O Avôhai de Zé Ramalho

O músico Zé Ramalho, que é Zé Ramalho Neto, não mede palavras quando o assunto é o avô, que o inspirou a inventar a palavra “avôhai”

Por Natália Pesciotta

“Meu avô me ensinou a amar a natureza e levar uma vida reta”, diz o cantor, que compôs Avôhai em homenagem ao homem que foi seu avô e pai ao mesmo tempo.

Zé Ramalho não tem nenhuma lembrança de seu pai, que morreu afogado quando o pequeno paraibano de Brejo da Cruz tinha apenas dois anos. Mas não mede palavras quando o assunto é o avô de quem herdou o nome, que acabou fazendo o papel de vó e de pai ao mesmo tempo. O cantor inventou até um nome para a função: “avôhai”. E fez sobre o assunto uma de suas músicas mais famosas.

“Avôhai é a junção da trindade avô, pai e filho. É também a Santíssima Trindade, e a continuidade da espécie. Mas foi tudo inspirado pela figura de meu avô, que me ensinou a amar a natureza, a não maltratar os animais, a levar uma vida reta”, escreveu o cantor no livro “Zé Ramalho, o poeta dos abismos”, de Henri Koliver (Editora Madras).

José Alves Ramalho Neto conta algumas das experiências e aprendizados com o patriarca: “Eu o via, às vezes, como um leão, parado, olhando as crias. (…) Meu avô era aquele cara que arranjava tudo, resolvia tudo”. Ele também se preocupava com a formação do neto, que chegou até a estudar Medicina.

A letra de Avôhai, que abriu seu primeiro disco, lembra do tempo de formação anterior, da infância em Brejo da Cruz, cidade na “pedra de turmalina”, onde brincava com os meninos correndo atrás de bodes, e a saída de lá para Campina Grande, aos cinco anos, quando “o brejo cruza a poeira”.

A inspiração para tudo isso veio numa experiência alucinógena, segundo o místico Zé Ramalho. Dias depois, compôs de uma vez: “Peguei papel e caneta e fiz a letra muito rápido, tudo chegava em um turbilhão. Foi a única vez que isso aconteceu, uma forte e intensa experiência espiritual”.

Na música há ainda muitas referências à descoberta do mundo que, para ele, tem tudo a ver com a relação do garoto com o avô. “A porteira da letra é uma referência à Porteira do Tendó”, conta o cantor, que explica: “é uma enorme gruta onde meu avô me levava no horário do pôr do sol, e de onde saíam milhares de morcegos em busca de alimento, fazendo um barulho impressionante. Aquilo me fascinava e me assombrava ao mesmo tempo”.

José Alves Ramalho, o primeiro, morreu em 1975 aos 84 anos. Três dias depois, num show em João Pessoa, Zé Ramalho cantou a música dedicada ao avô e fez a homenagem: “o único homem honesto que já conheci”. (ouça o áudio: https://www.youtube.com/watch?v=PTqPIf2iPb4)

Para o compositor, a canção Avôhai, que abriu seu primeiro disco (Zé Ramalho, de 1978), foi também uma abertura de portas, ao condensar o estilo em que tão bem aglutinava os violeiros e emboladas de suas raízes com influências pop de Bob Dylan e Pink Floyd: “Comecei a montar uma história incrível com essa música”.

Natália Pesciotta é jornalista e mantém o blog Atrás da Música: http://atrasdamusica.tumblr.com

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