Sem perder a ternura jamais

Avó Jacyra, de raiz caipira nunca abandonada e sabedoria que independe da escolaridade, na parede da biblioteca que leva seu nome

Por Liliam Benzi

“Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”
Che Guevara

 

► Quando minha avó Jacyra imigrou de São Manoel, interior de São Paulo, para a capital, ela levou apenas dois filhos pequenos (a caçula, minha mãe), as roupas do corpo e uma gana invejável para trabalhar movida pela necessidade de sustentar a todos e pela esperança de dar uma vida melhor para os pequenos.

Deixou para trás a carreira de boia fria na agricultura da cana-de-açúcar e o trabalho extra como coveira de cemitério, diga-se de passagem, uma tradição em sua família.

Chegou sem eira nem beira e se instalou em um porão úmido onde ganhava a vida costurando guarda-chuvas. O que sobrava de tecido ela transformava em roupas para minha mãe e meu tio. E mesmo em meio a todas as adversidades, que não foram poucas, ainda teve fôlego para pegar o marido, meu avô Maurício, motorista de Jânio Quadros, no pulo da bigamia!

Ele estava se casando em uma igrejinha do interior de São Paulo quando, com as duas crianças a tiracolo, ela entrou e fez valer a célebre frase: “Se alguém tiver algo contra, fale agora ou cale-se para sempre”. Assim, acabou o casamento; os dois, inclusive.

E este era o jeito da avó Jacyra: ela resolvia tudo de forma simples, prática e objetiva. Por tudo isso, não é difícil concluir que minha avó foi moldada a duros golpes. A fibra construída serviu de carapaça para outros tantos desafios que a vida ainda lhe imporia.

Quando eu nasci, ela já havia vencido na vida: casa própria no Parque Peruche e um emprego como “servente” de grupo escolar público. Aposentou-se nessa escola após 40 anos de trabalho duro que começava diariamente às 4:30 da manhã.

A dedicação rendeu-lhe uma das conquistas que mais se orgulhava: sua foto estampada na porta da biblioteca com um lindo acróstico. Tinha sido eleita paraninfa da mesma em uma cerimônia com direito até a anel de ouro!

Infelizmente, só depois de velha é que percebi que em meio a tanta dureza, havia doçura na avó Jacyra. Nem mesmo o acidente no qual perdeu um olho, logo após a aposentadoria, a fez sucumbir.

O problema é que, quando somos criança, a percepção da praticidade em excesso dos adultos, especialmente da sua avó, soa como permanente ofensa. A Lilás (meu apelido de criança) só conseguia sentir a dureza.

Assim, foram várias discussões, vários questionamentos para minha mãe sobre por que eu tinha que dividir meu quarto com ela nas férias se ela roncava; muita reclamação pela sua “insensibilidade”.

Só um pouco mais velha, especialmente depois de minha filha nascer, comecei a perceber que de fato ela era muito sensível e foi justamente a sensibilidade que a obrigou a endurecer. Se não fosse assim, não suportaria a pobreza ferrenha, a falta de um ombro amigo, as armadilhas que a vida insistia em lhe apresentar!

Tão sensível que abriu seu coração e eu ganhei mais um tio. Calma, calma, ela nunca se casou novamente. Ela simplesmente acolheu um sobrinho do seu ex-marido, meu amado Tio Zé, que precisava morar em São Paulo vindo de Garanhuns (interior de Pernambuco), para cursar a faculdade de odontologia.

Não só o acolheu como eles estabeleceram um vínculo que durou dos 17 anos dele até a morte dela com 91 anos (nessa época meu tio já tinha quase 80!). A acolhida foi tão boa que ele nunca se casou e foi totalmente integrado à nossa família como mais um filho da avó Jacyra. E isso é não ter coração???!!!!

Hoje, lembro das palavras e expressões da avó Jacyra, com sua profunda raiz caipira que nunca foi abandonada, e só encontro sabedoria. Uma sabedoria genuína que independe da escolaridade (ela era semianalfabeta) ou da afetuosidade que ela conseguia expressar (praticamente nenhuma…).

Tento resgatar seus ensinamentos na memória infantil que um dia a rejeitou e peço em orações que me perdoe a ignorância de criança sensível que não enxergava o poder da vida.

Lamento não ter tido lucidez e maturidade suficientes para perceber o quanto desta mulher forte e batalhadora sempre existiu em mim. E aproveito para tornar pública a mensagem que deve atingi-la no céu: “Vó Jacyra, você é inspiradora e digna de toda a minha admiração e respeito. Sem saber, contribuiu muito para eu me tornar uma pessoa melhor”.

Fica aqui o registro de uma neta que descobriu o verdadeiro amor pela avó após a sua morte.

 

Liliam Benzi – ou Lilás para a família - é jornalista e empresária da área de comunicação. Aos 48 anos orgulha-se de continuar sendo neta. No trabalho ou no seu hobby – pilotar um balão de ar quente – ela procura repassar a sabedoria e a afetividade herdadas dos avós

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