Dra. Elizabeth Monteiro: pré-conceitos & preconceitos

preconceitos
O preconceito existe e, mesmo se pronunciado em tom de compaixão ou bondade, ele passa de geração para geração - alerta a Dra. Elizabeth

Por Elizabeth Monteiro

Palavra de especialista: quando pré-conceitos se tornam preconceitos

Duas amigas que não se viam há tempos se reencontram e colocam a vida em dia:

– O seu filho se casou?

– Ih! Minha filha, nem te conto… Me deu um desgosto enorme. Se casou com uma advogada muito bem-sucedida, mas sabe como é, né? É preta. E ainda daquelas de nariz em pé. O meu filho tem de levar um cafezinho na cama todos os dias para ela. Coitado…

– Nossa!… Imagino o que você sente, minha amiga… Um filho tão bonito, inteligente! – responde a outra.

– Pois é, minha amiga… Com tanta mulher bonita dando em cima dele, tinha de escolher logo essa… E a sua filha? Casou-se?

– A minha filha casou-se, mas também não fez uma boa escolha. Casou-se com um rapaz de família humilde, pobrezinha… Já viu né?  Mas, apesar de pobre, ele é educado. Imagina você que ele leva um cafezinho na cama para ela todos os dias?

Você não é preconceituosa, né? Todas as mães, sogras, noras dizem isso. Muitos homens também. Mas eu du-vi-de-o-doooo…

O preconceito existe. Não me venha com lero-lero. Tudo bem que seja meio dissimulado, mas que você é pré-conceituosa… Ah! Isso é mesmo.

Tipos de pré-conceitos

Alguns pré-conceitos que rolam nas famílias:

– O meu filho não vai estudar em uma escola de “nerds”.

– A minha nora é filha de italianos, daquelas famílias de “carcamanos”: fala alto, briga, não tem classe nenhuma.

– O meu genro é filho de judeus. Como ele é “pão-duro”.

– Eu sou de origem europeia, não aguento essa brasileirada fazendo farofa na praia.

– Minha filha quer engravidar, mas sei lá!… O marido dela tem um irmão autista…

– Minha filha vai estudar na Suíça. Não nasceu para casar e limpar bunda de criança ranheta.

– Imagine você: a minha nora é daquelas famílias “paulistanas tradicionais”. Ela chega em casa e não pega nem um copo para tomar água. Quer ser servida em tudo. Eita mulherzinha nojenta. Se ela pensa que eu vou cuidar do filho dela desse jeito, está muito enganada!

– Os meus netos são os filhos dos meus filhos. São aqueles que têm o meu sangue. Criança adotada não é meu neto.

– A filha da minha nora não é minha neta. Como é que eu posso gostar dela do jeito que eu gosto dos meus netos verdadeiros?

– Imagine só! Deixar a criança com uma babá! É melhor deixar com a avó. Sabe-se lá de onde vem essa gente.

– Não! Eu que não vou deixar o meu filho com a minha sogra: aquela mulher caipira, gorda e que não soube educar nem os filhos dela… Credo!

– Eu hein! Deixar a minha filha com a minha sogra? Prefiro deixar com a minha mãe! A mãe da gente é a mãe da gente. É diferente…

Tons dos preconceitos

E assim é a vida… Pré-conceitos que se tornam preconceitos e que existem em TODAS as famílias.

Quando você percebe, se vê fazendo ou dizendo essas coisas em diversos tons, seja em tom de crítica, maldade, brincadeira, dó, generosidade, compaixão, bondade, elas não deixam de se tornar preconceitos.

E assim eles passam dissimulados, de geração para geração.

Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então.

E mais…

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Elizabeth Monteiro é psicóloga e psicopedagoga, especialista em relacionamento entre filhos, pais e avós, autora dos livros “Criando Filhos em Tempos Difíceis”, “A Culpa É da Mãe”, “Cadê… o Pai Dessa Criança?” e “Avós e Sogras – Dilemas e Delícias da Família Moderna”; tem quatro filhos e seis netos, e escreve todo mês no portal avŏsidade

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