Lucia Cucci: “Como avó, sou uma criança”

Lúcia diz que a relação com as crianças é melhor sem as mães por perto: “a parte dos avós é dar liberdade e afeto”

● Entrevista com a publicitária Lúcia Cucci

 

Publicitária renomada e avó, a paulistana concilia na agenda o trabalho na agência e episódios de desenho animado: “A gente trabalha, brinca com eles, se joga no chão. Não é como antes, que a gente respeitava os avós, mas não dividia experiências”. Enquanto ensina receitas de bolo, aprende com o olhar dos pequenos para o mundo: “Isso revigora muito. Faz a gente estar na vida hoje e não no passado”.

 

Na rotina de quem trabalha em agências de publicidade costuma sobrar pouco tempo livre. Mesmo assim, a publicitária Lucia Cucci faz questão de abrir espaço na agenda e manter proximidade com os cinco netos, de idades entre três e 15 anos. Dois deles moram na mesma cidade, São Paulo, e passam pelo menos dois fins de semana por mês com ela: “Eu sou de assistir Galinha Pintadinha junto, de dançar junto, pular junto, ir pra cozinha fazer o que eles gostam”. Para a diretora de mídia premiada (ela tem no currículo um prêmio Caboré, dos mais concorridos na área), essa relação é boa até para sua profissão. “O que aprendo com o olhar jovem deles no nosso mundo de comunicação faz uma diferença brutal”.

Lucia gosta de perceber como, por outro lado, também acrescenta aos pequenos: “Você sabe que pode influenciar a vida de uma criança e isso mexe com você. Te faz sentir ainda moderna, vibrante”. Ela garante que o espírito jovem com que as pessoas chegam na avosidade hoje facilita o contato com os netos.

Bolo Lucia Cucci 770

Livro de receitas

Provedora alimentar

Apesar de não ser o modelo de avó “que fica fazendo crochê”, ela se define como “a típica nona”, porque adora fazer as vontades dos garotos na cozinha. “Eles me veem como provedora alimentar”, diverte-se. E deixa a dica para outros avós criarem laços de intimidade parecidos: “Estabelece alguma relação. Se não for pela comida, pode ser pelo carrinho que você brinca com eles, alguma brincadeira que fazem juntos”.

A relação com as crianças é melhor sem as mães por perto, diz ela. A parte dos avós, acredita, é dar liberdade e afeto. “Os pais que se preocupem com a educação”. Cinco meses depois de ficar viúva do também publicitário Daniel Barbará, ela acha que é “superimportante” essa convivência com os pequenos. E também sabe da sua contribuição para a vida deles: “Quero viver para deixar boas recordações”.

 

Confira os principais trechos da entrevista com a publicitária Lucia Cucci:

 

MEIO CRIANÇA, MEIO NONA

A publicitária sente-se criança quando brinca com os netos. Estabelecer regras não é com ela: “Eu sou a típica vó daquelas nonas mesmo, que enchem as crianças de comida, de doce”.

“A Lucia avó é uma criança igual aos netos. Minha relação com eles é muito próxima, de assistir Galinha Pintadinha junto, dançar junto, pular junto, de ir pra cozinha fazer as coisas que eles gostam. Eu sou a típica vó daquelas nonas mesmo, que enchem as crianças de comida, de doce. Aqui não tem regra. Vamos sempre quebrar regra. A mãe deixa aqui e depois liga ‘Ele comeu?’ ‘Comeu.’ ‘O quê que ele comeu?’ ‘Ah, ele comeu batatinha…’ ‘Ah, mas você não deu comida pra ele?’ ‘Ele não quis. E eu não vou ficar brigando porque ele vem aqui uma vez por semana só. ‘Você que é a mãe.’ Eu sempre fui avó de levar neto pra passear e fazer uma cestinha com guloseimas dentro, de levar pra livraria e a gente sentar e ficar lendo livro junto. Eu compartilho muito os momentos do crescimento deles. E gosto de fazer programa assim. Tenho um neto Gabriel de nove anos que adora tomar café num lugar bacana. Essas experiências são bárbaras. Porque você sentar com o neto numa livraria, ele tomando um capuccino e lendo um livro não é o máximo? É um superprazer.”

