O novo e tardio afeto pela vó Carmen

Carmen
A avó sempre cochilava à tarde no sofá com a gata Tó – era a hora para a autora escrever e descobrir nossos sentimentos

Por Natália Pesciotta

Como as diferenças entre gerações podem ser mera aparência

Nunca é tarde para descobrir o afeto pela avó. A escritora Débora Rubin já havia feito um livro para homenagear o avô Manduca, que era alfaiate e na obra da neta virou o vovô que tinha uma horta. Só depois a autora percebeu que naquele livro a avó Carmen era “uma mera coadjuvante” e resolveu escrever sobre ela.

No texto Dias com Carmen, publicado pela internet em plena pandemia, a neta escritora corrige a falha, que repentinamente começou a incomodá-la depois que ela passou dos 40 anos e vivendo uma gravidez. E quando a avó, já com mais de 80, passou a esquecer das coisas. “Comecei a ficar com medo de me tornar uma completa estranha para ela”.

Um pequeno spoiler da obra: a neta descreve os traços da personalidade da avó que mais lhe marcaram com uma coragem que poucas pessoas assumem oralmente, muito menos por escrito.

“Minha avó era de uma sinceridade desconcertante. Sempre falou tudo o que pensa sem considerar o sentimento alheio.”

Ou então…

“Colecionou desafetos. Agora, piorou. Fala tudo sem filtros. Não é uma vovó clássica, fofinha, que assa bolinhos e mima netinhos.”

E mesmo…

“Também já a achei preguiçosa, chata, pouco afetiva. Já tive mais sentimentos de descaso e impaciência com ela.”

Uma semana depois

Dias após o reencontro, uma epifania, a compreensão do que era a vida em outra geração.

“Casou-se cedo, passou a vida tendo filho e nunca viu o mundo para muito além da sua pequena cidade. Tem uma dificuldade imensa em entender que mulheres podem ter outra vida que não a que ela teve.”

E também…

“Ela acredita que o lugar da mulher é esse que lhe foi ensinado, o doméstico, o do cuidado com o outro, e o da invisibilidade social. Toda vez que ela sabia de alguém grávida de menina, suspirava e lamentava: ‘mais uma para sofrer no mundo’. Para ela, ser mulher é sofrimento e inferioridade.”

E a inevitável conclusão.

“Apesar de ter sempre que me esforçar mais que meus pares homens, eu pude escolher tudo: o que estudar, com quem transar, com quem me casar, decidir se e quando ser mãe. Eu sou uma privilegiada. E se estou aqui hoje, gestando uma nova vida dentro de mim, é porque outras vieram antes de mim, incluindo dona Carmen. No fundo, não somos tão diferentes. Ela é apenas uma mulher de outro tempo. Um tempo que não gostava muito de mulheres.”

Entrevista Carmen

A escritora Débora Rubin falou com exclusividade para o portal avŏsidade. Estes são os trechos principais.

Como surgiu a ideia de escrever Dias com Carmen?

Débora – Percebi ao estar com ela uma semana toda, como há muito tempo não ficava, e sabendo, já de antemão, que a memória dela não estava mais a mesma coisa, porque minha mãe me dizia. Fiquei muito curiosa pra saber se eu ainda fazia parte da memória dela ou não. Não sabia qual era a gravidade da situação, mas também porque a gente não tem uma relação muito próxima. Eu sempre morei em São Paulo, ela sempre morou no interior. Quando ia para Conchas (SP), ficava na casa das minhas tias, não da minha avó. Nunca teve muito esse espaço de acolhimento. Não era um lugar onde eu me sentia querida, onde tinha lugar para ficar, necessariamente, em algumas fases. Ela não tinha essa postura de falar “vem, quero meus netos aqui”.

Carmen

E agora, como minha mãe estava morando lá, fiquei na casa dela uma semana inteira, como há muito tempo não ficava, ou talvez nunca tenha ficado. Foi muito curioso viver com ela tão intensamente. Teve o fato de eu estar grávida também, isso me deixou mais sensível. Talvez não tivesse parado para olhar para minha vó e escrever este texto, se não fosse isso.

Vô fofinho, vó fria

Você escreveu há anos “A Horta do Vovô Manduca”. Qual foi a diferença entre escrever sobre sua avó e sobre seu avô?

Débora – As lembranças do meu avô acabaram virando um livro infantil, e, sobre minha avó, não sei como posso chamar esse texto… Um pequeno ensaio reflexivo. Meu vô tinha uma figura consolidada, entre filhos e netos, de um patriarca que reunia a família, fazia todo mundo ficar perto. Minha vó não segue essa onda. Ela vai viver a vida dela e não tem essa coisa de “quero a família toda aqui”.

Então ficou esse estereótipo de que meu vô era o vô “fofinho”, que chegava abraçando, elogiava os netinhos. Ele era fofo mesmo. E ela não. É uma mulher mais fria. E os filhos comentam isso, os netos também, de como ela é grossa, fala as coisas daquele jeito. Eu fico um pouco chateada, embora já tenha repetido isso também. Mas acho que, desta vez, eu olhei pra vida dela de outra forma: o que fez essa mulher ficar assim, do jeito que os filhos falam, que não é acolhedor?

Idealização da relação

Você acha que existe uma idealização do que é a relação de avós e netos?

Débora – Olha, sem dúvida existe uma idealização. Mas é que sobre avós ninguém fala, né? Tem a figurinha fofinha da Dona Benta, inquestionável. Acho que recentemente algumas mulheres começaram a questionar suas próprias mães no papel de avós, no sentido de não quererem cuidar dos meus filhos e sim passear, jogar tranca, fazer ginástica. É recente esse assunto de avós ‘não-tradicionais’. Mas eu via desde criança a caracterização das avós nos filmes e pensava: ‘Nossa, nenhuma avó minha é assim’.

Posso estar errada, mas acho que uma das razões é que minha avó teve muitos netos. É impossível ter uma relação afetiva com 18 netos. Gente demais! Quando vejo algumas mulheres dizendo que ‘ser avó é a melhor coisa que me aconteceu’, pergunto quantos netos ela tem e geralmente são dois ou três. Acho mais fácil ter essa relação visceral. A idealização pode ser ruim, às vezes, porque muitas pessoas não vão ter essa avó.

Minha avó também…

E como foram as reações dos seus leitores?

Bastante gente me escreveu, eu fiquei até surpresa. Comentavam: ‘Puxa, minha avó também não é essa avó que todo mundo fala e eu achava que era a única pessoa com uma avó assim’.

E aí se vê que, na verdade, temos uma variedade imensa de mulheres e tipos de avós. Isso é muito saudável. Cada um tem que ir encontrando o que é essa relação afetiva. De alguma forma, minha avó expressa isso do jeitinho dela. Tem que cavucar um pouco, mas ela expressa.

Serviço

Livro: Dias com Carmen
Autora: Débora Rubin
Como acessar: https://dborarubin.medium.com/

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E mais…

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Natália Pesciotta é jornalista e colabora habitualmente para o portal avŏsidade

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