Olivier Anquier: as origens, o avô e bisavô heróis

Anquier
Trocando a cozinha por um cantinho na sala onde tem as relíquias familiares, Olivier mostra o avô-herói com o avião dele, na 1ª Guerra

Entrevista com o chef de cozinha Olivier Anquier e seus ancestrais heróis

“É a primeira vez que eu falo dos meus avós. Vocês vão descobrir as minhas origens…”, diz, nesta entrevista exclusiva para o portal avŏsidade, o chef Olivier Anquier, conhecido pelos seus restaurantes e seus programas de culinária na televisão.

As receitas de família vêm passando do bisavô para o avô, para o pai e para ele, o neto. O avô Noël Anquier, pioneiro da aviação, pois foi piloto da Força Aérea Francesa na Primeira Guerra Mundial, é o verdadeiro avô-herói.

O avião que pilotava foi derrubado pelos inimigos, mas ele escapou vivo e foi feito prisioneiro de guerra. E voltou a atuar na Segunda Guerra, desta vez como espião francês infiltrado na perigosa Alemanha nazista.

Anquier

Foi a contragosto que Olivier acompanhou o pai na cozinha, aos domingos, desde a infância até à juventude. Finalmente, se apaixonou pela coisa a ponto de torná-la sua profissão e sua arte.

Além da autoria do molho secreto da família que hoje é servido nos restaurantes do bisneto, o bisavô Joseph Anquier também teve sua dose de herói, pois era da brigada policial no interior da França e prendeu um criminoso famosíssimo.

Olivier recebeu o portal avŏsidade em seu apartamento no centro de São Paulo (ele é um entusiasta da revitalização do centro da grande metrópole) e mostrou seu cantinho de recordações da família, que você pode ver nos vídeos a seguir, tão deliciosos quanto os pratos dos seus restaurantes e dos seus programas de televisão.

As origens

As histórias do avô-herói, Noël, que ele chama de Papi Nono (pronuncia-se Nonô)

“Hoje o avŏsidade vai conversar com alguém que você conhece muito, mas você não conhece o que nós vamos conversar. Você não conhece a história dele com os avós…”

“…É um prazer sempre poder trazer da memória… me dar essa oportunidade de trazer um pouco da história da gente, da história da nossa família, e então hoje poder conversar e apresentar um pouco das minhas origens através do meu avô.”

 

Cantinho de memórias

Colecionador dos objetos familiares, exibe rara foto do avô em seu avião da 1ª Guerra

“Aqui é o meu cantinho de leitura. É aqui que eu leio, aqui estão os meus livros que eu gosto de ler, é nesta cadeira que eu gosto de ler. É nesse cantinho que eu tenho o que eu herdei. Como eu sou o primogênito, o primeiro da família, com essa consciência e o aval do resto da minha família, eu sou o acolhedor de todo os objetos e as histórias de família…”

“…Isso aqui é o relógio que ele tinha quando ele foi abatido pelos alemães. E esse relógio, quando ele caiu, o avião dele era esse aqui. Esse é o meu avô, com o avião dele, na Primeira Guerra Mundial.”

 

Primeira Guerra

Os primeiros pilotos eram da Cavalaria, ele foi, sobreviveu, voltou e conheceu a avó

“Ele era militar na Primeira Guerra Mundial, era jovem, e ele estava justamente pelo nível intelectual dele e a força física dele, ele ingressou na Cavalaria, que era o único corpo militar do Exército Francês que tinha outras coisas além das pernas para andar: o cavalo… Os primeiros pilotos vieram da Cavalaria…”

“…Em 1918, pouco antes do armistício, o avião dele foi atingido na fronteira com a Holanda, o avião dele caiu, ele foi levado como prisioneiro de guerra para a Alemanha. Depois da Primeira Guerra Mundial ele voltou pra Tours, encontrou minha avó, casou com ela e teve o meu pai, que foi o primeiro filho dele.”

 

Segunda Guerra

Por saber se expressar em alemão, o avô-herói repetiu a dose e virou espião

“Quando estourou a Segunda Guerra Mundial, ele, justamente por todo o seu conhecimento e pela sua perfeição para se expressar, de se comunicar em alemão, e pela experiência militar que teve na Primeira Guerra Mundial, em que ele saiu como herói, na primeira vez em que teve força aérea envolvida numa guerra…”

“…Na Segunda Guerra Mundial ele virou espião infiltrado na Alemanha, teve anos de sumiço da família, porque estava completamente infiltrado a serviço da França como espião até o final da guerra.”

 

Rotas alteradas

Enquanto o avô era espião francês na Alemanha, americanos explodem sua casa

“Justamente no final da guerra, no momento em que os americanos começaram a empurrar de volta os alemães, eles fizeram muitos bombardeios em muitas cidades da França, Tours foi muito atingida pelos bombardeamentos e caiu uma bomba na casa do meu avô e da minha avó…”

“…Minha tia ficou muitos anos com problemas nos quadris, porque a bomba esmagou, mas sobreviveu, está viva até hoje, e é inclusive a única sobrevivente dessa geração de Anquiers.”

 

Educação e pobreza

Com o bombardeio, os Anquiers perdem tudo o que tinham, mas sobrevivem

“Por causa desse bombardeio, dessa bomba, a minha família perdeu tudo, absolutamente tudo. E durante alguns anos moraram em acampamentos, em tendas americanas, aquelas tendas grandes, comunitárias, como os refugiados que a gente vê hoje…

“…Meu pai não tinha a camisa branca para fazer os exames orais e um amigo dele emprestou a camisa branca. Se chamava Proust, como o escritor, e passou antes dele na entrevista oral. E na saída passou a camisa branca para o meu pai, para ele estar apresentável para poder passar por esse exame. Uma anedota assim, para você entender como a vida era precária nessa época para a família do meu pai.”

 

Bisavô herói

No Norte da França, prisão de gangster faz o primeiro Anquier se tornar famoso

“Meu bisavô, que se chamava Joseph Anquier, que também era herói da França, ele era brigadeiro justamente na região originária da nossa família, que era em Picardie…”

“…Ele virou herói e reconhecido porque como brigadeiro ele prendeu um gangster anarquista famosíssimo. Ele brigou, quase morreu, mas não morreu e prendeu o cara.”

 

Culinária e prazer

A intimidade com a cozinha vem de uma linha filosófica praticada deste o bisavô

“Joseph Anquier tinha uma filosofia com relação aos momentos da culinária, e essa filosofia era de buscar todas as emoções e os prazeres que os momentos da culinária podem proporcionar. Eu passei isto para minha família e repassei para os telespectadores…”

“…De certa forma, o resultado dessa obrigação que nós tivemos de acompanhar meu pai na cozinha, nesses momentos, todos os domingos, por mais que a gente tenha odiado, fez nos impregnarmos com essa filosofia. nós adquirimos essa intimidade com o mundo da culinária.”

 

Heranças no menu

Nos dias atuais, Olivier é o último herdeiro do molho secreto e das sobremesas

“Eu tenho dois ou três itens nos cardápios dos meus restaurantes que são deles. Do lado do meu avô paterno, o Papi Nono, uma terrina que está aqui… tem o molho do L’Entrecôte D’Olivier, o molho secreto…”

“… Esse molho vem lá da época do Joseph Anquier. Então, do Joseph foi pro meu avô Noël, que repassou para quem cozinhava em casa, minha avó, minha tia e meu pai, envolvido na cozinha, justamente para pegar essa filosofia de família, e o último herdeiro sou eu, também apresentando aos frequentadores do [restaurante] L’Entrecôte D’Olivier.”

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