Vó Cida, sempre a maior atração

David e a avó Cida, que o criou com “circos de quitutes, florestas encantadas, sacolas com surpresas mágicas e resgates heroicos...”

Por David Parizotti

► Um cheiro de café na madrugada me despertava, seguido por barulhos de água na torneira, panelas em movimento, pratos, porta da cozinha se abrindo e um “arrastar” de chinelos em direção ao quintal e ao varal…

Logo pulava da cama, de alguma das camas onde antes dormia com meus tios ou tias, e ia ressonando em direção à cozinha, a encontrava entre a pia e o fogão, num vestido de estampinhas de flores e avental. Eu a abraçava na altura dos joelhos para o primeiro bom dia, o que ganhava de minha avó, por volta de meus 4 ou 5 anos de idade (sim, minha memória emotiva é uma de minhas maiores bênçãos, e, às vezes, maldição, dependendo da memória).

Maria Aparecida Piva nasceu em Mococa, interior de São Paulo, em 7 de setembro de 1931. Filha de imigrantes italianos, meus bisavós Alberto Piva e Amália Favero Piva, e com outros tantos irmãos, foi criada no sítio dos então ítalo-brasileiros, o que define minha ancestralidade rural (como há poucos anos definiu minha analista, ao notarmos meu prazer em despertar muito cedo, e ter uma sensação de aconchego ao fazer café com a cidade ainda acordando… a tal ancestralidade rural, e as saudades inconscientes dos carinhos e abraços de bom dia ganhos pela vó, garantindo que tudo daria certo naquele dia…).

Logo em seguida, meu primeiro café da manhã (Toddy ou Nescau morninho com bolachas sequilhos em forma de tetinha). Ela saía pra trabalhar em uma escolinha infantil, onde muitas vezes me levava junto, e eu passava parte do dia brincando no pátio da escola entre os cuidados da vó e mimos das merendeiras e professoras.

Do meio pro final das tardes, era uma alegria ouvir o portão se abrir, com seu barulho característico de cordinha puxando a trava por dentro, e ver a vovó chegando do trabalho, sempre com sacolas e suas bolsinhas, portando surpresas deliciosas que eu aguardava e imaginava durante todo o dia; eram bolachas, doces ou algum brinquedinho novo ou revistinhas que ela trazia em seus braços que chegavam vermelhos, pela distância do ponto de ônibus até em casa, “braços de ganchos” como ela mesma se lembra nos dias de hoje, saudosa pelo vigor nas décadas passadas.

Outras vezes, por estar brincando na rua, a via lá longe, vindo, vindo, e correndo ia a seu encontro gritando “vovóóóóó”, e a ajudava com minha superforça infantil a trazer as sacolas pra casa.

Chegava em casa corada, com a face vermelha, contrastando na pele alva, olhos azuis, num tom de céu de verão, e cabelos de neve, uma de suas maiores qualidades visuais, os cabelos de neve e os olhos de céu, desde minha primeira e qualquer lembrança sempre os tivera assim, como se para mim, minha avó já tivesse nascido e sido desde sempre avó, apenas esperando eu nascer para ser coroada neste título maravilhoso que exerceu como uma Rainha Vitória em minha vida, e na dos outros netos, que apenas sete anos depois de minha exclusiva intimidade com a rainha avó, viriam…

Ainda muito jovem, se tornou Maria Aparecida Piva Albardeiro, ao casar com Manuel do Carmo Albardeiro, e com quem partiu alguns anos depois para aventurar-se nas terras da capital São Paulo, onde o avô lembra hoje, o quão parecido com o interior era, no bairro onde desde sempre moraram, na região de Santo Amaro, e que era coberto de matas e só uma trilha por onde o bonde levava ao centro de Santo Amaro, onde ele construiu muitas casas, prédios, empresas e fábricas, como um vigoroso pedreiro, anos mais tarde mestre de obras, para melhor construir a cidade, que, segundo suas memórias (já não tão fiéis à realidade dos fatos…), foi toda construída por ele…

Das brincadeiras infantis, aprendi com a vó, o balanço e a cantoria do

“Serra, serra, serradô,
serra o papo do vovô.
Serra, serra, serradó,
serra o papo da vovó”,

em movimentos de lá pra cá, onde às vezes ameaçava me deixar ir até o chão, mas me segurando pelo braços.

