Ausência – e presença – de avós

Vovó Enriqueta e a autora, que cita Freud quando diz que pai ou mãe, antes de tudo, e independentemente da biologia, é uma função

Por Liliana Enriqueta Lavoratti

► A lembrança que tenho de meus quatro avós é ausência: fotografias raras, das quais três delas em “santinhos” de luto guardados por décadas, um costume dos antigos em homenagem aos parentes falecidos: Érgia e Angelo Lavoratti, e Antonio Menon. Fotos sem o peso do “in memoriam” somente daquela que na linha ascendentia veio antes de minha mãe e a quem meus pais homenagearam colocando meu segundo nome: Enriqueta Menon.

Movidos pelo espírito dos colonizadores gaúchos, meus pais, recém-casados, foram arriscar a vida no Norte do Paraná, e depois no Oeste do mesmo estado, onde eu e minhas quatro irmãs nascemos e crescemos. Nossas únicas referências familiares eram o Arthur Lavoratti e a Renée Menon. Foram nossos pais, tios e avós ao mesmo tempo, para amenizar o quase exílio em uma terra semi-estrangeira.

Apesar da ausência física dos nossos avós, sabíamos pouco e, ao mesmo tempo, muito deles. Só de olhar para aquelas fotografias desbotadas, ainda hoje, tenho certeza do caráter rígido do Angelo Lavoratti, um pequeno agricultor do interior de Sananduva (RS), que criou seus onze filhos dividindo-os em duas turmas para as missas de domingo para que pudessem compartilhar os sapatos no meio do caminho – a turma que voltava seguia amassando barro ou levantando poeira, enquanto os que iam para a igreja lá não chegavam de pés de fora.

Érgia Piardi Lavoratti me deixou a impressão – não tenho informações suficientes para saber até que ponto isso corresponde à realidade – de uma mulher resignada e forte, com expressão da dureza da vida. Sem voz e sem recursos, criar onze filhos e viver ao lado de um quase “pai patrão” não devia ser fácil.

Não menos sisudo parecia o Antonio Menon, homem da cidade, político, que ficou viúvo da Enriqueta muito jovem – ela morreu aos 35 anos de idade, deixando seus filhos, dentre os quais a minha mãe, com imaturos 11 anos. E ela, filha de um médico alemão de Porto Alegre, era a rebelde e “revolucionária”, pois enfrentava o machismo do marido surrando-o com os tamancos. Olhos azuis, olhar altivo, face e braços de contornos arredondados.

Fico imaginando como seria um sorriso da Enriqueta, uma risada do carrancudo Angelo, uma bronca ou um puxão de orelhas da Érgia, um colo do Antonio. Mas, ao mesmo tempo, sei que avós, pais, filhos, netos, bisnetos… gerações anteriores a um indivíduo são como camadas de vida sobrepostas, interpostas, eternas em cada vida que habitou a moldura do tempo.

Assim como vejo em mim sinais claros de meus pais – físicos, psicológicos, culturais, e outras dimensões que a filogenética consegue alcançar –, não tenho dúvidas de que tive na convivência com os meus pais os avós que não nos pertenceram fisicamente. De alguma maneira, eles estiveram conosco, por meio das qualidades, defeitos, virtudes, caráter, faltas do Arthur e da Renée.

E dessa forma peculiar também vivo o papel de mãe e avó de minhas cinco sobrinhas e de um sobrinho e de sete sobrinhos-netos. Concordo plenamente com uma das tantas maravilhosas sacadas do Sigmund Freud – pai ou mãe, antes de tudo, e independentemente da biologia, é uma função. Acho que eu, do meu jeito, sou neta, mãe e avó.

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Liliana Enriqueta Lavoratti é jornalista

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