Dr. Fabio Ancona: avô, motorista ou office boy?

motorista
Artigo propõe que cada avô deixe de lado a rigidez do passado e seja mais próximo de seus netos, para vivenciar todos os períodos da vida deles

Por Fabio Ancona Lopez

● Palavra de especialista

► Nas famílias tradicionais de antigamente – mas não tão antigamente – a norma era a divisão de tarefas e funções de modo bastante rígido: mulheres cuidavam da casa (roupas, comida, empregadas, limpeza etc.) e os homens deviam ganhar dinheiro para o sustento de todos, de preferência em profissões mais valorizadas do que motorista ou office boy.

Como decorrência, o contato dos pais e filhos era bastante restrito, limitando-se a perguntas vagas, tipo: “como foi a escola hoje”? Ou a intervenções disciplinadoras quando as mães achavam que tinham nas mãos um problema mais sério.

Quero concluir que a afetividade real, a aproximação verdadeira entre pais e filhos, a troca de experiências, era frequentemente substituída por uma relação formal que pouco acrescentava.

Esses pensamentos me vêm à cabeça ao pensar no que vejo muitas vezes no contato diário com famílias. Das avós já falamos bastante, de como têm assumido cada vez mais as funções de cuidadoras dos netos. De substitutas eventuais das mães. E o avô, qual a atitude mais frequente que assume?

Como a maioria faz parte da geração mais antiga, aquela à qual me referi acima, frequentemente tem nesta relação a mesma postura que tinham como pais.

Apesar de uma “babação” própria de avô que a maioria mostra, dificilmente sabem detalhes do que acontece com os netos. Deixam essas preocupações com a avó. Mesmo quando o neto passa o dia todo ao lado deles.

Avô motorista

Às vezes vejo, com pesar, que preferem esperar o fim da consulta na sala de espera. Transformam-se, sem perceber, no motorista da família. Perdem a oportunidade de sentir aquela satisfação que libera os hormônios da felicidade. De sentir-se rejuvenescido. Disposto a viver intensamente.

Possivelmente, na volta para casa ainda passam no banco, onde os avós levam uma grande vantagem sobre os office boys: tem caixa preferencial!

Com isso, perdem (e muito) as melhores coisas que a vida pode nos dar: a possibilidade de trocas afetivas, de interação amorosa com aqueles que esperam tanto deles.

Sei que não são todos assim, mas me dirijo a todos: fujam do velho, assumam um papel onde o amor seja mais importante do que a autoridade! Deitem no tapete e rolem no chão com seus netos!

E mais…

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Fabio Ancona Lopez é médico com experiência de mais de 50 anos de exercício da Pediatria e especialização em Nutrologia; é professor titular aposentado da Disciplina de Nutrologia do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo; é autor do livro “Avós e Netos – uma forma especial de amar – manual de convivência” (Editora Manole, 2011), além de ser também um avô muito experiente; escreve todo mês na “palavra de especialista” do portal avǒsidade

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