Quando avós disputam a guarda da neta

Guarda
O ator Kevin Costner é o vovô Elliot e a atriz Jillian Estell é a neta Eloise

Por Sérgio Vaz

► Este é o tema de um belíssimo filme recente: Preto e Branco (que, no original, muito diferentemente, é Black or White) pisa em terreno minado, perigosíssimo. Fala de preconceito racial, de abismo entre classes sociais – e de disputa pela guarda de criança, uma questão sensibilíssima, difícil, espinhosa a não mais poder.

A história – criada e roteirizada pelo próprio diretor Mike Binder – parte de um ponto absolutamente aberto a todos os tipos de polêmica, num país que adora polêmicas em temas envolvendo questões comportamentais: dois avós disputam a guarda de uma garotinha de uns sete anos de idade.

O avô materno tem a pele branca, e, sócio de um gigantesco escritório de advocacia, é riquíssimo. A avó paterna tem a pele negra; não é pobre, de forma alguma – é classe média, uma batalhadora, empreendedora, dona de uma imobiliária e mais cinco pequenas empresas.

O avô é interpretado por Kevin Costner, esse senhor que durante algum tempo parecia que seria assim uma espécie de novo Gary Cooper. A avó é feita por Octavia Spencer, Oscar de atriz coadjuvante por seu desempenho fantástico em Histórias Cruzadas/The Help.

O autor e diretor Mike Bindercaminha por entre uma quantidade absurda de minas ao longo de 121 minutos de narrativa – e consegue a proeza de não fazer explodir nenhuma delas. A história que ele criou não cai em armadilha alguma. Defende todos os valores corretos. É um belo filme, que demonstra com uma limpidez absurda que os perigos são muitos, mas sempre é possível optar pela sanidade, pelo bom senso. Mesmo que à custa de muito sofrimento.

Direito de não compreender

No início, o espectador tem todo o direito de não compreender bem as relações.

O iniciozinho da narrativa já demonstra de sobra que estamos diante de um drama sério, um filme para plateias adultas – algo raro hoje no cinemão americano. A câmara mostra Kevin Costner sentado em um corredor de hospital. Vemos vários planos em que ele aparece. Um dos primeiros é um close-up de seu rosto, a câmara o pegando de lado. E ficam bem nítidos os cabelos brancos na têmpora de Kevin Costner. Comentei com Mary: “Meu Deus, Kevin Costner já está começando a ter cabelos brancos – como estou velho!” (A rigor, Kevin Costner não é tão mais jovem assim que eu: é de 1955.)

Um homem chega para falar com ele. Veremos depois que é Rick (Bill Burr), advogado que trabalha com o personagem interpretado por Kevin Costner, Elliott Anderson.

No momento em que Rick chega, Elliott está ligando para seu irmão, dizendo que vai para casa e pedindo a ele um favor. Para Rick, Elliott diz que ela morreu. “Os médicos disseram que fizeram tudo o que podia”, resume.

Rick se oferece para ajudar. Elliott agradece, vai para casa. Chega em casa e enche a cara.

Na manhã seguinte, numa ressaca absurda, de uísque e da perda da mulher, é despertado por batidas na porta e uma vozinha de criança que chama “Vovó, vovô”.

Zonzo, Elliott diz para ela entrar, e o espectador vê pela primeira vez Eloise (Jillian Estell, uma garotinha linda, fascinante, pequenina atriz em seu terceiro papel).

Eloise pergunta onde está a vovó, e Elliott, zonzo, ainda meio bêbado, de ressaca e dor de matar, inventa uma mentira.

Eloise diz que então ele terá que levá-la para a escola. Guarda. Guarda. Guarda. Guarda.

GuardaPouco a pouco

A mãe da garotinha morreu no parto, e o pai sempre foi ausente.

Mike Binder escreveu o roteiro de tal maneira que as informações sobre tudo o que aconteceu antes do dia da morte de Carol, a mulher de Elliott, vão sendo apresentadas pouco a pouco. O espectador tem todo o direito (a rigor, o dever) de não compreender direito, neste início de filme, quem é quem na história de Elliott Anderson e a pequena, graciosa, deliciosa, fascinante garotinha Eloise, cuja pele tem cor diferente da dele.

No dia seguinte ao da morte de Carol (Jennifer Ehle), enquanto Eloise está na aula, Rick conversa com Elliott e pergunta se não é o caso de ele ligar para We-We, e Elliott diz que absolutamente não é o caso.

