Vovô e o homem na Lua

Histórias do avô contadas na noite em que o homem pisou na Lua pela primeira vez, em 1969

Por Jorge Luiz de Souza

► Foi o maior acontecimento histórico que pôde ser testemunhado por um nosso contemporâneo (qualquer que seja a sua idade, você aí que me lê agora). Havia tempo que não acontecia nada tão espetacular e, desde então, menos ainda aconteceu. Mas fomos testemunhas oculares, em termos, porque foi pela televisão – estávamos todos a uma distância razoável de mais de um segundo-luz…

Quanto o homem pisou na Lua pela primeira vez, em 1969, eu já me considerava adulto, porque tinha acabado de completar 18 anos, mas meu interesse nesse assunto ainda era de menino, e eu ficava mais menino ainda diante do meu avô, com seus já mais de 70 anos.

Pois foi o vovô a única pessoa que ficou comigo, vidrado, na frente da televisão até o final da transmissão, madrugada adentro. Assim era ele, o que chegava mais perto, sempre, do batimento do coração do neto. Foi uma cumplicidade inesquecível. Parecia que só nós dois, e não toda a humanidade, estávamos dando o devido valor ao que acontecia.

Era ele, claro, sempre ele, quem primeiro reconhecia que eu já estava ficando “grandinho”. Foi ele, só podia ser ele, quem me emprestava carro para aprender a guiar em remotas estradas de terra, escondido de meus pais e do meu irmão mais velho, que não me queriam ao volante antes de alcançar os emblemáticos 18 anos.

Aquela noite foi longa e a conversa foi longe, enquanto tentávamos não prestar atenção às baboseiras que diziam os narradores da emissora brasileira de televisão. Eram um narrador e um comentarista, como numa partida de futebol, e os dois chegaram a se congratular pelo feito, como se eles próprios fossem quem deu o tal grande salto para a humanidade.

Chegamos à conclusão de que a corrida espacial não tinha perdedor e que toda a humanidade, muito apropriadamente referida pelo astronauta, foi quem saiu ganhando, De fato, o tempo mostrou que não houve propriamente ganhador e perdedor na corrida espacial.

Ele precisaria ter vivido umas décadas a mais para ver a prova real dessas nossas constatações, mas você e eu hoje testemunhamos isso: os avanços tecnológicos da corrida espacial chegaram à vida diária das pessoas comuns, nessa infinidade de aparelhinhos que hoje facilitam nossas vidas e te permitem ler agora o que eu escrevi sem gastarmos papel, transportes, estocagem…

Esperando os astronautas descansarem e cumprirem o demorado ritual que precedeu ao famoso passo no último degrau da escada, nossa conversa chegou ao não menos famoso AI-5, que então estava nos primeiros meses de sua desastrosa existência. E eu, embora tão jovem, já tinha passado por duas prisõeszinhas leves no vestibular do meu engajamento político, que não passaram despercebidas pelo vô.

Aí, ganhei outra aula sobre os fatos históricos importantes do século 20, mas desta vez sobre um que aconteceu ali tão pertinho da gente – não distante como a Lua –, mas a minha geração não sabia nada. Eis o que houve. Nos anos 1930, o povoado onde nasci (que se chama Burarama e até hoje, em 2015, não passou de 2.500 habitantes) era bem pequeno e dava pra contar nos dedos da mão quem ali não era 100% descendente dos imigrantes italianos.

Os imigrantes chegaram ao Brasil por volta de 1880 e se mantiveram por várias décadas fechados em comunidades formadas pelas mesmas famílias que reproduziam o ambiente do navio em que cruzaram o oceano. Como até hoje acontece em outros grupos sociais, mais de 50 anos depois eles pareciam não ter desembarcado do navio.

Pois uma enorme parcela da italianada foi alcançada pela propaganda do fascismo, que vinha vigorosa da pátria dos seus ancestrais. Aderiram em peso à versão cabocla do fascismo, que aqui se chamava integralismo. Dizem que, proporcionalmente, não houve outra localidade no país com tamanha adesão ao direitismo.

Famílias inteiras andavam uniformizadas (não as camisas pretas italianas, mas as brasileiríssimas camisas verdes). E a barra pesou porque vovô não entrou nessa, embora fosse tão “italiano” quanto todos os outros. Não foi fácil, porque ele tinha irmão, primos e cunhados e colegas integralistas, já que ali todas as famílias se casavam entre si.

O radicalismo alcançou um nível tal que parecia coisa de cinema. Como todo mundo naquela comunidade, vovô e vovó eram católicos fervorosos e bastante carolas, mas por não ser fascista, vovô era chamado publicamente de comunista e foi até impedido de entrar na igreja. Tudo isso a meros 15 anos antes do meu nascimento e ali mesmo onde nasci.

Esperar os astronautas nos levou mais longe. Vovô lembrou que a principal indústria da região, na época, era uma fábrica de cimento cujo capital era italiano, não dos descendentes dos imigrantes, mas da Itália mesmo. Pois adivinhem o que aconteceu quando o Brasil entrou na guerra? Os operários expulsaram os capitalistas e tomaram a fábrica. Mas não foram felizes na gestão e em pouco tempo tudo caiu nas mãos de credores, que repassaram o negócio para investidores de fora. Eram brasileiros, é verdade, mas também vinham de longe. Grande vantagem! – disse meu velho avô.

Quando penso nele, sempre me lembro daquela noite e de como aprendi a ver que coisas tão importantes estão sempre acontecendo aqui juntinho da gente e nem notamos…

 

Jorge Luiz de Souza é bisneto de imigrantes italianos, neto do brasileiro Antônio e avô de uma porção de meninos pequenos que um dia vão ouvir suas histórias

Posts relacionados

2 Comentários

  1. Maria Dinelza said:

    Lembro bem desse dia. Apesar de também ter completado 18 anos há pouco tempo, já trabalhava numa escola como professora, e foi muito difícil explicar às alunas, que tinham entre 8 e 9 anos, esse feito inédito.Na escola não se falava outra coisa!

  2. Maria Luzia Pedarcini said:

    Belo texto primo! Apesar de ter convivido pouco tempo com vovô Antonio, tenho belas lembranças dele. Lembro-me dele com seu terno de linho, impecável e também quando nos agarrava pelos braços e nos fazia virar cambalhotas entre suas pernas. Trago também na memória os netos reunidos na casa onde hoje mora a Penha e aquela banheira, que na minha inocência de criança, achava enorme, onde fazíamos farras imensas.

*

Topo