Dr. Fabio Ancona: os alimentos e o sono das crianças

Sono
Para que a criança tenha um sono sossegado, o Dr. Fabio orienta que demonstrar amor e acolhimento é tão importante quanto a alimentação

Por Fabio Ancona Lopez

  Palavra de especialista: não podemos esquecer que somos mamíferos

Mães e avós preocupam-se, com razão, em fazer com que as crianças tenham um sono tranquilo. Faz parte dessas preocupações o cardápio da hora do jantar, que deve ser pensado de modo a favorecer o sono.

Sabemos que crianças são mais saudáveis e dormem melhor se tiverem uma dieta equilibrada, contendo uma boa variedade de alimentos. Uma das chaves para uma boa noite de sono é se alimentar de modo que o cérebro seja “tranquilizado” e não “estimulado” antes de dormir.

Do ponto de vista da bioquímica, alguns alimentos, dependendo da quantidade ingerida, podem colaborar para um sono melhor, enquanto outros contribuem para que fiquemos acordados.

É interessante saber que alimentos que contêm triptofano (o aminoácido precursor da serotonina e melatonina, substâncias indutoras de sono) contribuem para o sono. Exemplos: laticínios, produtos de soja, carnes, frango, grãos integrais.

Refeições mais leves provavelmente favorecem um melhor sono, ao contrário de refeições gordurosas e fartas, que prolongam o trabalho do sistema digestivo e produzem gases.

Por outro lado, refeições ricas em proteínas causam o efeito contrário. Elas contêm o aminoácido tirosina que estimula o cérebro ao invés de relaxá-lo, ou seja, deixa as crianças mais alertas.

Natureza humana

Poderíamos enumerar uma série cansativa de alimentos que teoricamente podem favorecer ou atrapalhar o sono segundo suas características bioquímicas. Quero, no entanto, chamar a atenção para um outro aspecto, muito mais ligado à biologia do que à bioquímica.

Nós, pedantemente autointitulados de “homo sapiens”, vivemos fazendo coisas que contrariam a natureza e nos preocupando com as consequências do que fazemos.

Exemplo: quem tem uma cadelinha em casa, no instante em que ela dá cria, avisa a todo o mundo: “não chegue perto porque ela teve filhotes”. Respeitamos esse momento porque fica evidente que qualquer interferência externa pode atrapalhar o sossego que a “mamãe” deve ter. Por que será então que inventamos os berçários para as nossas crias?

Felizmente, cada vez mais tem sido praticado o alojamento conjunto nas maternidades, fazendo com que os pais possam ter contato direto e contínuo com o bebê.

Sono e acolhimento

E na hora de dormir?

Vemos (mas não aceitamos isso para nós, os “sapiens”) que todos os mamíferos ficam ao lado das mães na hora de dormir, desde o nascimento até o instante em que se sentem independentes. Por que achamos que nossos filhos devem ter autonomia para dormir desde os primeiros meses de vida?

É claro que muitas coisas decorrem da vida moderna: mães que saem cedo ao trabalho e precisam descansar, por exemplo. No entanto, a observação de todas as mães é de que os filhos dormem melhor se elas estiverem junto.

Não precisamos chegar a imaginar que isso implica em estar na mesma cama, mesmo porque está comprovado que este fato implica em riscos para as crianças. Mas devemos nos conscientizar que crianças precisam, muito mais do que triptofano, de apoio, acolhimento e segurança. Isto pode vir da mãe, da avó e de quem mais estiver perto delas.

Por isso, ao lado de refeições noturnas leves, não se deve esquecer nunca que somos mamíferos e a biologia nos impõe comportamentos próprios da espécie. O mais importante deles, o alimento que tranquiliza e faz dormir sossegado, chama-se acolhimento ou, se preferirem, amor claramente demonstrado.

Bom sono!

E mais…

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Fabio Ancona Lopez é médico com experiência de mais de 50 anos de exercício da Pediatria e especialização em Nutrologia; é professor titular aposentado da Disciplina de Nutrologia do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo; é autor do livro “Avós e Netos – uma forma especial de amar – manual de convivência” (Editora Manole, 2011), além de ser também um avô muito experiente; escreve todo mês na “palavra de especialista” do portal avŏsidade

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