We-We é o apelido de Rowena, a avó paterna da garotinha Eloise, o papel de Octavia Spencer.

Como o autor e diretor preferiu ir dando as informações ao longo da narrativa, vou relatar aqui só o mais básico.

Jamais, jamais

O pai da garotinha Eloise – o filho de Rowena, a mulher empreendedora, pequena empresária –, é um pobre coitado. Chama-se Reggie (André Holland). E é um desacerto, um erro ambulante, a ovelha negra numa família de gente séria, boa, trabalhadora. É viciado em crack desde sempre, já esteve preso três vezes; diz que agora limpo, mas não está limpo coisa alguma. Jamais esteve presente na vida da filha – jamais, jamais.

A mãe de Eloise morreu no parto. Tinha 17 anos de idade. A garotinha foi criada desde bebê pelos avós maternos, Carol e Elliott. Mais diretamente pela avó, é claro – porque é assim o jeito com que a sociedade nos faz, é o comum, é o padrão.

Eloise ama a avó e ama o avô, e o avô ama Eloise – isso fica claro desde bem o iniciozinho do filme. Mas o avô saía de manhã para trabalhar e voltava só à noite. E então não entendia da coisa de, no comecinho do dia, mandar Eloise escovar os dentes, não entendia da coisa de passar escova nos cabelos lindissimamente pixaim. Sequer sabia o caminho exato até a escola caríssima, uma das melhores do país, que ele pagava para a netinha.

As grandes verdades

A ação se passa toda em Los Angeles. Até isso o filme demora um pouquinho para abrir, escancarar. Elliott, Carol e Eloise moram num bairro de gente riquíssima. Rowena, a avó paterna, mora (com uma família gigantesca, cheia de irmãos, sobrinhos, primos) num bairro classe média basicamente de negros. No lado oposto da cidade – e, se há uma metrópole espalhada, imensa em quilômetros quadrados, é Los Angeles.

A primeira sequência em que os dois avós – o riquíssimo e agora viúvo e solitário Elliott e a empreendedora classe média de família gigantesca Rowena – se encontram é na reunião pós-funeral de Carol.

Aos poucos, o filme mostrará que Carol e Rowena, as duas avós, tentaram, ao longo dos anos, pelo bem da neta comum, estabelecer uma relação afetiva, familiar. Elliott nunca foi contra isso – mas quem fazia a ligação entre os dois lados era Carol. Com Carol morta, surgia uma distância grande entre os dois lados dos ascendentes de Eloise.

E as crianças não têm culpa de nada, não são responsáveis por nenhuma das muitas asneiras que seus pais e avós fazem na vida.

Essa é uma das grandes verdades que o filme evidencia com imensa clareza.

A questão da guarda

Por que levar a questão da guarda da criança para o Estado resolver?

Brigar na Justiça pela guarda de uma criança é uma das mais dolorosas invenções da humanidade.

Claro, a humanidade inventou uma quantidade absurda de coisas dolorosas. As guerras, a miséria, o abismo entre classes sociais, a tortura, a fome, o racismo, a homofobia. O Estado Babá, a inadmissível proibição de as mulheres decidirem se querem ou não ter o filho que começou a ser gerado em seu ventre. E a estúpida, desumana proibição de as pessoas poderem optar por uma morte digna. A lista poderia continuar ad nauseam.

Mas brigar na Justiça pela guarda de uma criança é uma das mais dolorosas invenções da humanidade.

Por que não resolver entre as partes, entre as pessoas, avó e avô, no caso aqui da história? Por que levar para que o Estado decida?

Mas Rowena leva o caso para o Estado decidir. O irmão dela, Jeremiah (Anthony Mackie), é – assim como Elliott – sócio de um grande e respeitado escritório de advocacia.

Advogados mentem

Jeremiah quer transformar a questão da guarda da sobrinha-neta em um tema de conflito racial. Pretende argumentar que o avô branco é preconceituoso. E não permite que a filha conviva com o lado negro da família. É mentira, mas fazer o quê? Advogados mentem.

A juíza a quem cabe decidir essa triste questão familiar que os familiares não conseguiram resolver acontece de ter a pele bem morena, quase negra. É descendente de pessoas de pele branca e de pessoas de pele negra, exatamente como Eloise.

