Oswaldo Conti, meu mestre andarilho

O autor no colo do homenageado: “o que quero dizer, afinal, é que meu avô foi meu melhor amigo e meu grande mestre”

Por Vicente Vilardaga

► Quando penso em meu avô, meu mestre andarilho, penso num exemplo de vida, tanto pelos seus hábitos simples como por sua retidão de caráter e desprendimento material. Quero ser como ele quando crescer. Vai ser difícil, não posso vacilar. Meu nonno andava comigo, me convidava para fazer caminhadas intermináveis que podiam durar até dez quilômetros, quando eu tinha 10 ou 12 anos e me ensinou a amar o Palmeiras.

Só isso seria suficiente para exaltá-lo. Mas ele também me ensinou a respirar direito, apesar de meu desvio de septo, correr em subidas íngremes e a observar a natureza. Quando nasci, ele tinha 60 anos e havia parado de fumar há dez, hábito adquirido na infância, aos oito. Morreu aos 92.

– Cuide da saúde, dizia sempre, e o cigarro era seu principal vilão.

Olhava para o céu, no fim de tarde, e, quando via as nuvens roxas no horizonte, falava que era uma garantia de tempo bom, no dia seguinte, o que, observando, descobri que não é uma regra, mas faz muito sentido. Lembro que ele repetia sempre as mesmas coisas, frequentemente sensatas, o que, para mim, virou demonstração de coerência. Tinha ideias fixas, de italiano pobre, às vezes parecia rude, mas era gentil e respeitava o próximo. Gente finíssima. Era andarilho. Quando a nonna se curou de um problema renal, pagou uma promessa caminhando de São Paulo a Santos pelo acostamento da via Anchieta.

Aos domingos, andávamos horas a fio pelas matas de Itapecerica da Serra, no clube Delfim Verde, e nada me deixava mais satisfeito do que subir os morros até o topo e olhar a vista de cima, onde se destacava a mansão do cantor Agnaldo Rayol. Era uma estrela naquela época e, até hoje, brilha com seu vozeirão.

Costumávamos, também, acho que fizemos isso pelo menos cinco vezes, voltar a pé do estádio do Morumbi, mais ou menos até a estátua do Borba Gato, perto de onde ficava a loja de ferragens que ele ergueu na década de 1950, a Conti & Cia. Graças à sua influência e às conversas agradáveis que tínhamos, eu gostava dessa ideia de ir e vir andando de muito longe.

Quando nasci, meu avô já era aposentado. Quem cuidava da loja era minha mãe, Therezinha, que tinha um excelente raciocínio matemático, e meu tio mais moço, o Rinaldo, que começava a aprender as manhas do comércio. Morei meus primeiros cinco anos de vida em uma casinha no fundo da loja, com mamãe dando duro dia e noite.

Nonno era montador de bicicletas na Caloi, que se instalou em um barracão no Brooklin, em 1945. Alguns anos depois, abriu própria bicicletaria na rua Álvaro Rodrigues, atrás da igreja. A bicicletaria foi o embrião da loja de ferragens, criada com a ajuda de uma família de italianos endinheirados chamada Tonini. Os Toninis entraram com o capital enquanto meu avô e minha mãe, filha mais velha, trabalhavam duro e faziam o negócio florescer.

Jogou futebol na juventude. Foi goleiro reserva do Guarani, de Campinas. Também foi ciclista e se orgulhava das várias medalhas de participação nas primeiras realizações, nos final dos anos 1940, da tradicional prova 9 de Julho. Gostava de esporte, mas não era competitivo. Seu foco era a saúde. Foi um homem de fé, resiliente, um sujeito tranquilo que nunca teve preocupação em impor sua opinião.

Ao lado de meu avô passei alguns do melhores momentos da minha infância, descobri o prazer da caminhada e da corrida, além do convívio com a natureza. O mais importante, porém, foi descobrir a força de uma verdadeira amizade. O que quero dizer, afinal, é que meu avô foi meu melhor amigo e meu grande mestre.

 

Vicente Vilardaga é jornalista e escritor; lançou seu primeiro livro, ‘À Queima Roupa – O caso Pimenta Neves’, em 2013; e em maio deste ano chega às livrarias seu segundo livro, ‘A Clínica – A farsa e os crimes de Roger Abdelmassih’, pela Editora Record

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