Quem manda são os pais; nós, avós, somos coadjuvantes

Vovô Sérgio Vaz e a netinha Marina

Por Sérgio Vaz

► Marina é a coisa mais doce, mais fofa, mais gostosa que um avô poderia esperar na vida – mesmo um que já tinha tirado a sorte grande com a filha mais maravilhosa, perfeita, sim, perfeita, que poderia haver.

Marina é alegre a imensa maior parte do tempo, é afetuosa, carinhosa, meiga. Em suma, vocês sabem o que quero dizer: Marina é tão maravilhosa para mim quanto seu neto predileto é para cada um de vocês.

Tem, no entanto, entre suas características, suas idiossincrasias, o fato de nem sempre gostar de cumprimentar visitas e se despedir delas.

Visito Marina no mínimo três vezes por semana, felizmente (sou, repito, sujeito de muita sorte). Há dias que ela me recebe sorrindo, que se despede de mim dando abraço ou beijo estalado na careca.

Em outros dias, não me cumprimenta. Olha para mim, e continua a fazer o que estava fazendo. Daí a uns 2, 3 minutos, como se fosse a coisa mais normal do mundo, me pede alguma coisa, começa a interagir.

E há dias em que se recusa a se despedir. Está na dela, brincando de alguma coisa, quando eu pego a bolsa e anuncio que vou embora, e ela nem liga.

Há vezes em que se recusa a despedir porque não quer que eu vá embora.

Isso para mim não importava nada. Pensava que é um jeito dela, uma idiossincrasia – a melhor definição é exatamente essa. Coisa boba.

Bom senso

Carlos, meu genro, se importa. Me disse: “Achamos que é importante ela entender que, ao ver uma pessoa, seja ela qual for, pela primeira vez no dia, ela precise dizer oi, olhar no rosto e, quem sabe, dar um beijo. E isso vale pra qualquer pessoa”.

Ele estava certo, o pai da minha neta. Mas, mesmo que ele não estivesse, mesmo que eu pensasse de forma diferente, não teria o que discutir: Roma locuta, causa finita.

O que os pais decidirem está decidido.

Acho que esse é o primeiro mandamento dos avós, da avosice, da avosidade.

No dia em que escreverem a declaração dos direitos e dos deveres dos avós, esse deveria ser o artigo primeiro, a cláusula pétrea.

Quem educa são os pais, quem define as linhas são os pais, quem manda são os pais. Aos avós cabe no máximo, no máximo dar palpites, sugestões – com jeito, com muito jeito, e sem a presença da criança, para não criar embaraço. E, em qualquer situação, seguir o que for determinado pelos pais.

É dever dos avós compreender isso. Não é direito dos avós contestar – é cláusula pétrea.

Agora, o artigo número dois deve dizer o seguinte: é tão direito quanto obrigação dos avós ficarem próximos do neto, visitarem o neto sempre que puderem. Quanto mais, melhor. Afeto de criança se ganha com convivência. Criança é convivência.

Parágrafo do artigo número dois: para impedir que os avós exerçam o direito (e o dever) de ver muito os netos, é preciso haver bons, justos motivos!

E mais não precisaria ter a declaração dos direitos e deveres dos avós. Isso aí estabelecido, fica tudo por conta do bom senso.

***

Papel de avô

Ahnn… Haveria entre meus colegas avós uma sensação ruim por ler o que escrevi? Avós gostariam de ser menos do que coadjuvantes na educação dos netos, gostariam de ser mais participativos, mais importantes?

Afinal, já viveram mais, são mais sábios, têm boas ideias, ideias inteligentes, interessantes, a oferecer.

Legal. Temos mesmo. Vivemos mais, somos mais sábios, temos ótimas ideias.

Temos todo o direito (e até o dever) de, humildemente, apresentá-las, sugeri-las aos nossos filhos.

Na vida de nossos netos, somos coadjuvantes – e, se não aceitarmos isso, é porque não somos mais sábio, não entendemos como as coisas devem ser.

Podemos e devemos ajudar nossos filhos, dar dicas, sugestões, conselhos – mas quem decide são eles.

Papel de avô é ajudar.

Fico orgulhosíssimo quando minha filha pede que eu fique com Marina por um tempo porque ela precisa trabalhar, ou descansar um pouco porque está absolutamente exausta. Estou doido para que Marina cresça um pouquinho mais, e possa ficar conosco numa noite ou outra enquanto minha filha vai passear, ir a festas, ver amigos, o que for.

Fico orgulhosíssimo quando minha filha me pede qualquer coisa.

Só curtição

Já pediu ajuda várias vezes à Mary, em emergências, tipo levar para hospital – e Mary já provou várias vezes ser a avó mais rápida do Oeste.

É para isso que os avós existem. Para ajudar, quando os filhos pedirem nossa ajuda. Para estar perto dos netos sempre que possível, mesmo quando não pedirem. Para amar em excesso. Para babar. Para fazer todo tipo de carinho possível e imaginável. Mas nunca, jamais, em tempo algum, para estabelecer as regras.

Essa obrigação é dos pais.

E isso é uma das maravilhas de ser avô: a responsabilidade toda não é nossa, é dos pais.

O trabalho é deles. Conosco é só a curtição.

Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então.

Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então. Então.

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Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, revista Marie Claire, Portal Estadão, jornal O Estado de S. Paulo), edita os sites 50 Anos de Textos e 50 Anos de Filmes, e é avô de Marina

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3 Comentários

  1. Nair Suzuki said:

    Texto maravilhoso, Servaz! Como avó coruja,concordo com tudo o que você escreveu. Assino embaixo.
    Parabéns também pela linda foto com a Marina!

  2. Márcia Moreno said:

    Que delícia ter ver assim tão feliz e babão pela Marina. Vô de sorte. E neta de muita sorte. Lindo de ver!!

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