Quando a imensa firma de advocacia de que Elliott é sócio faz uma primeira avaliação das chances da disputa pela guarda da pequena Eloise, alguém diz: a juíza é negra; juízas mulheres sempre dão razão às mulheres; juíza negra, então, julgando um caso que envolve uma mulher negra, é claro que dará razão à avó negra.

A juíza Cummins (interpretada por Paula Newsome, uma belíssima mulata – mulata, uma das maiores invenções de Deus, ou da evolução, whatever) foge do estereótipo como o diabo foge da cruz. Ela não parece simpatizar nada com o pedido de Rowena pela guarda da menina. Já que não há elementos que deponham contra o avô materno.

Ouvir a opinião da criança

A juíza poderia perfeitamente ouvir a opinião da criança – mas não faz isso.

Mesmo sendo, pelo jeito, uma juíza competente, a doutora Cummins não pensa na possibilidade de perguntar à pessoa em questão, que está sendo disputada pelos dois lados da família, o que ela quer. Isso é muito estranho. Afinal, estamos na Califórnia, um dos Estados mais ricos e desenvolvidos do país mais rico e desenvolvido do mundo. A garotinha Eloise já tem mais de 7 anos. A juíza Cummins poderia perguntar a ela com quem ela preferia viver.

Mas não faz isso. Exige que psicólogos do Estado façam uma avaliação da menina. A série de entrevistas com psicólogos é que vai abalar psicologicamente a bela Eloise, até então uma garota perfeitamente feliz e tranquila.

Em The Children Act, no Brasil A Balada de Adam Henry, o romance de Ian McEwan de 2014, a juíza Fiona Maye sai de seu fórum em Londres e vai até o hospital em que está o garoto de 17 anos que é o sujeito da ação que ela está para julgar.

Ajuizadissimamente

Toda a ação é a respeito do rapaz, Adam Henry, filho de testemunhas de Jeová que precisa, segundo os médicos, fazer uma transfusão de sangue – algo que a religião dos pais dele proíbe. A juíza, ajuizadissimamente, vai ouvir a opinião dele.

(Ao ler A Balada de Adam Henry, fiquei pensando que a juíza Fiona Maye é séria, competente, extremamente preparada como a juíza Fernanda Rossanez Vaz da Silva.)

O espectador ouve Eloise dizer com quem ela quer morar. Ela diz, com todas as letras, após a perda da avó Carol, que quer continuar morando com o avô Elliott.

Mas a Justiça do grande Estado da Califórnia não parece interessada em saber a coisa mais básica, mais óbvia: a opinião da criança que está sendo disputada pelo avô e pela avó. O avô que perdeu a mulher e o rumo e o prumo. E a avó que tem uma família grande e alegre. Mas um filho que não está preparado para assumir o papel de pai, e sabe disso.

Filme só apresenta os fatos

O filme não faz a defesa de um dos lados. Apenas apresenta os fatos.

Não há como não lembrar, ao ver esse ótimo filme, de um outro que tratou de questão bem semelhante, O Destino de uma Vida/Losing Isaiah (1995), dirigido por Stephen Gyllenhaal, o pai dos atores Jake e Maggie.

Em Losing, uma mulher de pele escura, interpretada por Halle Berry, miserável, lumpen, viciada em crack, abandona o bebê recém-nascido. Encontrado, levado para um hospital, o bebê sobrevive. E é adotado por uma assistente social de pele clara (o papel de Jessica Lange). Vários anos depois, quando o pequeno Isaiah já está aí com uns sete anos, a mãe, que venceu o vício, está limpa, vai à Justiça pedindo a guarda do filho.

Quando vi Losing Isaiah, fiquei muito impressionado com o seguinte: o filme não toma partido nem da mãe de fato, nem da mãe biológica. Apresenta argumentos – racionais e emocionais – em defesa de cada um dos dois lados.

Neste Black or White, também não há defesa de um dos lados. Os fatos vão sendo apresentados – e cada um dos lados tem suas razões.

O tio-avô

Contra Elliott pesa o fato de que ele bebe demais – e passa a exagerar mais ainda após a perda da mulher –, e o fato de que ele vive sozinho, só com a empregada, Rosita (Bertha Bindewald).

A favor dele há o fato de que a pequena Eloise tem um padrão de vida altíssimo – e mais a clareza de que a própria garota quer continuar vivendo com ele. A favor de Rowena há o fato de que a família é grande, e Eloise conviveria com vários primos mais ou menos de sua idade. Mas contra Rowena há o fato de que Reggie nunca havia sido pai da garota. E tem consciência de que não está preparado para ser pai.

