Dr. Fabio Ancona: cuidar dos netos faz bem à saúde

Saúde
A ciência comprova que dar e receber amor estimula a generosidade e a empatia, e também ajuda recuperar perdas relacionadas à idade

Por Fabio Ancona Lopez

● Palavra de especialista

► A bioquímica do amor e a saúde. Há muito tempo sabe-se que as emoções são capazes de desencadear reações no organismo que levam à liberação de substâncias que nos preparam para o enfrentamento de situações inesperadas.

Todos sabem, por exemplo, que um susto faz com que a suprarrenal libere adrenalina, hormônio que aumenta a frequência cardíaca, preparando-nos para uma reação de defesa ou de ataque.

As mães sabem que o simples choro do seu bebê ou, até mesmo, o ato de olhá-lo com carinho, pode fazer com que haja saída de leite das mamas daquelas que ainda estão amamentando. Esse fenômeno ocorre por ação de um hormônio chamado ocitocina, sobre o qual vamos falar um pouco.

A ocitocina é um hormônio produzido por uma região do cérebro sensível às emoções, chamada hipotálamo, e é armazenado numa glândula chamada hipófise.

Esse hormônio tem múltiplas funções, entre as quais promover as contrações musculares uterinas reduzindo o sangramento após o parto. Também estimular a liberação do leite materno; produzir parte do prazer do orgasmo; produzir medo do desconhecido. E, fundamental para o que nos interessa, desenvolve apego e simpatia entre as pessoas..

Demonstrou-se que a ocitocina estimula a generosidade, a confiança e a empatia, como veremos a seguir.

Ocitocina e saúde

Cientistas da Claremont Graduate University, em 2010, no encontro anual da Sociedade de Estudos de Neurociência, em San Diego, apresentaram os resultados de um estudo que avaliou os efeitos do hormônio ocitocina em voluntários. Em uma situação na qual deveriam decidir se davam ou não dinheiro a estranhos.

Segundo os pesquisadores, os que receberam o hormônio ofereceram aos estranhos 80% mais dinheiro do que aqueles que tomaram um placebo (substância sem efeito farmacológico).

Para Paul Zak, chefe da equipe que realizou o estudo, o resultado mostra que, apesar de os seres humanos serem inerentemente altruístas, eles também são generosos quando sentem mais empatia.

“É a empatia que nos faz abrir a carteira e ajudar estranhos generosamente”, explicou o médico. “A ocitocina afetou de maneira específica e intensa a generosidade nos voluntários, quando eles foram levados a pensar sobre os sentimentos de outras pessoas.”

Segundo Zak, o hormônio “acionou a alavanca da empatia no cérebro”.

Em um estudo de 2005, estabeleceu-se uma relação entre a ocitocina e a confiança, demonstrando que o hormônio provoca uma mudança na química cerebral que tem uma importância evolucionária.

“Quanto mais confiamos e cooperamos uns com os outros, mais benefícios vamos obter juntos”, disse. Sabe-se também que a ocitocina é importante no desenvolvimento do bem estar.

Antienvelhecimento

Mulheres com taxas mais altas do hormônio mostram-se mais satisfeitas com a vida e tem menos depressões. Os autores do trabalho concluíram que funcionando como parte dos mecanismos cerebrais ele atua para nos fazer mais felizes.

Esses estudos sugerem, portanto, novos papeis para a ocitocina.

Pesquisadores dizem que a ocitocina liberada durante a amamentação ou mesmo durante um abraço caloroso, poderia se transformar em tratamento viável para a perda muscular relacionada à idade.

Outro estudo aponta que ela poderia, um dia, ser usada para manter e reparar os músculos envelhecidos. Foi um trabalho realizado pela Universidade da Califórnia em Berkeley. Esse efeito já foi demonstrado em ratos.

É possível prever que a ocitocina ultrapasse a terapia de reposição hormonal tradicional como um dos principais tratamentos antienvelhecimento para uma série de condições.

Agora, vamos ligar esse conhecimento com a situação familiar de avó, mãe e neto. A criança mamando faz com que a mãe libere ocitocina para produzir mais leite e para que a saída do leite da mama seja mais fácil, o que deixa a mãe mais feliz e confiante.

A avó, participando ativamente junto à sua filha e a seu neto aumenta, mesmo sem saber que a causa disso é também bioquímica, seu estado de confiança e felicidade.

Agradar seu neto e brincar com ele aumenta a quantidade de seu hormônio e melhora, coisa que ela nunca imaginou, a condição da sua musculatura. Todos terminam ganhando, mesmo sem fazer uma programação prévia para isso, simplesmente porque se deram e receberam amor.

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Fabio Ancona Lopez é médico com experiência de mais de 50 anos de exercício da Pediatria e especialização em Nutrologia; é professor titular aposentado da Disciplina de Nutrologia do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo; é autor do livro “Avós e Netos – uma forma especial de amar – manual de convivência” (Editora Manole, 2011), além de ser também um avô muito experiente; escreve todo mês na “Palavra de especialista” do portal avǒsidade

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