Questão de tempo

Questão de tempo
Os netos da autora – Nicole, Olivia, Felipe e Gabriel (da esquerda para a direita) – e a menorzinha é a sobrinha Marina

Por Nair Keiko Suzuki

Netos são como bênçãos, mas poderiam ter chegado mais cedo

Foi-se o tempo em que as vovozinhas eram retratadas com cabelos brancos, geralmente amarrados em coque, xale nos ombros e tricotando em cadeira de balanço. Hoje muitas vovós ainda trabalham, dirigem o seu próprio carro, se vestem com elegância e conforto e dedicam aos netos mais atenção e carinho do que puderam oferecer aos próprios filhos. questão

As vovós aposentadas, com netos morando perto, dedicam boa parte do seu tempo a eles. Enquanto filha, filho, genro e nora trabalham, elas levam e buscam as crianças nas escolas, garantem a frequência nos cursos extras de natação, inglês, balé, teatro, futebol, judô, karatê.

Periodicamente também as acompanham ao pediatra, dentista, oculista, otorrino, clínicas de vacinas… Isso, sem falar nos almoços e jantares que preparam no dia-a-dia para os pequerruchos e nos pratos especiais que se esmeram em apresentar em dias de festa.

É o retrato de uma geração. A minha geração, que descende de imigrantes japoneses que aqui vieram em busca de trabalho e melhor qualidade de vida para suas famílias.

Que enfrentaram todo tipo de dificuldades, principalmente a financeira, obrigando seus filhos a estudarem com afinco para garantir uma vaga nas universidades públicas, de ensino gratuito.

Que incutiram nos jovens a noção de que deveriam escolher e seguir uma profissão capaz de dar sustento a eles e à família que viessem a constituir quando se casassem.

Amarrados irreversivelmente questão

Empenhados em ter sucesso nos estudos e no trabalho, obviamente não sobrou tempo para os jovens acompanharem cada etapa do desenvolvimento dos filhos, como gostariam.

Isso explica, em boa parte, o deslumbramento com os netos, quando eles chegam. Ao cuidar deles, procura-se reviver sentimentos experimentados com a filha e o filho quando bebês, mas em vão.

A sensação é nova, nada se compara à alegria de receber um sorriso dos netos, um aceno, um abraço, a busca de uma mão protetora ao tentar se levantar ou andar pela primeira vez.

Quando o vovô ou a vovó se dão conta, estão irreversivelmente amarrados aos netos. Busca-se acompanhá-los por maior tempo possível. Dispensam babás e disputam com todos o privilégio de lhes dar colo, de brincar com eles.

É. Oi. É. Oi. Clique nas laterais das fotos para girar o carrossel É. Oi. É. Oi. É.

O comportamento é idêntico ao de parentes e amigos da minha geração, constato em postagens de texto, fotos e vídeos nas redes sociais.

Só tenho uma queixa a fazer: os filhos não deveriam ter demorado tanto a nos dar netos. Está certo que a medicina avançada nos permite viver muito mais do que nossos pais e avós.

Mas poderíamos ter começado essa agradável experiência mais cedo, quando estávamos com mais saúde e energia para conviver com eles e poder acompanhar o ritmo frenético da vidinha deles.

Geração marcada questão

Hoje, na casa dos 70 anos de idade, como conseguir brincar, levar e buscar na escola, enfim, cuidar de quatro netos sem sentir falta de fôlego ou uma dorzinha na lombar? Em agosto, Nicole fará 7 anos, e Felipe, o caçula, 3.

Em setembro, Olivia, a mais velha, completará 10 anos e no último dia de outubro comemoraremos o aniversário de 6 anos do Gabriel. Cada um, na sua idade, exige maior ou menor atenção.

É por isso que poderiam ter vindo mais cedo, repito a queixa. Mas é uma bênção poder acompanhar cada etapa do desenvolvimento deles.

Esta geração ficará marcada pela pandemia do coronavírus que, quase dois anos depois, persiste e para passar está na dependência da vacinação dos idosos, adultos e adolescentes.

Vamos nos lembrar sempre dos que foram contaminados pela Covid 19, dos que sobreviveram e dos que morreram.

Relembraremos as semanas em que acompanhamos as aulas online dos netos, sem arredar pé da frente dos computadores, já que nas piores fases eram proibidas as aulas presenciais pelo risco do contágio.

Máscaras, de todas as cores e estampas, serão lembradas pelos que foram obrigadas a usá-las por meses a fio, sob pena de serem multados.

Ficarão na memória cenas de vovôs e vovós de cabelos brancos, mascarados, empurrando carrinhos de bebês por praças desertas, cansados e abatidos pelo isolamento social.

O pesadelo sanitário que vivemos hoje será a desculpa para todos os males que dele advirão.

Mas nossos netos, com certeza, saberão tirar proveito das lições que ele nos traz e honrarão a nova geração, para orgulho dos avós corujas.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois.

E mais… questão

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Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então.

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Nair Keiko Suzuki é jornalista, avó de Olivia, Nicole, Gabriel e Felipe

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