Para muitos brasileiros, a independência foi em outro dia

Maria Quitéria contrariou a vontade do pai, que era fazendeiro, entrou no Exército e mostrou destreza e coragem Batalhão dos Periquitos

Por Elisabete Junqueira

► Uma boa história pra contar pros netos. E é História mesmo! É a independência do Brasil, mas não aquela que aprendemos nas escolas, que tem pouco charme. Em tempos de democracia, a narrativa perdeu todo o encanto, se é que já teve algum dia. É difícil imaginar que um país tão importante tenha sido libertado com um grito.

O episódio às margens do riacho Ipiranga esconde a guerra da independência em que os brasileiros venceram as tropas portuguesas e conseguiram a autonomia nos campos de batalha. Vamos começar pelo cenário das lutas. Um dos principais foi um lugar descoberto não por Pedro Álvares Cabral, mas por Américo Vespúcio, no dia 1º de janeiro de 1501: a Baía de Todos os Santos.

Pois é, lá houve muita luta, antes do dia 7 de setembro de 1822, e também por muitos meses depois. Já em fevereiro de 1822 aconteciam os primeiros choques entre soldados brasileiros e portugueses em vários bairros da cidade de Salvador, na Bahia. E os portugueses perderam apoio popular porque seus soldados e marinheiros saíram pelas ruas da cidade saqueando casas.

Aí vem o primeiro fato histórico emocionante. Chegaram à porta da clausura do Convento da Lapa, onde forçaram a entrada. A abadessa, madre Joana Angélica de Jesus, enfrentou os portugueses e foi mortalmente ferida. Assim, a madre Joana Angélica foi a primeira mártir da guerra da independência. Com a ocupação da cidade de Salvador pelas tropas portuguesas, oficiais militares brasileiros se retiraram para o Recôncavo Baiano, onde ficavam as vilas de São Francisco do Conde, Santo Amaro da Purificação, São Félix e Cachoeira.

Três meses depois, em maio de 1822, chegou de Lisboa a carta-consulta dos deputados baianos às cortes portuguesas, que indagava sobre qual a melhor decisão para que existisse Poder Executivo no Brasil. Documento político, a consulta já indicava a resposta, ao insinuar a linha de apoio ao Príncipe D. Pedro, que era então abertamente denominado Defensor Perpétuo e Constitucional do Brasil.

Em meados de junho, começaram os discursos insurreicionais na Câmara de Santo Amaro e o movimento chegou à vila de Cachoeira, onde a Câmara votou pela aclamação do príncipe D. Pedro como chefe do único Poder executivo do Brasil, decisão que foi aplaudida pelos milicianos e pelo povo. Assinada a Ata, todos se dirigiram para a igreja Matriz para ouvir a pregação do Vigário Francisco Gomes dos Santos e Almeida, mas o cair da tarde foi acompanhado por tiros, disparados em terra e do rio por uma escuna-canhoneira.

Na manhã do dia seguinte, os cachoeirenses destituíram as autoridades vacilantes, formaram a Junta Conciliadora de Defesa e organizaram um ataque à escuna, que logo se rendeu. Foi a primeira vitória comemorada festivamente na vila da Cachoeira. Com isso, outras vilas do Recôncavo entraram na briga. Isso foi de importância estratégica para cortar o abastecimento de Salvador, ocupada pelas forças portuguesas. Aí, começaram a aparecer os heróis, como tenente João das Botas que comandou uma única canhoneira enfrentando durante várias horas nada menos que 11 navios portugueses, sem deixar-se vencer.

E para falar de heróis, o destaque vai para o soldado Medeiros, melhor dizendo, Maria Quitéria de Jesus Medeiros, filha de um fazendeiro que, contrariando a vontade do pai, ingressa às escondidas no Exército Brasileiro, usando o nome-de-guerra Medeiros. Pegou as roupas do cunhado e cortou bem curtos os cabelos. Sua destreza e coragem fizeram sua fama. Maria Quitéria lutou no Batalhão de Caçadores Voluntários do Príncipe, conhecido popularmente como Batalhão dos Periquitos por causa da cor verde dos punhos e golas do uniforme, sob comando do major Silva Castro, avô do poeta Castro Alves.

Depois das iniciativas locais, o comando militar foi unificado pelo general Pedro Labatut, enviado pelo príncipe (depois imperador) D. Pedro I, que saiu do Rio de Janeiro à frente de tropas regulares em julho de 1822, mas só alcançaram à Bahia em outubro, quando D. Pedro já tinha divulgado o episódio do grito às margens do riacho Ipiranga. Mas, nas regiões mais distantes, o Brasil ainda não estava independente coisa nenhuma e o comando continuava com os portugueses. Pra chegar à independência, houve várias batalhas.

Uma das mais importantes foi a batalha de Pirajá. No amanhecer do dia 8 de novembro de 1822, cerca de 300 soldados de Infantaria e 100 marinheiros portugueses desembarcaram em portos da região, enquanto outros 1.500 homens marcharam por terra e apareceram de surpresa na frente das linhas brasileiras. Nas quatro primeiras horas de batalha, os brasileiros conseguiram deter os portugueses, mas logo ficou evidente a superioridade numérica dos atacantes portugueses: 1.900 portugueses contra 1.235 brasileiros.

Aí aconteceu outro fato emocionante: o comandante das tropas brasileiras, temendo uma grande baixa da tropa, mandou o cabo-clarim Luís Lopes executar na corneta o “toque de retirada”, mas ele contrariou a ordem (há quem diga que ele se confundiu) e executou o toque chamado “avançar Cavalaria e degolar”. Os brasileiros atacaram com tamanha coragem que fizeram a Legião inimiga abandonar as armas e fugir.

As rusgas continuaram em novembro, dezembro (não houve pausa para o Natal), janeiro, fevereiro e lá no finalzinho de março de 1823 chegaram mais 1.300 soldados vindos da Europa. Então, o general Labatut, que vinha adotando uma posição defensiva, foi deposto e substituído pelo coronel José Joaquim de Lima e Silva, que foi logo partindo para a ofensiva. Pelo mar, recebeu a ajuda da esquadra comandada pelo almirante Lord Cochrane.

Por fim, no dia 2 de julho de 1823, dez meses depois do grito do Ipiranga, o Exército Brasileiro marcha vitorioso na cidade de Salvador, consolidando a independência do Brasil. Para os baianos, as comemorações do dia 2 de julho têm um significado especial. As cidades envolvidas na luta pela liberdade homenageiam seus heróis. Ruas, avenidas e praças e levam seus nomes, gravados para sempre na memória daqueles que ajudaram a escrever a nossa verdadeira história.

 

Elisabete Junqueira é publicitária, fundadora do portal avǒsidade e avó de cinco brasileirinhos heroicos

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5 Comentários

  1. Fátima de Lima said:

    Importante texto. O que há nos livros, sabemos, nem sempre é a verdadeira história. Amei e estou enviando para minha neta de onze anos q mora fora do país. Mas sempre mando livros bons e tbm do nosso folclore.
    Obrigada por esta parte da história que ninguém conta.

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