Minha avó, as prostitutas e eu

Lembranças das baldeações com a avó na Estação da Luz, ela sempre respeitosa, sem dizer pro neto o que aquelas mulheres faziam ali

Por Alexandre Prado

► Ela tirava um pé e eu colocava o meu. Vivíamos, de alguma forma, apoiados um ao outro. Era divertido, aliás, ela, minha avó, era muito divertida. Por conta da vida dura que levou, estava sempre ao meu lado mostrando o que era cada possível caminho.

E ela, realmente, vivia o que falava. Raramente nos separávamos, mas quando isso acontecia e eu tinha a oportunidade de observá-la de longe, tinha que dar meu braço para destruí-lo: ela era a personificação de suas próprias palavras.

Não tinha nenhuma brecha que pudesse me mostrar um caminho diferente a seguir. Aquariana no último grau, tinha amigos e amigas, até nas estrelas. Bastava uma ida ao mercado do bairro para termos um pequeno evento.

O açougueiro caprichava no corte da carne, pois era para Vó; o rapaz do mercado reservava os melhores produtos, pois naquele dia a Vó ia fazer a compra do mês; o cobrador de ônibus guardava com a sua bolsa um lugar, pra Vó, no coletivo lotado… era muito cuidado com a “Vó”.

Sim, todos a chamavam de “Vó”, menos eu. Você deve estar rindo, agora. Pode rir, mas é assim que funcionava a minha casa com a minha avó: eu a chamava de mãe.

Com a minha mãe, que era minha avó, vivi até os dezenove anos. E como já disse, ela era a personificação viva das suas próprias palavras. Um atributo raro, hoje. Porém – ele sempre existe na vida de qualquer um – algo, nesse tempo, me deixou intrigado.

As idas eram frequentes a Santo André, cidade onde funcionava um Centro de Umbanda de uma parente de muitos graus distante. As reuniões eram ótimas, mas acabavam muito tarde e lá vínhamos nós nas, muitas vezes, frias noites dentro do trem.

Trem, que na época, era uma sucata com rodas. As janelas, muitas delas, estavam emperradas e nunca fechavam. Algumas portas também vinham abertas pelo mesmo motivo. Precisávamos escolher bem o lugar pra sentar. Era uma guerra que quase sempre vencíamos.

Chegar na Estação da Luz representava metade da viagem. Faltava o restante para Carapicuíba. Um outro trem. Uma baldeação na estação Júlio Prestes. Para isso acontecer tínhamos que sair de uma para acessar a outra.

Aí vem o que me intrigava. Havia sempre muitas mulheres paradas na porta de estação. Estávamos de braços dados, eu meio sonolento, mas ficava esperto com um forte apertão que levava. E via tudo.

Eram muitas mulheres. Algumas muito gordas, outras sujas, uma fumante… reunidas ali naquele paredão gelado da rua Mauá. Não me preocupava, era mais um evento com a “Vó”. Um corredor solene se abria naquela calçada para a nossa passagem.

A minha avó, com o maior respeito do mundo agradecia com os seus olhos espertos e amorosos e as cumprimentava com um sonoro “boa noite”. Umas respondiam, outras gritavam “deixa ela passar!!!”, “cuidado, aí!!”, “boa noite, Vó. Vai com Deus!!!”… e lá íamos nós.

Nunca soube, pela boca dela, o que aquelas senhoras e moças faziam ali. Nunca soube, pela boca dela, o que faziam ali alguns homens bêbados. Mas sentia um respeito enorme por aquele momento da viagem e me satisfazia.

Não perguntava nada.

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Alexandre Prado é professor de Língua Portuguesa e Literatura da Rede Estadual de São Paulo

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