As três mais caras lembranças do ‘vô Jorge’

"Como pode uma pessoa que passou tão pouco tempo conosco deixar marcas tão fortes por toda a vida?" – pergunta a autora

Por Maria Angela Jabur

► Aproveito este espaço para escrever a “vô Jorge”, que me deu o sobrenome, tudo o que gostaria de dizer, mas que não disse por absoluta falta de tempo e oportunidade. “Vô Jorge” foi embora na década de 60, quando eu ainda cursava o primário. Àquela época, estava mais preocupada em tirar nota 10 em caligrafia e em brincar com meus primos de carrinho de rolimã na calçada do que em perceber afetividades. Não foi o que aconteceu com “vó Farid”, que ficou comigo por mais de 20 anos e, ao final, ocupou o lugar de “quase-mãe”, me suprindo com o afeto da mãe de verdade, que partira há pouco.

Assim, escrevo, em primeiro lugar, para e sobre “vô Jorge” (como se fosse possível olhar um sem olhar o outro!).

E começo com uma pergunta: Como pode uma pessoa que passou tão pouco tempo conosco deixar marcas tão fortes por toda a vida, funcionar como pilar de valores e farol para escolhas?

Não tenho a resposta. Mas sei que, ainda hoje, quase meio século depois, cultuo sua memória, preservo com carinho mais do que especial os poucos momentos que passamos juntos e dou boas risadas com os folclores que você introduziu na família – e que faço questão de preservar.

Angela Jabur

“Vô Jorge” e “vó Farid” foram imigrantes libaneses que chegaram ao Brasil no início do sec. XX. Ela, ainda criança, com os pais. Ele, já adolescente, veio para trabalhar (amparado pelos tios que já estavam aqui) e para… casar com ela. Não havia escolha: era o sim ou o sim.

Como nenhum dos dois fez nada de impacto além de sobreviver – o que, diga-se de passagem, não é pouco – passaram à história como números. Dois dos milhares de imigrantes libaneses que desembarcaram no porto de Santos àquela época. Mas, para nós, foram mais do que especiais: raízes de uma família de 5 filhos, 6 netos (e quase uma dezena de bisnetos), em que primos se chamam de irmãos. E, considerando que esses vínculos nascem da empatia, mas precisam de um empurrãozinho para ser preservados, convenhamos, o trabalho não foi pouco!

Esses laços foram só parte do que construíram no Brasil e que a história não consegue captar. Construíram a profissão, o amor que os ligou por mais de 50 anos (ainda me lembro da festa das Bodas de Ouro), a família, o respeito de vizinhos e amigos, a reputação na cidade (Tietê, SP), de onde nunca saíram. Construíram, enfim, a nova pátria. E nessa nova pátria, criaram e educaram cinco filhos brasileiros que, por sua vez, tiveram filhos e netos também brasileiros.

No norte do Líbano, vovô era pastor de ovelhas. No Brasil, virou mascate (e vovó, uma artista no “crochet”). Enquanto aguentou andar (ou seja, até quase o fim da vida), colocava uma cesta de vime cheia de batatas nas costas, pegava a bengala e percorria, a pé, os arredores de Tietê. Só voltava para casa no fim da tarde, com a cesta vazia e algum dinheiro no bolso.

Por isso, virou, também, alvo das chacotas dos netos – e esta é a primeira lembrança forte que tenho dele. À noite, nós, os primos, colocávamos a cesta nas costas, a bengala na mão, e começávamos a pular na frente dele: – “Guem gué gombrá batatina?” (Trad: “quem quer comprar batatinha?”).

Ele ficava bravo, não ria. Em parte, para manter a postura (lá por dentro, devia achar graça daquele bando de moleques desvairados que não queriam saber de ir dormir). Em parte, porque era assim mesmo: quieto, sisudo. Falava pouco o português. Portanto, falava pouco conosco, que não entendíamos árabe.

Talvez por isso, suas poucas manifestações de carinho contido tenham sido tão marcantes – e esta é a minha segunda lembrança. Quando subia do quintal do casarão, depois de tratar da horta e do pomar, trazia sapotis nas mãos. Me chamava com um gesto, me punha sentada à mesa da cozinha e ia partindo as fruta em pedaços pequenos que coubessem em minha boca de criança. Depois, me passava a mão na cabeça e ia cuidar da vida.

A terceira lembrança é o crucifixo de ouro maciço, único objeto de valor que trouxe do Líbano. Um presente de seu pai, que passou para o meu (o filho mais velho) e que passou para mim (a única filha). Guardei por décadas. Um dia, percebi que fora roubado. Fiquei triste, mas saí de um dilema: a qual os dois filhos eu passaria? Eles dariam àquele crucifixo o mesmo valor afetivo que eu dera? Melhor ficar só no coração.

Finalmente, a última imagem, é o beijo que lhe dei no rosto quando já estava agonizante. Fui a última dos netos a chegar. Ele estava sereno em sua cama, em sua casa. Pouco depois, se foi. Mamãe falou: “Ele esperou para se despedir de você”. Pode ser. Morreu com 91, 92 ou 93 anos de idade, ninguém sabe ao certo: no sec. XIX, quando nasceu, certidões de nascimento eram documentos dispensáveis no Líbano, à época parte do Império Otomano.

São também do Líbano e do sec. XIX, as estórias folclóricas. Vovô tinha uma cicatriz no braço. Consta que foi resultado da mordida do lobo com que lutou para salvar as ovelhas das quais cuidava. Tudo, para dizer que ele era forte, muito forte, porque comia lentilha todo dia! Outra prova de sua força – “Comam lentilha, meninos!” – foi a casa que construiu com os irmãos, ambos carregando blocos de pedras nos ombros.

Da história do lobo, nunca consegui checar a veracidade. Mas a casa, eu vi e fotografei.

Em 2009 fui ao Líbano apenas para conhece-la, conhecer meus primos (filhos do irmão que também carregou pedras) e buscar minhas raízes primeiras.

E aqui, peço perdão a “vó Maria” e “vô Berto”, pais de minha mãe e imigrantes italianos. De fato e de direito, sou 50% italiana e 50% libanesa. Mas, no coração, sou 100% libanesa.

Efeito “vô Jorge” e “vó Farid”, tão lindos e tão queridos, e para quem peço a bênção.

 

Maria Angela Jabur é jornalista e neta do vovô Jorge Jabur e vovó Farid, e também de vovó Maria e vovô Berto

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