Quando dona Joana passou a sorrir

No cenário em que vivia a avó Joana, no interior da Bahia, a neta Vilma posa para a fotografia, mas contém o sorriso em lembrança da avó

Por Vilma Balint

► A dona Joana só tirava fotos séria. Para ela, aquele era um momento solene. Não era respeitoso sair sorrindo em um retrato de família, ela aprendera.

Eu tinha entre 9 e 10 anos quando comecei a conviver mais com essa senhora, ainda sisuda, e isso era motivo de muito estranhamento. Mais tarde, entendi a razão da seriedade nas fotos. Elas eram raras nos anos 1930 e 1940, e geralmente seriam as únicas lembranças para as seguintes gerações.

Quando eu já estava acostumada com fotos mais sóbrias, a dona Joana passou a sorrir para as lentes. “Isso era besteira, minha filha. Coisa de matuto”. Ela também ficou mais sorridente quando eu me tornei adolescente. “É que ela nunca teve muita paciência com criança”, explicou minha mãe.

Além de sorrir, ela contava causos, piadas, histórias tristes de um passado quase marcado a ferro, como o gado que aprendeu a amansar no sertão da Bahia. Mas ela também contava histórias alegres, e até aprendeu a falar palavrão. Morria de rir ao pronunciar as palavras de baixo calão que certamente lhe renderiam uma surra décadas antes.

As histórias da dona Joana eram de quem perdeu a mãe ainda criança, quando ainda era incapaz de ter lembranças do seu rosto ou de seu abraço. Eram causos de quem foi criada por uma tia solteirona e beata e de quem não aprendeu a ler, mas que sabia todos os cânticos da igreja.

A dona Joana não podia nem pensar em namorar, mas fugiu para casar. A cerimônia aconteceu depois de um namoro breve e proibido e foi arranjada por uma cunhada – futura comadre – que preparou o vestido e o melhor horário da fuga para a igreja. No dia do casamento, a tia beata percorreu de joelhos os paralelepípedos da cidade, anunciando a excomunhão dos dois por uma união que ela não abençoou.

Teve quatro filhos, mas só conheceu a prosperidade e uma casa boa depois que eles ficaram adultos. Ela não tinha mesmo tanta paciência com crianças, mas podia perder horas de sono contando causos do passado para uma neta cujos olhos brilhavam com cada narração.

Felizmente, eu fui a neta da dona Joana e pude ouvir as histórias sobre as quais contei.

Ela se foi há 14 anos e sua ida foi feliz. Acredito nisso principalmente ao lembrar de uma de suas últimas histórias, vividas já em cima de uma cama, com a transmissão de uma missa na TV, em diálogo foi contado por minha mãe.

– Minha filha, acho que eu quero morrer logo.

– Mãe, a senhora está doida? Por que está falando isso agora?

– Se aqui pela TV tudo é tão bonito, imagine como não será de verdade no céu?

Saudades da dona Joana. Muitas saudades.

 

Vilma Balint é jornalista e neta de dona Joana

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