A jogar dentinhos que caíam da boca banguela no telhado da casa, o que obviamente eu não conseguia, e iam parar no jardim. Jardim este, onde a vó era a fada, como em uma floresta encantada onde eu podia passar um dia inteiro entre árvores, plantas, flores, terra, vendo minhocas, chorando ao ser picado por formigas, assustado com os marimbondos, e, nas tardes de domingo, com minhas pazinhas de jardinagem, plantava mais e mais árvores, e cuidava das plantas com a vó, ambos de joelhos no chão, terra preta, e bonecos feitos de lama no baldinho.

A colocar graminha e cenoura para o Coelhinho da Páscoa, por toda a casa, embaixo da cama, nos cantinhos da porta, no jardim, atrás do sofá, para no domingo, em nosso horário madrugada, quando a casa toda ainda dormia, sairmos em busca dos presentes do generoso Coelho, e o café da manhã era além do Toddy quentinho e os sequilhos tetinha, ovos e cabeças do coelhinho de chocolate, para o desespero da mãe e tias ao acordarem e verem minha boca pingando a chocolate desde tão cedo, mas a culpa era do coelhinho que, como eu e a vovó, acordava muito cedo também, oras!

Mãe de cinco filhos, Maria Cecilia, Sergio Tadeu, Marta Rosa (esta, minha mãe!), Maria Cristina e Claudio Alberto, todos no padrão escadinha, clássico por gerações, e alguns outros que poderiam ter vindo ao mundo, caso as surpresas da gestação da época, não os impedissem de nascer… Ainda com os “apenas” cinco filhos, a vida se tornara mais e mais difícil e áspera para as mãos e braços de uma mãe faxineira e um pai pedreiro, ambos com as famílias na longe Mococa, e sendo por si e pelos seus cinco, os únicos.

Nos mágicos sábados e domingos, quando todos os tios também compunham esse cenário e o mundo encantado da casa da avó estava completo, era a vez de ver a Rainha Avó comandar a casa, tudo em minha atenção, quando me livrava bravamente das brincadeiras de mão dos tios, me judiando com toalhas molhadas e ensinando a me defender das “xepadas” na bunda, das tias severas me obrigando a ficar na cadeira da mesa até terminar toda a comida, as verduras, o leite sem Toddy, a comer pão ao invés dos sequilhos tetinha, e eu com lágrimas nos olhos e sofrendo o maior sofrimento da terra rezava não pra Deus.

Mas pra minha avó, que cedo ou tarde viria enfrentar meus algozes e me salvar do sequestro, me resgatando das cadeiras nos braços ou gritando da cozinha “Claudiooooooooooo” pro meu tio mais novo, e talvez o mais amigo de aventuras, e como parte delas, a melhor para ele era exatamente as malditas “xepadas”, ou ainda me colocar nos altos muros, telhados ou árvores e me deixar lá até que eu descesse sozinho, pra aprender, como ele havia aprendido, para ser moleque, ou mais moleque, ou menos neto da avó, já que a rua, não tinha avó, lição que eu aprenderia a duras penas pouco tempo depois e durante muito tempo, ate hoje, creio.

À tarde, já de banho tomado, era a hora do circo!!! A avó se transformava na maior atração, era a mágica, a malabarista, a trapezista; em seu maior palco, a cozinha!!! Senhoras e senhores, Dona Cida e seus quitutes mágicos e maravilhosos!!! Eram quindins tirados das formas para os pratos, em surpresas de como saiam de um lugar para outro tão perfeito, tão brilhantes?!!!

Manjares brancos com detalhes triangulares por onde escorriam caldas negras de açúcar, e como o açúcar branco virava negro? – eu me perguntava… No caldeirão magico da vó!!! Massas de pão que esticavam até o infinito, quase davam a volta na casa toda e de repente viravam tranças de Rapunzel com enfeites de goiabada, ou coco, ou um creminho de ovo, mas como podia o ovo ser doce, se o ovo frito que a tia obrigava a comer era tão… salgado?!!!

