Dra. Ana Ferraz: as novas famílias em tempos virtuais

A autora tem identificado no dia a dia de seu consultório novos sintomas mais graves em quadros que acometem crianças cada vez mais jovens

Por Ana Maria Ferraz da Silva

Palavra de especialista

►As famílias e suas relações têm mudado de conformação nas últimas décadas, especialmente em decorrência da transformação de costumes imposta pela revolução industrial, em primeiro lugar, e, mais recentemente, pela globalização.

As famílias de hoje se estruturam a partir de parâmetros diferentes e se dissolvem por motivos que não fariam sentido na época de nossos avós e bisavós.

As novas gerações entram no matrimônio mais tarde. Geralmente, depois de sair da faculdade e ingressar no mercado de trabalho. Têm filhos também com mais idade. O que traz uma nova conjuntura diante da situação casamento/filhos.

É considerável o número de mulheres com idades que variam entre os 20 e os 30 e poucos anos que se deparam com o conflito: casar-se e começar uma família ou permanecer solteira para garantir mais alguns anos de liberdade. Mesmo que isso implique em arriscar-se a não ter seus próprios filhos.

Aquele ideal romântico de ter um casamento bem sucedido e lindos filhos perdeu sua força nestes tempos rápidos. Foi substituído pelo modelo da liberdade individual e da importância dos objetos materiais como representantes da felicidade e do sucesso.

O sujeito inserido no mundo moderno, virtual em sua essência, estabelece identificações a partir de modelos múltiplos disponíveis nas mídias. Diferente dos modelos identificatórios representados pelos pais, como acontecia com as gerações anteriores.

Até há bem pouco tempo, os pais eram os modelos, com os quais a criança se identificava. E a partir dos quais podia construir sua própria identidade.

Constituição das famílias

No mundo de hoje, essa condição se aplica cada vez menos. Pois são inúmeros os modelos adotados como “ideais” pelas crianças. Sem que haja espaço para a construção de valores particulares e familiares.

Há uma espécie de esvaziamento da função da família, substituída por uma relação direta com o objeto de consumo. Com tal intensidade que às vezes o sujeito se confunde com o próprio objeto, tornando-se para o outro um produto de consumo.

Essa nova realidade propicia o aparecimento de novos sintomas que identificamos em nossa prática diária no consultório. Assim, vemos a depressão adquirir nuances mais graves. Em quadros que acometem crianças cada vez mais jovens.

Em outros casos, tomam contornos extremos quando o sujeito enfrenta situações traumáticas. Como o luto, o divórcio, a perda do emprego ou de uma doença grave.

O grande desafio para o profissional é criar um espaço de fala e de compreensão sobre o problema e suas causas. De um enfrentamento com as capacidades de cada um e da busca particular por uma possível solução para a angustia e a sensação de ameaça à integridade do sujeito.

Sabemos que o papel dos pais é fundamental na formação dos filhos, independentemente das circunstâncias sociais e culturais nas quais a família está inserida. Mas essas mesmas situações irão determinar os padrões familiares.

Assim, é comum encontrarmos  nos centros urbanos famílias constituídas por um ser parental (geralmente a mãe), que guardam alguma proximidade com outros membros da família (avós, tios e primos), ainda que não em caráter cotidiano.

Núcleo familiar

No interior e em localidades mais afastadas, entretanto, encontramos um maior número de famílias que estão agregadas em torno de uma figura familiar, que mantém seus membros mais unidos dentro de um núcleo multigeracional.

Aliás, é comum vermos famílias uniparentais amparadas por algum membro da família: uma avó, um tio ou tia, que estão presentes para oferecer ajuda, material ou emocional, sempre que necessário.

Cada vez mais vemos as novas gerações interagindo com o celular e o computador, e menos com seus pais, irmãos e avós. O fenômeno da globalização trouxe mudanças radicais na constituição da família moderna. Que se encontra absolutamente absorvida pela sedução do mundo virtual.

As pessoas são diretamente influenciadas pela revolução imposta pelo capitalismo, em que ter acesso a bens materiais é mais importante do que estar em sintonia com quem se é ou estabelecer laços afetivos com os que estão à sua volta.

Essa condição trouxe consequências para a família, não só no que se refere à sua constituição, mas às prioridades adotadas pelos pais. Que se lançam numa tentativa frenética de garantir condições financeiras para ter cada vez mais, em detrimento de questões humanas e subjetivas que afetam a todos.

O que a experiência no consultório tem me mostrado é que não há espaço nessas mídias para as pessoas exporem seus medos e sofrimentos, suas questões e seus anseios. Quanto mais expõem ao mundo sua aparente felicidade e sucesso, menos conseguem refletir sobre as dificuldades.

Ou sobre o que sentem ao enfrentar as pedras no caminho da vida. E as frustrações de não se sentirem aptos para resolver seus problemas diários, e as consequências advindas de escolhas mal feitas.

O fator avós

Considerando que as novas gerações estão sujeitas ao mundo virtual cada vez mais precocemente, é preciso refletir sobre a sua influência na determinação de valores para as crianças. Os avós têm uma importante função junto aos pequenos. É o que constato a partir da fala de muitos pacientes, e da minha observação.

São os agentes do afeto, esse elemento agregador da célula familiar. Item fundamental na construção dos laços que estabelecem com os demais e da consciência de si próprios. Transmitem seus valores que irão servir de base para esse sujeito que está em construção.

Como avó, sou encantada pelo meu neto. Esse ser pequenino que me mostra a continuidade de meus valores e costumes. E me ensina que a vida sempre recomeça.

Nossos netos nos trazem a alegria de compartilhar momentos de ternura. E do saber que amealhamos ao longo da vida. Talvez ainda haja tempo de reverter a caminhada em direção ao isolamento e à solidão que a globalização nos legou.

Creio que os avós são, muitas vezes, como um antídoto para as doenças dos dias atuais. Enquanto os pais e as mães estão absorvidos pela urgência das demandas do trabalho, da construção de uma segurança financeira, os avós que têm o olhar voltado aos netos e suas necessidades.

Cultivar o nosso olhar de reconhecimento desse ser, poder dizer uma palavra que transmita um sentimento bom. Que tenha um som bonito. E que comunique a eles uma sensação de alegria e de amparo que perdure em suas memórias. Aí está nossa grande tarefa.

E mais…

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Dr. Beny Schmidt: discussão na família

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Sonia Hess: missão das avós vai além da família

 

Ana Maria Ferraz da Silva é psicanalista e psicóloga, com prática clínica de mais de 22 anos, e é avó de um neto

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