranças fica moleca, muito esperta e sapeca; é mesmo levada da breca.

Minha neta tem medo de lagartixa, de gato quando se espicha, até no grito capricha, parecendo que vai desmaiar.

Minha neta inventa, conta e declama; imita, canta e dança, nas pontas dos pés balança e de dor nunca reclama.

Na internet vai navegando, Twitter, SMS, Tumblr, Facebook; vai via iPhone, iPad e Youtube; smartphone, webcam; Yahoo, Google e notebook.

Ela é ardidinha como o menthol e suave como a erva-doce. E mais, muito mais doce, que o doce de batata doce.

Usa, abusa e se lambusa, dos esmaltes coloridos. Cria motivos variados, setas, corações e ondulados; estrelas, flores e babados. E cada cor tem um sentido: rosa, branco, amarelo, verde, lilás e azulado.

Adora roupas divertidas: saia lilás, meias floridas e blusa de mangas compridas; moleton com estampas coloridas; às vezes se veste de princesa. Oh! Meu deus! Que pureza, que leveza, que beleza. Sapatinhos com margaridas. Esta é a minha neta preferida.

Nasceu um dente torto, reclamou do desconforto dos aparelhos nos dentes. Ficou até mesmo rouca, mas continua sorridente.

Minha neta é sempre educada, comportada, bem humorada, mas às vezes chora, se agita, grita e esperneia. E daí me pergunto: será que também está estressada?

Ela é esperta, irrequieta, é a coisa certa. É a curva sobre a reta; minha alfa e minha beta. Me beija, me abraça e me aperta. Ela é mesmo bárbara! É a minha neta predileta.

 

Paulo Moura é ilustrador e escritor, autor de mais de duas centenas de livros infantis impressos e mais recentemente publicados como e-books; já trabalhou como ilustrador para vários autores e em livros didáticos, e ainda compõe músicas infantis, mas principalmente é avô de Bárbara

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Um comentário

  1. Suzana Mara de Carvalho Vernalha said:

    Adorei o texto Diário de um avô escritor. Realmente, tudo o que acontece com nossos netos toma uma dimensão muito maior, mais impactante, sobretudo em nossos corações apaixonados de avós. Kalil Gibran também foi certeiro quando disse que nossos filhos devem seguir seus próprios caminhos. Minha filha foi morar nos EUA com meus dois netos e, embora esteja sendo muito difícil a saudade, torço para que ela seja feliz e atinja seus objetivos. Abraços a todos.

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