Pequenos grandes inventores de brinquedos

Objetos feitos por crianças com sucata viram exposição e livro do artista Piorski em sua experiência de alimentar a imaginação infantil

Por Natália Pesciotta

Artista lança livro sobre a expressão das crianças ao interagir com a natureza por meio de brinquedos. Mais do que um quarto cheio, “elas precisam de espaço, tempo e silêncio”, recomenda

 

► Se buscar na memória, todo mundo, quando criança, era um criador de objetos. Desmontar e transformar coisas, investigar o jardim e dar novo sentido para peças, fios e galhos são as formas infantis de descobrir e interagir com o mundo, afirma o artista plástico, pesquisador da infância e teólogo Gandhi Piorski.

O primeiro livro do pesquisador do Instituto Alana, foi lançado no dia 5 de novembro em São Paulo. E vai ser também no dia 8, no Rio de Janeiro. Há mais de 10 anos estuda o brincar e objetos desenvolvidos por crianças brasileiras.

Esse livro inicia uma série de quatro livros, cada um sobre a intimidade de um elemento da natureza com o ato de brincar: terra, água, ar e fogo. Para começar, a terra, e por isso o livro se chama “Brinquedos do Chão” (editora Peirópolis, em parceria com Instituto Alana).

A obra é muito celebrada por pedagogos e arte-educadores por inverter a lógica comum: em vez de mostrar o que o mundo deve dizer às crianças, ela trata do que as crianças dizem ao mundo, o que produzem, como se expressam.

“Raras são as pesquisas dos saberes e imaginação da criança: só por isso este livro já é um presente”, diz pedagoga Ana Lucia Villela, presidente do Instituto Alana.

Numa pesquisa em Belém, Gandhi Piorski começou a observar os objetos feitos por crianças, como barcos, peões, carrinhos, personagens e toda sorte de invencionices. Em visitas a comunidades do Ceará, em 2005, bolou a sua teoria.

Ele é o primeiro a relacionar os quatro elementos da natureza ao brincar: a terra tem a ver com a descoberta das matérias e estruturas, desde cavar e querer abrir animais até criar com sementes e espigas.

A água, experimentada com a construção de barquinhos, oferece o estudo da simetria e equilíbrio. Brincadeiras de fogo, seja pular corda ou criar cineminhas de sombra, exploram o desafio. E o ar traz contemplação, como na experiência com pipas e petecas.

Natureza

Outra coisa é achar natureza na cidade grande. Apesar de ver no contato com a natureza as experiências mais estruturantes da infância, Gandhi acha que o mesmo desenvolvimento pode acontecer nas cidades grandes, entre prédios e cimento: “O mais importante é encontrar à sua volta espelhos que alimentem esta imaginação infantil”.

Como exemplo disso, o pesquisador convidou 1.200 crianças de Fortaleza para produzirem com sucata. O resultado é a mostra “A Criança e a Imaginação da Matéria”, que pode ser vista ao longo deste mês, em São Paulo (ver “Serviço” ao final deste texto).

O autor dá a dica: “O que importa é a possibilidade sempre aberta pela família de investigar com as próprias mãos, pés e sentidos, o desafio que a matéria lhe provoca. Encontrar na matéria provocação suficiente que a faça criadora de seu próprio mundo”.

E completa: “A criança precisa de silêncio, tempo e espaço para brincar”. Por isso não se preocupe se, na sua casa, as crianças tiverem menos brinquedos do que estão acostumadas.

Segundo Gandhi, pode ser uma ótima situação para o relacionamento delas com o mundo, em contraponto à grande quantidade de informações prontas que recebem. Ele conta que em escolas de alguns países as salas até são esvaziadas, de vez em quando, para incentivar a criatividade dos alunos com menos estímulos.

“Concentrada, a criança subverte sentidos e recria com o que sua imaginação convida. Ela entende, explora, aprende, ganha conhecimento e experiência sobre o que a rodeia. Desenvolve-se”, diz, acrescentando: “O momento em que a criança dá um novo uso a um objeto, durante uma brincadeira, é mágico”.

 

Serviço

Para ler:
Livro “Brinquedos do Chão – O imaginário, a natureza e o brincar”, de Gandhi Piorski
Editora Peirópolis / Instituto Alana

Para ir:
A) Exposição “A Criança e a Imaginação da Matéria”
Em São Paulo, de 5/11 a 17/11
Museu do Objeto Brasileiro
Av. Pedroso de Morais, 1216 – CEP  05420-001
Mais informações:
https://www.facebook.com/events/344627129210856
11 3814-9711

B) Lançamento do livro “Brinquedos do Chão – O imaginário, a natureza e o brincar”
No Rio de Janeiro, dia 8/11, às 19h30
Centro de Referência do Artesanato Brasileiro
Praça Tiradentes, 7171 – CEP 20060-070
Mais informações:
https://www.facebook.com/events/1786484578260003/
21 2212-7800

 

Natália Pesciotta é jornalista paulistana, a sexta neta do Seu Nelson e a terceira de Dona Ushi

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