Laurinha em casa

Laurinha
Vovô Dirceu e a neta Laurinha, que ele define como barroca, inquieta, alegre, intensa, que faz as coisas do seu jeito e não muda por nada

Por Dirceu Pio

● O telefone, a sopa e os macacos: uma tarde ao lado da neta

► Ainda ontem, ela passou um dia inteiro em casa… foram horas de puro deslumbramento! Laura, Laurinha, minha neta de três anos, filha do meu segundo filho, o engenheiro de Alimentos, Edu, casado com a advogada Daniela de Freitas.

Ela e o pai chegavam do aeroporto onde foram levar a mãe: “Minha mãe viajou”, ela diz com um dos braços imitando a decolagem de um avião… E onde ela foi? “Trabalhar”, ela responde, sem entrar em detalhes…

Mais tarde, ao lhe perguntarem onde ela esteve, dirá: “Eu estava na casa do vovô Dirceu e da vovó Susana”, tudo em sílabas bem pronunciadas.

Casa grande, ela se solta… é difícil acompanhar seu ritmo… lembro-me do dia em que uma sobrinha – Fabiana –, que mora em Londres, veio me visitar aqui em Vinhedo… ela tem uma filha pouco mais velha, também chamada Laura… a mãe quis bater uma foto das duas Lauras…

A Laura londrina esteve sempre em pose fotográfica, com um sorriso encantador nos lábios, à espera do clic… já a Laura valinhense, a minha Laura, parecia possuída pelo bicho carpinteiro, pulava, dava cambalhota, plantava bananeira… no décimo quinto clic, Fabiana falou: “Desisto…”

Considerei que a Laura Londrina é clássica e a Laura valinhense é barroca…

Laurinha e as bananas

Minha Laurinha é sempre assim, um brinquedo de cordas, inquieta, alegre, intensa. O pai se afasta pra atender o celular e nós dois começamos o nosso dia que há de ser longo e exaustivo.

Primeiro, fomos pra cozinha pegar banana pra dar pros macacos. Ela vai junto. E volta junto. Com duas bananas, uma em cada mão. E saímos pra varanda…

Descasca as bananas ainda que eu peça para entregar com casca (“assim os macacos chegam mais perto da gente!”). Mas ela outra vez confirma aquilo que já sabemos: quando decide fazer uma coisa do seu jeito, não há nada que a faça mudar.

 

Laurinha

 

Ela coloca suas bananas descascadas e quebradas em pequenos pedaços na mureta da varanda. Ficamos à espera do bando de saguis que vem comer seu almoço. Com aquela tranquilidade de bicho amestrado. A gente se afasta. Embora saibamos que eles viriam comer até na mão.

Dessa vez, demoraram pra chegar: “Devem ter ido dormir de barriga cheia, ontem”, comento, ela ri… ficamos ali na varanda por vários minutos. Até vê-la desistir da espera e entrar na casa…

Foi para a cozinha e eu para o computador…ouço que ela conversa com a avó, que termina de preparar o almoço, cujo cardápio inclui a “sopinha da Laurinha”.

Volta pra sala, bate umas duas vezes no teclado do computador, tira o telefone do gancho, tecla uns números e atende: “alô, quem fala?” Como não obtém resposta passa pra mim com a pergunta: “Quem será que tá falando, hein, vovô?”

Eu ouço e respondo: “É uma gravação!” Desligo. E dali a instante ela pega novamente o telefone e me pede: “Põe a gravação de novo, vovô!” Haveria de pedir mais três ou quatro vezes. Até correr para a cozinha, de onde vinha a voz do pai chamando-a pra almoçar.

Pitangas, amoras, jabuticabas…

Adora a sopa da vovó Suzana. Mas detesta que coloquem queijo ralado ou qualquer outro aditivo. Gosta de sabores naturais. Adora quase todos os tipos de frutas, mas uma de cada vez. Não é chegada a salada de frutas.

Nada a deixa mais contente do que sair para o quintal e colher frutas do pé – pitangas, amoras, jabuticabas, araçás, cabeludinhas e butiás – volta empanturrada e feliz.

É difícil contar uma historinha pra ela com começo, meio e fim… conversar com Laurinha, inquieta, dispersiva, é sempre um desafio ao nosso poder de síntese. Ainda outro dia, consegui explicar pra ela por que não há passarinhos pousados no pé de jaca:

– A jaca produz um leite visguento e os passarinhos têm medo de ficar grudados.

No mesmo instante, ela saiu pra a varanda e olhando pro pé de jaca, gritou:

– Passarinho, passarinho! Eu vou lá na cozinha preparar um “leite com Nescau” pra você, tá bom?!

Naquele dia, os macacos chegaram tarde. Bem depois do almoço. Enquanto ela dormia, eu mesmo saí pra varanda, sentei-me num pequeno sofá e tirei um cochilo.

Acordei com um barulhinho estranho, rato roendo madeira ou qualquer coisa do gênero… fui ver de perto e caí na gargalhada: eram macacos roendo um biscoito de polvilho que Laurinha havia “esquecido” no meio das bananas, as quais já haviam sido devoradas por um grupo de 11 saguis.

Se fosse possível, eu a acordaria para assistir ao espetáculo junto comigo. Mas eles não esperam. Chegam, devoram tudo e se mandam.

Laurinha terá muitas outras oportunidades de vê-los comendo banana e biscoitos…

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Dirceu Pio é jornalista

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