Diário de um avô escritor

Diário
Mesmo sendo um avô apaixonado, o autor alerta para evitarmos nos projetar nos netos, como fomos tentados a fazer com os filhos

Por Jota Carino

E o título adapta a palavra ‘corujice’, que vira ‘avoíce’

Sou um avô de primeira viagem. Meu neto, Rafael, completa exatamente hoje, quando escrevo este texto, 30 dias de nascido. A exemplo do que fiz com meus dois filhos, um deles o pai do Rafael, estou escrevendo um diário onde vão sendo registrados tanto dados e informações que possam ser úteis no futuro quanto às reflexões e admirações de um avô apaixonado.

Denominei tal diário “Avoíce”, numa clara adaptação da famosa expressão “corujice”, sempre em voga no mundo dos “babões”, sejam pais, avós e todos aqueles que misturam admiração e paixão com a proteção e o carinho que devem cercar esses pequeninos. Fiz isso porque não me ocorreu essa outra forma de nomear, excelente, que é “avosidade”, que também não encontrei dicionarizada.

Mas não importam as denominações. O importante é o sentimento que tais palavras contêm e transmitem a todos. Essas são palavras que têm o cheirinho de cabecinhas perfumadas; o som dos choros, justificáveis ou não, que ecoam em nossos ouvidos e nos movem de nossa prontidão permanente, para acudir, ajudar ou de qualquer forma amenizar aquilo que soa em nossos ouvidos de avós como indícios de um sofrimento.

A avoíce ou avosidade é generosa e pressurosa. Avós verdadeiramente imbuídos dessa missão que a Vida nos confia cedem tudo (ou quase tudo, não é, mamães e papais?) e atendem logo, doidos pra que o choro passe, seja provocado por uma dor de barriga, um tombo da bicicleta, e até, nos netos já bem mais velhos, o motivado pelas desilusões amorosas, as frustrações de não passar num vestibular, e por aí vai.

Xixi na fralda diário

Dia desses, o Rafael, chorou deitadinho no berço. Chorou forte, numa daquelas manifestações desabridas que só os adultos muitos desesperados, e com fundamento, costumam ter. Mas, no mundo diferente da avoíce, o choro do neto é desespero puro, não uma prosaica cólica.

Larguei minha leitura, no cômodo ao lado, e corri para acudir aquele pequeno ser “atacado por todos os males do mundo”, como parecia ser a este avô que sofre de avoíce recente. Ao entrar, na semiobscuridade, um pouquinho de luz atingia o rostinho.

A faixa luminosa estava projetada justamente sobre fendas miudinhas acima das bochechas, formadas pelas pálpebras. Foi então que eu vi que a luz fazia brilhar olhinhos semicerrados marejados de lágrimas…

Ora, dirão vocês que me leem, que motivos havia para tanta emoção de um avô, parecendo um dramalhão mexicano? Ah, meus caros, a avoíce ou avosidade é uma síndrome do estado benfazejamente patológico que abala corações e mentes dos verdadeiros avós.

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Diante de mim, aquele menininho filho do meu filho, debatendo pequenos braços e pernas, parecendo a perfeita imagem do desamparo, comoveu-me até às lágrimas.

Claro que, no mundo perfeito da racionalidade, não era nada demais; era apenas um xixi na fralda ou uma vontade de mamar. Mas no universo da avoíce, sempre permeado de emoção, qualquer coisa que entristeça netos abala avós.

O simples chorinho convulsivo de um bebê, o pranto da netinha que machucou o dedo, coisas assim, são aumentadas pelas lentes de amor sempre usadas diante dos olhos por avós acometidos de avoíce.

Janela da esperança diário

Netos são milagres particulares dentro do grande milagre que liga as gerações. Neles vemos o passado, corporificado em aparência física, comportamentos, modos, manias – tudo isso muito parecido com nossos filhos pais desses netos.

E vemos o futuro. Como avós amorosos e dedicados, tentamos vislumbrar a vida desses netos lá na frente, inclusive quando não estivermos compartilhando este mundo com eles. Olhamos pela janela da esperança, enquadrando em nosso pensamento felicidade, sucesso, saúde, na vida de nossos netos.

Há que ter cuidado, apenas, com uma coisinha.

Khalil Gibran, escritor, poeta e filósofo libanês, escreveu em um de seus poemas:

“Vossos filhos não são vossos filhos
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma (…)
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe…”.

Nesses versos está contido uma alerta, para que evitemos nos “projetar” nos filhos, desejando que sejam à nossa imagem e semelhança. Isso vale também em relação aos nosso netos. No mais, vivamos plenamente nossa avoíce ou avosidade. Isso é tão gostoso, não é mesmo?

Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então.  Então.

Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então.  Então.

E mais…

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Então. Então. Então. Então. Diário. Então. Então. Então. Então. 

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Jota Carino é avô de primeira viagem, professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com formação em sociologia e filosofia; é escritor e membro da Academia Fluminense de Letras, cadeira nº 20; tem vários livros publicados, de crônicas e de contos, e brevemente publicará seu primeiro livro de poesia

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