Dr. Beny: “Se depender de mim, meu neto não vai ver a cara de médicos”

[foto de Mário Henrique]

 Vovô Beny, o netinho Luke Benjamin e a vovó Patrícia

 

● Entrevista com o doutor Beny Schmidt

 

Não é que o médico e cientista Beny Schmidt menospreze a medicina, mas ele acredita que saúde vai além do hospital: “É um estado de espírito”. O diretor e fundador do Laboratório de Patologia Neuromuscular da Escola Paulista de Medicina defende que “quando a gente vive com capricho, tem menos chance de adoecer”. O que explica a própria vida saudável, aos 56 anos: “O grande momento do avô é descobrir que seguiu o caminho certo”.

 

A primeira constatação do médico e cientista Beny Schmidt, quando se viu na condição de avô em 2014, com o nascimento de seu neto Luke Benjamin, foi sobre ele mesmo: Você pensa: ‘Puxa vida, estou com tantos anos’”. Otimista por natureza, não viu problema, e sim realização. “A melhor maneira de aproveitar a vida é na construção de uma família”, diz. Além disso, para ele, o lado bom de ser avô é voltar a brincar: “Tô tendo a alegria de brincar de novo com uma criança. E com isso a gente enxerga que também é criança ainda”.

O especialista recebeu o portal “avŏsidade em sua casa em Atibaia, numa tarde ensolarada de junho, para falar da sua visão profissional e pessoal sobre ser avô. Admitiu logo: “Gosto mais do aspecto lúdico da avosidade do que do aspecto educacional ou médico”. Até porque, para ele, o tema saúde tem mais a ver com estilo de vida do que com receitas e tratamentos: “Saúde não se compra na farmácia. Quando a gente vive com capricho, quando gosta do que faz, quando tem um amor, uma família, um netinho… Tem pouca chance de adoecer”.

Beny sabe que quem é avô precisa tomar cuidado com “conselhos em demasia”: “A partir do momento que você interfere na conduta que o filho vai tomar com o seu neto, está obstruindo uma história que tem que ser vivida”. Mas, se a experiência dele puder contribuir na formação do descendente, a principal recomendação do médico ironicamente seria: distância dos homens de branco.

Sim. Filho do pediatra que introduziu o essencial “teste do pezinho” no Brasil, não hesita em dizer que já vivemos um momento de “paranoia da saúde”, segundo ele “muito influenciada pelo poder econômico, pela indústria farmacêutica, pela mídia”. Explica: “Hoje é normal uma mãe grávida realizar exame ultrassom mês a mês sem necessidade, ou uma mãe de bebê consultar frequentemente o pediatra sobre coisas que uma mãe, por instinto, resolve de formas melhores”.

Beny Schmidt

Patologias emocionais

Depois de chefiar o maior mapeamento de doenças musculares do mundo, fazer importantes descobertas sobre células musculares e criar centros esportivos no Brasil, Beny diz ter percebido que as patologias ocorrem mais em pessoas que passaram por problemas emocionais. E conclui: “Eu pretendo tentar fazer com que meu neto precise de um médico o menos possível”.

Ele apresenta um programa sobre saúde na internet, o Ciência Livre, e é constantemente convidado para entrevistas na televisão. Ainda assim gosta de ter tempo para a mulher, os filhos, o neto e até os animais. “Tolsty – Retratos de Amor por Um Cão” é o livro que acaba de lançar pela CLA editora, sobre a relação com o bicho de estimação. “Acho que a gente tem que aproveitar tudo que é bonito. Não consigo enxergar a vida com uma razão sem fidelidade e beleza. Não sou agnóstico. Todo bom cientista percebe que a razão é muito ineficaz em definir a vida”, filosofa.

Na fala de Beny não cabe separação entre sua experiência profissional ou pessoal, tamanha interligação entre as duas facetas. Se saúde é estilo de vida, ele deixa um conselho para quem mais passe pela mesma fase de vida: “Quem sabe a avosidade chegou e não é o momento pra acordar e realmente parar pra viver? Muitas pessoas envelheceram e se esqueceram de viver. Eu acho melhor viver de verdade no último minuto da nossa vida do que passar uma existência inteira sem nunca ter vivido”. Ele pede mais uma taça de vinho, elogia a mulher com bom humor (“vem cá falar também, avó-gata”) e depois se despede da entrevista com a ressalva: “Falei tudo com o coração”.

 

A seguir, os principais trechos da entrevista com o médico e cientista Beny Schmidt

 

A melhor maneira

“Com a presença do neto, a primeira coisa que me vem a mente é parar um minuto pra refletir sobre a idade que eu atingi. Você pensa: ‘Puxa vida, estou com tantos anos’. Logo depois vem uma ideia da família, da beleza da família: a melhor maneira da gente aproveitar a vida é na apologia da família, na construção de uma família.”

