Tiozinho é a mãe

O escritor Fernando Vita, avô de Taís, que se preparou denodadamente para ser avô, mais do que se preparou para ser pai

Por Fernando Vita

► Confesso que sou avô confesso, diferentemente de uns tantos amigos que tenho, que, não obstante as cãs alvas, como se lavadas a Omo fossem, a lhes coroar o cocuruto, assim meio tipo um solidéu papal de cabelos branquelos, optam por tirar uma de tiozinhos, pobres manés, eis o que eles são, não sabem o que perdem em não assumir com todas as forças vitais que ainda lhes restam, as funções inerentes à profissão de avô.

Confesso também que me preparei muito mais denodadamente para ser avô do que para ser pai, vejam que paradoxo mais paradoxal, vez que, em não sendo pai, como algum dia chegaria à categoria de avô? Mas, que fazer, se a vida é feita de paradoxos, nem todos tão paradoxais como querer ser avô sem ter sido pai? Entretanto, foi assim que se deu e eu explico, se é que tem alguém nesse mundo de meu deus a estar curioso com o que eu tenha a explicar, mesmo assim teimo, explico, muito embora tudo que careça de muito explicar não seja bicho que se deva criar em casa.

Foi assim, eu lhes conto como tudo se passou, sem tirar nem por.

Fernando Vita cor 770

Quando eu estava para ser pai pela primeira vez – só tive dois filhos, uma mulher e um homem e, hoje, apenas, que pena, uma neta – eu trabalhava que só um condenado, sentença esta do trabalhar como um condenado que vale por clichê sobejamente consagrado, embora carente de verdade, vez que condenado passa os dias das suas penas, merecidas ou não, a coçar o saco em sua cela, com direito, se bem comportado for, a esporádicos banhos de sol e a um toco de giz fuleiro para marcar na solidão das quatro paredes que lhe cercam quantos dias ainda lhe restam em cana para deixar de ver o sol nascer quadrado, e eu, pobre de mim, dava um duro do cão nos trampos das redações de todos os tipos, isso nos tempos em que as redações de todos os tipos ainda tinham vagas para jornalistas igualmente de todos os tipos, tergiverso, retorno ao tema, então, digamos, trabalhava como um escravo – não o escravo de Jó, da cantiga de roda, aquele, que jogava caxangá, e tira, e bota, e deixa no lugar, guerreiro com guerreiro ou sem guerreiro era um duro da zorra que eu dava em busca dos caraminguás de pagar supermercado, babadores e chupetas dos meninos, assim – deixe que eu, ufa, tente fechar a parábola mais uma vez – não tive, definitivamente, o tempo livre preciso para me preparar para ser pai, tempo que manejei ter, asseguro-lhe, para graduar-me, pós graduar-me e doutorar-me em avosidade, observe que aplicado aluno fui – e continuo sendo – nas artes de ser avô, quem duvidar que pergunte a Taís Vita, minha única netinha, netinha lhe chamo apesar de aos catorze anos já estar mais alta que eu, ainda assim Tatai, Tay, minha neta, o que de melhor tenho na vida.

Preparei-me para ser avô, repito, e não é pura gabolice.

Quando Taís nasceu eu já tinha estocado na cachola todas as cantigas de ninar que ela, até hoje, ainda ouve, e canta, todas as mais espetaculares estórias que agora ela, às vezes, teima em escutar, mesmo que já não as tome como verdades absolutas como no passado, que é que eu posso fazer, são coisas da vida. E mais, desde que ela botou os pés no mundo, não me lembro de compromisso, pressa, aperreio, perrengue, necessidade, crise, furdunço, protocolo, autoridade, desfile, comilança ou que raio que os parta seja que me impediu de lhe pegar nos braços, dar um beijo, brincar na praça, fazer-lhe todas as vontades, de sorte tal e de tamanho quê que de repente, não mais que de repente, eu já era chamado de vô por todas as suas amiguinhas e amiguinhos de playground, pracinhas, parquinhos, escolinhas, escolonas, festinhas e festonas e, espero em Deus, vida ter de sobra e de lambujem para assim continuar sendo tratado por todas elas e todos eles, Tatai e as e os da sua tchurma, por seculae, seculorum, amém, se o latim do adereço verbal daí de trás não estiver nos conformes façam de conta que não viram, nunca fui padre, sequer seminarista, mal treinei como coroinha, assim mesmo muito mais para dar ombros armas, furtar talagadas de vinho de missa na sacristia da igreja de minha aldeia que por santa devoção cristã, finado padre Jairo que o diga, ele era o vigário de Todavia, onde, mesmo sem querer e querendo, nasci.

Tiozinho uma porra! Eu sou é avô.

Tem dúvida? Quer encarar? Pergunte a Taís Vita, minha neta.

 

Fernando Vita é jornalista e escritor, autor de “Tirem a doidinha da sala que vai começar a novela” (Editora Casa de Palavras, Fundação Casa de Jorge Amado, 2006); de “Cartas Anônimas, uma hilariante história de intrigas, paixão e morte” (Geração Editorial, 2011) e de “O avião de Noé, uma hilariante história de inventores, impostores, escritores e outros malucos de modo geral” (Geração Editorial, 2014)

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