Fala, Dona Adelaide!

Adelaide, a “italiana lúdica, guerreira e desbocada” que dá nome ao livro, narra histórias hilariantes na linguagem típica dos imigrantes

Por Jorge Luiz de Souza

► Há muitas maneiras de um neto demonstrar quanto curte seus avós, e o ator e diretor de teatro Jeff Gennaro encontrou uma forma bem original há cinco anos, quando passou a publicar no jornal “Impresso Imobiliário”, de Ribeirão Preto, cidade do interior do Estado de São Paulo, uma coluna semanal que intitulou ‘Fala, Dona Adelaide’, com crônicas que misturavam “causos” e reflexões de sua avó Adelaide, a nonna italiana, usando a linguagem típica da avó imigrante.

Agora, ele transformou esses textos, que chama de “minicrônicas psicográficas”, em um livro, onde também acrescentou outras histórias de sua autoria. O livro “Fala Dona Adelaide!” vai ser lançado dia 31 de maio em São Paulo. “É um projeto muito emocional, uma homenagem à minha avó e a outras tantas mamas, avós e bisavós que moram em nossos inconscientes e corações”, diz Jeff, que qualifica carinhosamente sua avó materna, que dá nome ao livro, de “italiana lúdica, guerreira e desbocada”.

O autor é ator criado na escola do Teatro Oficina e em 1983 foi um dos fundadores, nas dependências do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, da Companhia de Teatro Salada Vinte, que anos depois passou a focar seu trabalho em teatro infantil, especialmente no teatro de bonecos, e desde então vem se apresentando seus espetáculos em escolas, institutos culturais e em muitos outros locais, além de realizar oficinas ludo-pedagógicas.

 

Trecho

Tô ca paciência nos limite! Ma o médico que io gosto falô pra io fazê tudo que io acha certo e que a vida se resorve. Então, io tô tentando!

Otro dia, tava conversando cuma moça na fila dos idoso. Ela disse que tem 77 ano e que num aguenta mais essa merda de vida.

Io falei: – Ma cê é tão jovem, tá reclamando do quê? Ela falô que tá cansada, que a penson não dá pros remédio, que o filho é vagabundo e que filha tá sem marido…

Io falei: – Corta os remédio. Metade deles num precisa!

Ela falô: – Mais é os carmante!

Io falei: – Boba. Num toma carmante que te dexa pazza! Compra uma garrafa de cachaça. Dexa debaixo da pia pra ninguém num vê. Toma umas duas xicrinha por dia e cê fica alegrinha o dia intêro…

Ela falô que o médico e os filho ia brigá.

Ma io falei: – Que se fregua eles! E dexa! É mais barato e o primero pobrema tá resolvido! Ela riu. Acho que gostô da ideia. Ma veio choramingando o emprego do filho dela. Que o menino tem mais de 50 ano e que num consegue imprego. Que ele é engênhero. Que cumo é que um engenhêro fica sem trabalho? Que tudo os lado que se olha tem construçom…

Contei pra ela que otro dia, foi um home trocá uma pia quebrada no banhêro lá de casa e cobrô os olho da cara! Falei pra ela manda o filho dela trocá umas pia. Senom, pra ele arrumá as carçada, limpá as fossa, trocá as telha dos telhado…

Ela parece até que ficô brava!

– Mio filho é engenheiro! Num vai fica fazendo trabalho de gente do norte!

Até pudia mandá ela à merda. Ma a fila dos idoso num andava e io tinha que ficá cum ela ali cumigo. Então, tussi os catarro enquanto puxava dos cornos um poco de saco! E Deus é tão grande, que a fila começô a andá.

Então, io falei: – Olha filha, é melhó um engenhêro pagando as conta queném a gente do norte, do que fica devendo as calça queném um lorde. Ela se riu de novo e a fila andô mais um poco. Aí, nóis rimo junto de um home que começô a peidá na fila. Ele dava uma de migué fingindo que num era ele. Contei pra ela que quando io era pequena, tinha os bonde e que tinha um home gordo, todo bem vestido e que peidava e se fingia de que num era ele. Ma tudo mundo sabia donde vinha os gases!

As criança cumeçaro a pegá o bonde naquela hora só pra ri dele. Poverello!

Mio pai dizia que tem que peidá, sinão sobe pro célebro! E ela ria! Gostei da moça…

Ma então, começo a reclamá da filha que num tem marido. E que a mulhé teve uns quatro marido, e que agora tá suzinha, e que tem uns namorado tudo stronzo, que até bate nela! Ma que ela num pode vivê sem home… E io disse: – Ma dexa a minina! Se ela tem o fogo no rabo, dexa ela usá! Fogo que se apaga, num se acende mais. Tem que sê feliz antes de fica no caxão cos bicho comendo nóis! E ela se riu dinovo. E a fila andô. Despois que nóis fumo atendida, ela me ficô esperando no lugar que o carro do mio neto tava guardado. Queria ela me dá um abraço. Eh… nóis se abraçemo.

Ela até choro. Me falô que tava um poco mais leve. Io num intendi. Ma se ela ficô mais leve, já ajuda. Tava mesmo meio gorda, ela! Então, nóis fumo pra casa. No caminho, vendo as luizinha da cidade, fiquei pensando si num divia mandá o engenhêro e a filha dela que tá sem marido tomá cum ela umas cachacinha tudo eles junto. Afinar, eles é tudo jovem. Eles pode. Eh… A vida num é fácil!

Escreveu o que io falei? Então, manda!

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Serviço
Livro: ‘Fala Dona Adelaide! E outras histórias’
Autor: Jeff Gennaro
Dia: 31/5/2016, a partir de 20h00 (com sessão de autógrafos e show de MPB)
Local: Bar Jeca Jones
Rua Azem Abdalla Azem, 2620 – Butantã – São Paulo/SP
Telefone: 11 3726-1995
Couvert artístico: R$ 10,00
Mais informações:
www.teatrosaladavinte.com.br
www.facebook.com/teatro.vinte
www.facebook.com/jeff.gennaro.5

 

Jorge Luiz de Souza é jornalista, editor do portal avǒsidade e tem cinco netinhos e netinhas de 2 meses a 3 anos

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