 

PODE TUDO, MAS ELES RESPEITAM

Vovó Lúcia dá toda liberdade, mas não precisou tirar do lugar nenhum enfeite de casa porque ensinou os netos a respeitar a cada da vovó

“Eu tenho cinco netos e nunca tirei objetos do lugar porque eles viriam para cá. Eles nunca mexeram em nada, nunca quebraram nada, existe um respeito com as coisas da avó, e, tudo bem, não tem problema… com a avó pode tudo.”

 

INFLUENCIAR A VIDA DE UMA CRIANÇA

Saber que pode influenciar alguém 50 anos mais novo é revigorante, conta Lucia: “Você se sente ainda moderna, atual, vibrante”.

“É gostoso você ver uma criança e ficar descobrindo logo cedo as tendências dessa criança. O que essa criança pode ser? Um menino de nove anos que já ia pra cozinha, que já sabe a receita… Ele aprendeu comigo. É legal isso. Você tá ensinando uma coisa pra uma criança que pode virar uma profissão, pode virar um hobby. E isso mexe com a gente. Você saber que pode influenciar dessa forma a vida de uma criança que tem uma diferença tão grande de você, que são quase 50 anos de diferença, isso é legal. Você se sente ainda moderna, atual, vibrante, que as pessoas não te acham aquela vovozinha de lá atrás, que era chata, só implicava, que você respeitava, mas não dividia.”

 

AS NOVAS AVÓS

Segundo a publicitária, a diferença entre os avós e netos diminuiu nos dias de hoje: “A gente não é mais aquela vovozinha que faz crochê”.

“Eu vejo os meus netos hoje que eu divido com eles: a televisão, a cozinha, o passeio. Não tem essa distância, mesmo que tenha uma distância de idade. A gente não é velha. Não é mais aquela vovozinha que faz crochê. É a avó que trabalha, brinca com eles, se joga no chão. Coisa que nossas avós não faziam porque elas iam tem um treco se jogassem no chão. Acho que tem uma diferença grande nesse sentido.”

 

ESCOLA DA GALINHA PINTADINHA

O aprendizado com os jovens: “A gente precisa estar sempre atualizada nessas coisas do universo deles. Isso revigora muito. Faz a gente estar na vida hoje e não na vida no passado”.

“Existe uma troca. Eu aprendo com eles, porque na verdade você sempre aprende com os mais jovens, no sentido de você não ter o olhar treinado do jeito que eles têm. Eles descobrem coisas que são muito peculiares do mundo deles. E que no nosso mundo de comunicação faz uma diferença brutal. Se não tivesse com eles eu jamais saberia essas coisas de Galinha Pintadinha, de Disney, mesmo de programas de televisão como Carrossel… Eu jamais iria saber. O pequeno de três anos liga, e quer mandar mensagem, e escreve… Eles têm muita facilidade com a tecnologia. E isso faz com que a gente aprenda mais pra não ficar sem saber o que eles sabem. A gente precisa estar sempre atualizada nessas coisas do universo deles. Isso revigora muito. Faz a gente estar na vida hoje e não na vida no passado.”

 

OUTRAS CRIATURAS SEM AS MÃES

Lucia defende que os avós criem laços diretos com os netos: “As mães são um obstáculo nessa relação”.

“Pelo menos duas vezes por mês, na sexta à noite, vem um dos dois ou vêm os dois pra cá e os pais vêm buscar no domingo. Porque eles pedem, sentem necessidade. E eu sinto necessidade. E eu não gosto de ficar com as mães junto. Porque eles são outras criaturas sem as mães. Eu acho que não são só os meus, é do mundo. É impressionante. O pequeno a mãe fala ‘ai, meu Deus, não consigo dormir, que ele acorda cedo’. Chega aqui e o menino vai dormir 11h da noite e acorda 8h da manhã numa boa. Ele acompanha. Agora, chega a mãe e ele fica ‘nhenhenheim’, e a mãe não deixa, o menino corre… Olha! Eu já estresso. Eu digo ‘Olha, vocês vão embora, leva seu filho, que agora acabou’. A gente consegue interagir melhor do que com a mãe, a mãe é um superobstáculo nessa relação.”