Uma das coisas extraordinárias da história criada por Mike Binder é que não há racismo na vida de Eloise. Os avós maternos não têm preconceito algum. E de fato não se importam absolutamente nada com o fato de que a pele da garotinha linda é escura. E, como a escola dela é de gente muito rica, o que supõe que sejam pessoas esclarecidas, estudadas, também lá não há sinal algum de racismo.

Quem traz para a história a questão racial, a diferença da cor da pele dos envolvidos, é o tio-avô da garota, o grande advogado Jeremiah.

Receptividade nas bilheterias

Infelizmente, o filme não teve grande receptividade nas bilheterias.

Um detalhinho: como é bela essa Jennifer Ehle, que faz Carol, a mulher de Elliott. Ela tem praticamente uma participação especial. Aparece em umas três sequências, apenas, em visões, sonhos, de Elliott –sequências belas como a própria atriz.

Este aqui é o segundo filme escrito e dirigido por Mike Binder em que Kevin Costner interpreta um personagem que bebe demais. Em A Outra Face da Raiva/The Upside of Anger (2004), Costner interpreta um ex-campeão de beisebol que bebe demais. E acaba se envolvendo com uma vizinha (interpretada pela ótima Joan Allen) quando o marido dela desaparece – e ela acredita que ele tenha fugido com a amante. A Outra Face da Raiva é um bom filme, sensível – mas o tom é de comédia.

Aqui, não. Black or White é um filme sério. Seriíssimo.

Nos créditos finais, o filme é dedicado à memória de J.J. Harris. Ele foi o primeiro agente de Kevin Costner e um de seus amigos mais chegados. Harris morreu um ano antes do lançamento do filme, em 2014.

Segundo o IMDb, o filme foi financiado pelo próprio Kevin Costner, que gostou do roteiro e do tema. E da forma com que o tema é tratado.

Não foi um filme de orçamento alto: custou US$ 9 milhões, o que, para o cinema americano, é uma mixaria. Infelizmente, não teve grande receptividade nas bilheterias. Segundo o Box Office Mojo, o filme rendeu apenas US$ 21 milhões no mercado americano.

Uma pena. Uma grande pena. É um filme muito bom, e muito bem intencionado. Vale repetir: é um filme que só defende os valores corretos.

Dica de cinema:

Preto e Branco/Black or White

De Mike Binder, EUA, 2014
Com Kevin Costner (Elliot Anderson), Octavia Spencer (Rowena Jeffers), Jillian Estell (Eloise Anderson) e Bill Burr (Rick Reynolds), Mpho Koaho (Duvan Araga), Anthony Mackie (Jeremiah Jeffers), André Holland (Reggie Davis), Gillian Jacobs (Fay), Jennifer Ehle (Carol), Paula Newsome (juíza Cummins). Bertha Bindewald (Rosita)
Argumento e roteiro Mike Binder
Fotografia Russ T. Alsobrook
Música Terence Blanchard
Montagem Roger Nygard
Casting Sharon Bialy
Produção Sunlight Productions, Treehouse Films, Venture Forth
Cor, 121 min

3,5-estrelas-770

3,5-estrelas-770

 

 

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Sérgio Vaz é jornalista, edita os sites 50 Anos de Textos e 50 Anos de Filmes, e é avô de Marina

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13 Comentários

  1. Elaine Souza said:

    Acabei de assistir me emocionei,rir, fiquei com raiva varias emoções descritas em um so filme.Amei!!!!

  2. Keyla Nogueira said:

    Assistam; super envolvente e humano. Mesmo disputando a guarda da criança, a relação e o respeito entre os dois avós davam o toque mágico na trama.

  3. roberto said:

    Ótimo filme… Sérgio Vaz o descreve com maestria… Se esse filme fosse nos anos 50, seria mais um dos grande sucesso de bilheteria… O pessoal hj só quer saber de violência e efeitos especiais.

  4. Rosangela said:

    O filme é lindo e verdadeiro. As atuações da Spencer e do Kevin não deixam arestas. A garotinha Jillian é um encanto, mas o Mpho-Araga leva a revelação. Imperdível.

  5. Patricia said:

    Texto gosto de ler, assim como assistir ao filme. Acabei de conhecer o site e já está na minha barra de favoritos.
    Parabéns!!!! A melhor resenha que já vi!!!!
    Att Patricia

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