Você é um quebra-panelas?

Quebra-panelas
Arrudão, o Quebra-panelas, com Maria das Dores, tataravós do autor, e ao lado o bisavô Sérgio, que não tinha sobrenome aumentativo

Por Bias Arrudão

A origem de um sobrenome “diferentão”

Os Arruda, de origem portuguesa, se instalaram no Brasil em 1654, após uma escala de algumas gerações nos Açores, com os irmãos Francisco de Arruda e Sá, André Sampaio de Arruda e Sebastião de Arruda Botelho, meu antepassado. A família, portanto, não é quatrocentona – ainda somos tricentões. Quebra-panelas.

Mas, na verdade, somos novecentões, pois a história registrada dos Arruda remonta ao século 12, época da formação de Portugal. O primeiro ancestral documentado, que nem Arruda era, tinha terras entre os rios Douro e Minho. Nos séculos 15 e 16 os Arruda fizeram e aconteceram na arquitetura portuguesa.

O auge foi no reinado de Dom Manuel, o Venturoso (1495-1521), patrão de Pedro Álvares Cabral. Diogo de Arruda remodelou o Convento de Cristo, em Tomar, onde desenhou a janela que se tornou uma das obras-primas do estilo manuelino.

Francisco, irmão de Diogo, fez o traçado da Torre de Belém e seguramente participou da construção dos Jerônimos, ícones de Portugal. Miguel, filho de Francisco, exerceu seu ofício no Mosteiro de Santa Maria da Vitória (ou da Batalha). A Unesco considera todos esses lugares Patrimônio da Humanidade.

Ou seja, em Portugal não fomos pouca porcaria.

A vida no Brasil Quebra-panelas

O porquê de os três irmãos virem dos Açores para o fim de mundo que era São Paulo em meados do século 17 já não há como saber. Os Arruda, de fato, quase sumiram de Portugal.

Lembra das listas telefônicas, com folhas de papel finas e letras miudinhas? Pois então, no calhamaço da de São Paulo eram páginas e páginas de Arrudas. Eu tinha o hábito de, se em outra cidade, consultar a lista de assinantes local para ver se tinha parente lá.

Em São Paulo sempre havia muitos, em outros Estados menos (os Arruda do Nordeste são de outra linhagem, o parentesco deve ser anterior à vinda para o Brasil).

Pois na minha primeira ida a Portugal, em 1989, tive uma surpresa: em Lisboa e no Porto podia-se contar nos dedos os Arruda da lista telefônica. Viemos para o Brasil de mala e cuia. Ainda deve haver Arruda nos Açores, que espero poder visitar depois da pandemia.

Tataravô quebrou panelas

Devo o sobrenome ao avô de meu avô. Antônio de Arruda Leite era chamado de Arrudão pela estatura (baixa pelos padrões atuais). Tataravô pela linha varonil, frisava meu pai, seu fã: foi pai de meu bisavô Sérgio Augusto de Arruda Campos, seu caçula, que foi pai de meu avô José Dias de Arruda Campos, pai de meu pai.

Nasceu em 1810, possivelmente em Tietê, no interior de São Paulo. Por décadas viveu na Fazenda Entre-Rios (entre os rios Tietê, Sorocaba e Capivari), na região da atual Laranjal Paulista.

De profissão era tropeiro: negociava mulas que trazia do Rio Grande do Sul na feira de Sorocaba, muito concorrida. Culto não era; alfabetizado, sim.

Casou-se três vezes: com a primeira mulher teve duas filhas e um filho; com a segunda uma filha; com a terceira, minha tataravó Maria das Dores Campos Pinto, quatro filhas e 11 filhos. Total: 19. Meu bisavô, Nhô Sérgio, fechou a produção. Arrudão morreu em São Paulo em 1899, aos 89 anos.

Quebra-panelas

O avô do autor, José e ele mesmo com a família – o menino à direita é Dácio, inventor do sobrenome Arrudão

Meu pai, seu admirador, tinha nomão: Dácio Aranha de Arruda Campos. Quando eu era criança, de dia ele era o juiz de Direito Arruda Campos; à noite, foi, por mais de 45 anos, o jornalista de O Estado de S. Paulo Matias Arrudão, pseudônimo que escolheu em homenagem ao bisavô grandalhão.

Apelido que virou sobrenome

Dr. Dácio era original e irreverente; mudou (espero que com anuência de D. Stella, minha mãe) o sobrenome dos filhos para Arrudão. É que o primeiro Arrudão tinha um lado, digamos, dark: certo dia em que a refeição demorou a ser servida teve um acesso de raiva e despedaçou as panelas, que naquele tempo eram de cerâmica.

Pronto, virou o Quebra-Panelas. O apelido pegou.

Mais que isso, seus muitos descendentes o incorporaram e passaram a se identificar, eles próprios, como “quebra-panelas”. Eu, se conheço um Arruda, na primeira oportunidade pergunto: “Você é quebra-panelas?”

Se for, o passo seguinte é tentar descobrir o grau de parentesco. Dado o tamanho da prole do Arrudão – e passadas tantas gerações –, estimo que nós, quebra-panelas, descendentes dele, sejamos alguns milhares hoje em dia.

Nota: além da minha memória, minha principal fonte é o livro “Os Quebra-Panelas”, de Marilena de Arruda Campos Rodrigues, tataraneta do Arrudão, bisneta do primeiro filho dele com a tataravó Maria das Dores, Joaquim de Arruda Campos.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. 

Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. 

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Bias Arrudão é jornalista

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