 

Espírito de criança

Eu, que fui muito brincalhão com meus filhos, tô tendo essa alegria de brincar de novo como uma criança. E com isso a gente enxerga que a gente ainda é criança. Que eu ainda tenho, graças a Deus, um espírito de criança. Acho que é muito importante na terceira idade a gente ter esse espírito infantil ainda dentro de nós, porque é o momento em que a gente tem mais a oferecer por causa da nossa experiência de vida.

 

Melhor avô do que pai

Todo pai bacana tende a ser imitado pelos seus filhos e os filhos tendem a orgulhar seus pais que lhe deram amor. Eles retribuem o amor. Quando você entrega amor, eu recebo amor em troca. Acho que com o neto vai ser melhor ainda, porque [estou] mais maduro, com uma visão mais bem definida sobre tantas coisas, por ainda ter saúde pra aproveitar bem todos os instantes desse ato sagrado que é a vida. Eu espero ser melhor avô ainda do que tentei ser um bom pai. Essa é a minha esperança.

 

Saúde não se compra na farmácia

Talvez as doenças não existam. Elas só se desenvolvem na falta da saúde. E saúde não se compra na farmácia. É um estilo de viver. Quando a gente vive com capricho, quando tem um trabalho que gosta do que faz, quando tem um amor, uma família, quando tem um netinho… Tem pouca chance de adoecer. Percebi na minha profissão que a grande maioria das patologias cursam com pessoas que tiveram importantes problemas emocionais na vida. Então, se depender de mim, o meu neto não vai ver muito a cara dos médicos na frente dele.

 

Poupar conselhos em demasia

Em primeiro lugar, os nossos filhos têm o direito de construir as famílias deles. A gente deve poupar os conselhos em demasia. Temos que nos lembrar que foram através dos nossos erros que a gente chegou até essa idade, muitos com pujança, saúde, determinação. A gente deve deixar que as crianças descubram por si só como a vida é: a vida é uma luta, é dura, uma batalha, mas a vida pode ser bela. Em relação aos netos, é a mesma coisa. A partir do momento que um avô interfere na conduta que o filho vai tomar com o seu neto, está obstruindo uma história que ele tem que viver por si só.

 

A razão é ineficaz em definir a vida

Uma mensagem legal para meus amigos vovôs e amigas vovós é: aproveitem a vida. às vezes muitas pessoas envelheceram e se esqueceram de viver. Quem sabe a avosidade chegou, chegou o momento pra você acordar e realmente parar pra viver? Nunca é tarde. Eu acho melhor viver no último minuto da nossa vida de verdade do que passar uma existência inteira sem nunca ter vivido. Então, aproveitem a avosidade. Acho que a gente tem que aproveitar tudo que é bonito. Acho que a beleza é quase sinônima da vida. Não consigo enxergar a vida com uma razão sem fidelidade e beleza. Não sou agnóstico. Todo bom cientista tende a se aproximar de Deus. Todo bom cientista percebe que a razão é muito ineficaz em definir a vida. Uma boa mensagem: aproveitem esse momento com paixão e maturidade. Muita gente viveu, chegou na nossa idade, e não parou um minuto pra ver onde está, ver o que está fazendo. A avosidade é um momento pra gente aproveitar com muito carinho.

 

O grande momento do avô

“Onde será que se esconde a felicidade. No poder? Na beleza? Acho que se esconde quando a gente chega exatamente nessa idade de ser avô e descobre que escolheu o caminho certo pra você mesmo. Estar feliz e contente com o que você fez na sua vida e poder dizer tranquilamente que se você pudesse começar tudo de novo você repetiria quase tudo o que você fez. Esse é o grande momento do avô.”

 

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6 Comentários

  1. Dr Jair Pavao said:

    Dr Beny , como sempre desde que o conheci, tem este talento genial de dizer de uma forma simples , direta, natural e brincando, quais são os melhores momentos da vida e assim de transmitir em cada encontro, uma experiência de um homem que ama seus pacientes ,sua família ,seus amigos e sobretudo , a vida

  2. Beth Soeiro said:

    Dr. Beny…. não imagina a minha alegria em saber, em ver como, grande cientista está hoje ..bem ..feliz ..com uma família linda… vc sempre será um ser especial na minha vida…bjs a vc e família

  3. Ma.Helena CV Aschenbach (Lena) said:

    Olá, Beny. Parabéns pelo lindo netinho, que ainda não tive a oportunidade de vê-lo lá em Atibaia. Espero que você esteja bem, pois estamos saudosos de sua presença no RNA! Deixo aqui meu contato para conversarmos um pouquinho a respeito do Origami na arte-terapia. Tem sido um prazer enorme trabalhar na Clínica, da mesma forma quando atuava com os Parkinsonianos na ABP. Hoje, 5ª-feira, dia 18 de novembro, estarei em casa, à noite. Tel. 3032-4494 ou e-mail dobraduraslena@ig.com.br

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