Como amar as pessoas difíceis?

Apesar de seu jeito nada sorridente, ela era, na percepção da neta, a mulher mais elegante do mundo. Tinha um gosto bastante sofisticado

Por Elisabete Junqueira

► Há algumas semanas, escrevi aqui sobre a minha maravilhosa avó Virginia Lucia.

Foi fácil falar sobre ela. Quem teve a oportunidade de ler o artigo certamente entendeu por que foi fácil.

Por uma questão de amor, vou contar agora a minha história com minha avó paterna, Eulina, filha de espanhóis da Galícia e dona de temperamento bem complicado, por muitas vezes sombrio e, para a maioria das pessoas, difícil de conviver, difícil de amar.

Eulina, vocês sabem, é o feminino de Éolo, nome do deus grego dos ventos e das tempestades. Ela fazia justiça ao nome…

Meu avô, o marido dela, era filho de imigrantes portugueses e a tratava literalmente como uma rainha, como diziam todos os parentes mais velhos com quem convivi.

Então, de repente, vovô morreu, precocemente, de enfarto fulminante. Para minha avó, não foi só uma perda afetiva irreparável. Os confortos materiais também desapareceram. E o equilíbrio emocional da família, se é que um dia existiu, também acabou.

Sim, era uma família cheia de conflitos. Mas vovó Eulina continuou firme, sem perder a fleugma, e viu os filhos crescerem e se multiplicarem – só um pouco, é verdade, mas vieram cinco netos, e eu sou a caçula.

E parece que eu estava destinada a receber os seus raros afetos, diferentemente do que era dispensado aos demais netos.

Apesar de seu jeito nada sorridente, ela era, na percepção da neta, a mulher mais elegante do mundo. Tinha um gosto bastante sofisticado. E a nossa convivência se passava muito por este tema.

Os únicos banhos de espuma da minha infância (muito para uma criança pequena, não é?) foram obra dela. Era o jeito que ela encontrava de me deixar pronta para acompanhá-la às festas de aniversário, batizado e outras.

Tinha um detalhe: os vestidos que eram feitos caprichosamente pela minha mãe, com fitinhas, bordados e outras coisas que as meninas usavam, eram por ela substituídos por outros feitos de tecidos mais encorpados e com fitas de gorgorão.

Ah, era demais frequentar com vovó os estúdios da “modista”, como ela chamava sua fiel costureira, que fazia à perfeição os vestidos que ela determinava para mim.

Ser uma das raras pessoas que mantinham boa relação com vovó Eulina também me proporcionava outras vantagens. Por exemplo, a minha tia Maria de Lourdes, filha de vovó Eulina, que era extremamente brava, guardava com exagerado ciúme a sua coleção de bonecas estrangeiras raríssimas em uma linda sala de espelhos. E quem é que tinha permissão para brincar com essas bonecas… ? Ah, eu, só eu!

À sua maneira, vovó me ensinou a caminhar corretamente, com muitos e muitos passos levando um livro equilibrado na cabeça. Também me ensinou a comer com bons modos, a me sentar direito e a me portar na presença dos adultos.

Mais do que isso: ensinou-me a resistir, com o seu exemplo.

Embora vivendo em um ambiente pouco atraente para uma criança, eu gostava muito da sua companhia e a amava sinceramente.

Antes de morrer, pude retribuir e lhe dei a última alegria na vida: conhecer um bisneto, meu filho primogênito.

Que bom, vovó Eulina, que vivemos felizes, com cumplicidade, à nossa maneira!

 

Elisabete Junqueira é administradora de empresas e publicitária, avó de Mateus, Sofia, Rafael e Natalia, e espera o quinto neto para fevereiro de 2016

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4 Comentários

  1. margot Pinheiro said:

    Gostei muito do que você falou da nossa avó Eulina (nascida Eulina Sá Figueroa). Embora não tenha tido contato direto com ela, pois morava noutro estado, a conhecia pelas informações da minha finada mãe Beatriz, que a conheceu desde menina. Aliás, o meu irmão Luiz Carlos também era o xodó dela desde que nasceu.

  2. andreia rodrigues said:

    Beth, então é daí que vem a sua elegância? Amei o texto, de uma sensibilidade ímpar! Parabéns!

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