 

A RELAÇÃO COM OS PAIS DOS NETOS

“Eu acho que a gente não deve influenciar muito na educação porque é muita confusão, cada um tem um jeito. A gente fala, ensina, mas educar ou dirigir, isso é com os pais. A gente não pode influenciar. Essas coisas: ‘Ah, minha avó deixa e a minha mãe não deixa…’ Isso eu evito ao máximo, porque é muito ruim você interferir na educação de uma criaturinha que convive com os pais e tem regras rígidas e tal. Então, pra mim, eles é que têm que cuidar, têm que educar. Eu vou deseducar, vou fazer do meu jeito, essa obrigação, não. É deles. Se eu vejo que a criança começa a demonstrar algum tipo de problema, aí eu chego, não na frente deles, e falo: ‘olha, eu senti isso, você acha que tem alguma coisa?’ A gente conversa muito nesse sentido. Mas nunca falo na frente das crianças… Existe um respeito pra gente continuar vivendo em paz.”

 

AMOR DE VÓ É SEM MEDO

Para Lucia, o amor de avó tem uma energia diferente do amor de mãe: “A mãe é mais protetora, a gente é mais amiga das crianças. É um amor mais completo, talvez”.

“Ele não é um amor como o de mãe, que é aquele amor incondicional porque ele veio de dentro de mim. Não é um amor materno, é um amor de vó, mesmo. Um amor amplo, parece que tem uma energia diferente da mãe. A mãe é mais protetora, a gente é mais amiga das crianças. É um amor mais completo, talvez. E não é um amor de medo. O amor de mãe é muito amor de medo. Medo de perder, de alguém tirar, de acontecer alguma coisa. A vó ama a criatura. A mãe ama a criatura que saiu dela. É um amor bem diferente. ‘Essa coisa me pertence, ele saiu de dentro de mim’. E a gente não, ele saiu de dentro do mundo, né? E ele é nosso.”

 

PROVEDORA ALIMENTAR

Fazer comida é a principal habilidade da avó Lucia: “O grande já faz coisas comigo e o pequeno só gosta do bolo que eu faço”.

“Eles chegam aqui com fome, sempre. Então a minha habilidade principal é dar comida pra eles. O grande já faz coisas comigo e o pequeno só gosta do bolo que eu faço. Faço pra ele um bolo que meu marido gostava, sem cobertura, só com canelinha e açúcar. Esse é o bolo dele. Se fizer com cobertura é bolo de menina e ele não come. Uma vez ele comeu na festa de uma amiguinha e odiou aquilo. Ele entra aqui: ‘Vó, tem bolo?’. Uma vez ele chegou aqui de surpresa e não tinha nada que ele gostasse. Ele falou ‘vó, pega lápis e papel: picolé de limão, danoninho, banana…’. Fez uma lista de compra! Eles olham pra mim e veem uma provedora alimentar. Então você pega as crianças também pelo estômago.”

 

LEVAR PRA VIDA

Dica da Lucia para os avós: “Faz com que você tenha uma relação amorosa afetiva com eles, que é isso que a gente vai levar pra vida”.

“Nesse momento em que eu tô, eles são supercompanheiros. Isso é superimportante. A gente fazer dessas crianças companheiros da gente. A gente vai viver muito menos que eles. E se a gente tiver esse relacionamento com eles, a gente não vai ser uma vó chata, uma vó que perturba, que incomoda, que beija babado. A gente vai ser uma companhia e que eles vão gostar de apresentar a gente pros amigos: ‘Minha vó cozinha superbem, vai na casa dela’. Então estabelece alguma relação. Se não for pela comida, é pela boneca que você curte, brinca junto com eles, pelos carrinhos com que você brinca com eles… Faz com que você tenha uma relação amorosa, afetiva com eles, que é isso que a gente vai levar pra vida. E a gente tem muito menos tempo pra viver que eles. E que a gente deixe sempre boas recordações. Eu quero viver pra isso.”

 

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2 Comentários

  1. Maria Fernanda Novaes said:

    Vó que deixa tudo é um Ó.
    Com mãe ou sem mãe por perto, não ajuda em nada.
    Viva as vovós que cedem, mas endurecem quando necessário.
    Avó que estabelece regras.
    Show
    Amor de vó é melhor sem mãe por perto mesmo

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