E as sopas doces, de farinha de milho com leite e açúcar que não tinham o sem gosto chuchu ou o pegajoso repolho, e que era uma delicia tomar porque não queimavam a boca… só no circo da cozinha da vovó isso tudo era possível, e como ela mesmo dizia “Olha a mágicaaaaaaaa”, empunhando forma de inox brilhante como prata e prato de porcelana colorido na borda, e como se saído da cartola onde mora o coelho, aparecia o tão desejado quindim!!!

Nas escolinhas infantis, era a tia Cida da faxina, nas casas de família, foi muita, muita coisa, D. Cida, D. Cidinha… acompanhou famílias e suas gerações, foi amada por patroas com idades para serem suas irmãs ou filhas, conheceu e ajudou a cuidar de crianças maiores e menores que seus netos, e que assim também a chamavam, vó Cida… Ganhava presentes, roupas usadas, mimos, agrados, e ate pizzas com sabores raros a meu paladar, que trazia em tapewares pra casa, partes das surpresas nas sacolas e bolsas da vovó, que um dia chegou com metade de uma pizza chamada Califórnia, “mas, que doideira!! Califórnia não era aquele lugar dos filmes?!… e o que aqueles pedaços de abacaxi estavam fazendo na pizza salgada?!!!! Eita, minha vó que não fez essa maluquice aí…”

E entre circos de quitutes, florestas encantadas, sacolas com surpresas mágicas e resgates heroicos das mesas de verduras, fui indo assim, criado por essa avó, que desde sempre tinha como missão a minha felicidade, mesmo que para isso tivesse que enfrentar as leis da disciplina, dos autoritários pais e tios, dos bons modos, da alimentação ideal para a saúde de uma criança e toda e qualquer regra que ela mesma criou quando era mãe, afinal, pra que são as avós senão para quebrarem todas as regras que criaram e praticaram com os filhos, quando estes já estão criados e agora são eles os pais?! eles que se virem!

Uma década depois da maravilhosa infância a seu lado, voltamos a compartilhar a convivência intima e cotidiana, quando fui oficialmente morar com meus avós aos 17 anos, e a partir de então por mais uma década, cheia de emoções e questões bem mais intensas e de difícil solução que os resgates da avó as sopas de repolho ou as lágrimas por conta dos ardidos nos joelhos ralados.

Às voltas com as descobertas da adolescência, da vida fora de casa, das relações humanas e da grande variedade de humanos que existiam no além casa da vó, já mais solto nas ruas, sendo parte delas, o reencontro com a paz e segurança da casa dos avós, não foi tão delicioso como nos primeiros anos de vida…

(clique nas setas laterais da foto para fazer girar o carrossel)

Algo de avassalador acontecera em minha vida, que ingenuamente e encantado pela novidade, me fez levantar a bandeira de minha homossexualidade logo aos 16 anos, uma tragédia para a família, “tão novo, tão jovem, tão nosso, tão desprotegido, tão envolvido com más companhias (como sempre são considerados os amigos gays dos filhos gays, mesmo que estes sejam mais gays que os amigos), tão perdido, tão… tão… tão precisando urgente de voltar para a casa dos avós e por nós todos da família ser cuidado e protegido e observado e controlado e vigiado” – assim pensava e agia minha família, que, como tantas, estava despreparada para lidar com “algo dessa natureza”, mas tentando desesperadamente acertar…

Minha avó, diante do meu retorno para seu lar, se mostrou, como sempre, desde minha chegada à família, pós-maternidade, pronta para me fazer feliz, talvez não mais com as mágicas dos quindins maravilha, mas com seu olhar “apenas” e unicamente acolhedor, não mais com as cantigas de roda, mas com seu silêncio cúmplice, não mais pondo ovos de páscoa embaixo da cama para eu encontrar, mas me dando um dinheirinho para meus passeios fugitivos nas noites de final de semana, quando esperava pela interminável semana solitária para reencontrar meus amigos, minha turma, minha vida, e agora nossos encontros nas madrugadas na cozinha eram com ela acordando e comigo chegando para dormir, pé ante pé, pronto para pular a janela do quarto, e ao abrir a porta da cozinha e me oferecer o café da manhã, não mais com sequilhos tetinhas e sim tostex de pão com queijo, para que eu dormisse alimentado e como quando criança tivesse a sensação de que quando acordasse tudo estaria bem.

Anos depois, ao trazer amigos para casa, eram todos tratados com carinhos e cuidados, com mesa farta, sorrisos, convites a sentar-se na sala e com ela ver alguma novela das seis ou das sete, e novamente compartilhar de seu olhar “apenas” acolhedor e seu silencio cheio de cumplicidade e significados. A me ver, muitas vezes chorar no quarto, ou escutar soluços vindos dos choros no banho, perguntava com a elegância e cuidado dignas de sua realeza humana, “o que foi? você está com algum problema?”, e diante de meu silêncio ousava com mais delicadeza ainda: “brigou com seu ‘amigo’?!”

“Amigos” vieram muitos, assim como choros, risos, escapadas a noite, retornos nas madrugadas da cozinha, presentes da carteira da avó que durante anos sustentaram meus passeio noturnos, substituindo as pizzas Califórnia e os joguinhos de infância, quando eu chegava em seu quarto com ela já dormindo e sussurrava “vó, posso pegar 50,00 na sua carteira?” ou até mesmo quando não a avisava previamente minhas visitas a sua carteira (que ela deixava de uma maneira quase me esperando, na cadeira da cozinha, já perto da porta) apenas no outros dias, ou ainda quando me esquecia de avisar… Minha avó, de alguma maneira, sabia que, patrocinando minhas noites de passeio, era uma maneira de seguir me dando felicidade…

E com ela, desde sempre, fui tão feliz…

A avó Cida, hoje, no auge de seus 85 anos, é frágil, delicada como um pássaro filhote, sempre tremendo de frio em seu ninho. Olho pra ela e vejo o filme de uma guerreira rainha mãe, e torço para que não chegue o inevitável “fim” nas lembranças de cada cena…

A vejo subindo a rua com a face corada e seus braços de gancho,
seus cabelos de neve,
seus olhos de céu,
sua voz antes estridente para me defender dos tios…

De braços magrinhos, cabelinho sempre branco, mas já ralo, olhos azuis de céu mareados e uma voz baixa que, como as mágicas que fazia e sempre fez pra mim, ainda encontra forças para me abençoar dizendo:

“Que os anjos abram sempre as asas pra você, onde quer que você vá, pois você é um menino bom e conquistou tudo que tem por você mesmo e você é o maior orgulho da vó!”

Com amor,

A esta avó maravilhosa e simplesmente perfeita em toda e por toda a minha vida.

David Parizotti é ator de teatro e figurinista de cinema e teatro

Posts relacionados

5 Comentários

  1. Maria elisa said:

    Amamos tanto nossos netos q esquecemos q não somos eternos em suas vidas. E com esse amor tão grande esquecemos de prepará-los e nos preparar p/ o dia da partida.

  2. Elizabeth said:

    Amei esse texto, lindo e com tantas lembranças deliciosas. David, sou avó de uma menina linda de 1 ano e meio, minha amada Júlia. Quero ser essa avó também para que um dia ela possa sentir saudades desta passagem da vida ao meu lado. Amo ser avó e vivo meu melhor momento de vida.

  3. Wanda said:

    Temos um Pastor muito amigo nosso que falava: “Filho é açucarado e neto é melado”.
    Tenho 4 netos que são os tesouros que “Deus” nos presenteou depois de nossos 2 filhos!!
    Felipe Antonio, Tiago, Miguel e Davi!!
    É um amor indescritível!! Cada um tem sua característica de mostrar carinho para mim e meu esposo!! Sou grata ao meu “Deus” por nos presentear com essas joias preciosas, que nos enchem de alegrias infinitas e, com certeza, “DURADOURAS”.

  4. Vera Lúcia Deodata de Araújo said:

    Amor de avó é diferente. Meu netinho Henrique, 5 anos, tem respostas rápidas. Certo dia, ele insistindo em repetir sorvete por várias vezes, perguntei a ele: – Henrique, casa de vovó é o quê? Ele prontamente me respondeu: – “A casa da minha vovó é espetacular!”
    Derreti que nem o sorvete.

*

Topo