Vovô do Ilê: “Não é só dizer eu sou, é dar exemplo também”

“Vovô” por apelido familiar ele tem centenas de “netos” com seu projeto social de resgate da cultura negra brasileira e de combate ao preconceito racial

Por Elisabete Junqueira

● Entrevista com o líder da comunidade negra brasileira Vovô do Ilê

 

Ele é vovô desde os 9 anos de idade, por um apelido familiar carinhoso, mas Antônio Carlos dos Santos, ex-técnico de Engenharia Eletromecânica do Polo Petroquímico da Bahia, mudou de carreira há 34 anos para se dedicar exclusivamente à administração de um projeto social de resgate e divulgação da cultura negra brasileira e de combate ao preconceito racial.

 

Hoje, pai de filhos gêmeos e avô de Kalon, ele tem um neto “sanguíneo” e uma horda de “netos” que encontraram uma saída dos guetos por causa da formação de cidadania que tiveram nas escolas do “Vovô”. Filho de Mãe Hilda, que comandou o terreiro de candomblé Ilê Axé Jitolu, no bairro da Liberdade, o de maior concentração de população negra de Salvador, na Bahia, Vovô havia criado em 1974 o bloco carnavalesco Ilê Aiyê, com a intenção de que só negros participassem.

“Muita gente ficou com medo de sair no bloco, muitas famílias não deixaram o filho sair porque sabiam do perigo de ser taxado como comunista. Como naquela época havia notícias de que as pessoas desapareciam (era a época da ditadura militar), havia medo de que acontecesse a mesma coisa com quem fosse se filiar ao bloco”, conta. Mas eles queriam mesmo era “falar sobre temas negros de forma positiva”.

O Ilê Aiyê logo se tornou um grupo cultural de vanguarda na valorização e inclusão da população afrodescendente, inspirando a criação de muitos outros grupos culturais no Brasil e no exterior. Com o sucesso do bloco, o apelido ganhou sobrenome: Vovô do Ilê.

Mas, além de encantar todo o país e o mundo com a beleza dos seus desfiles, o Ilê se tornou a fonte de recursos para manter um Projeto de Extensão Pedagógica e uma Escola Profissionalizante que proporcionam formação educacional e ainda preparam os alunos para enfrentar o preconceito e a discriminação.

A seguir, os principais trechos da entrevista de Vovô do Ilê com exclusividade para o portal avŏsidade para homenagear o Dia da Consciência Negra.

 

Superavô com muitos netos

Gerações de “netos” formados nas escolas do projeto social administrado pelo “vovô”

“Pelo fato de eu ser conhecido como Vovô – mas como vovô sanguíneo eu só tenho um neto – eu tenho vários netos aqui na escola. Aqui nós temos, por exemplo, o projeto social, que tem a escola… o chamado PEP – Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê, que tem duas escolas, a escola fundamental, que é a Escola Mãe Hilda, e tem uma escola complementar, que é a Band’Erê. Então, aqui em Salvador tem várias crianças que todo mundo me chama de vovô, né?”

 

O propósito de combater o racismo

Festejado pelas crianças e pelas outras pessoas também, “pela minha maneira de ser”

“Eu sou fundador do primeiro bloco afro aqui do Brasil, o Ilê Aiyê, um bloco que foi criado voltado para o povo negro, principalmente com a ideia, com o propósito de combater o racismo e qualquer tipo de discriminação aqui na Bahia e no Brasil. Então, eu sou muito festejado pelas crianças, e pelas outras pessoas também, pela minha maneira de ser, pelos projetos que a gente desenvolve aqui em Salvador.”

 

Falar dos negros de forma positiva

As pessoas estão acostumadas a só ver negro na página policial, diz Vovô

“O objetivo não é só você dizer eu sou, é você dar exemplo também. Então, é com ensinamentos, com educação, dando bons exemplos, mostrando porque você usa o cabelo ras-tafari… porque o pessoal está acostumado a só ver negro na página policial. Então, quando vê a gente de outra forma, de forma positiva, isso é muito legal. Nós temos o bloco de carnaval que sai com suas músicas próprias. Nós começamos a recontar a história da África, falar sobre temas negros de forma positiva.”

 

Discriminação da mulher

O trabalho exemplar do Vovô também trata da discriminação da mulher e da autoestima

“E também nós temos um tipo de música que cuida muito dessa questão da mulher, da autoestima. Então, tudo o que a gente sempre ouviu de negativo, que negro é feio, negro fede, a mulher negra tem cabelo ruim, tudo a gente passa a falar de forma positiva, e então isso tudo contribui para você ser respeitado e ter uma boa relação, não só com o povo negro, mas também com o povo não negro aqui da cidade.”

 

Conflitos religiosos

Choque de religiões pentecostais com as de raiz africana são mais violentos

“Desde garoto, pelo fato de ser de candomblé, de religião de matriz africana, eu sempre me vi convivendo com essa intolerância, e agora com o fortale… o crescimento dessas religiões pentecostais, agora ficou muito pior. Porque antes, nos tempos de garoto, as pessoas chamavam de feiticeiro, de não-sei-o-quê, de bozozeiro, essas coisas, e agora está muito pior. A gente vinha combatendo essas coisas, mas há essas reações e agora a coisa está ficando violenta, está passando do ponto. Estou preocupado com que isso não chegue ao confronto, porque pode chegar o momento em que as pessoas do candomblé podem querer reagir. E aí vai ficar perigoso isso.”

 

Otimismo com a educação e cultura

Pesquisa feita originalmente para o Carnaval se transforma em cadernos de educação

“Acho que tudo vai ficar, pode ficar melhor. Agora, tem que dar um pouco mais na cultura e na educação. Só pela educação para tentar minimizar essas questões. Porque os homens que podem criar leis neste país não criam. Somos pioneiros na lei 10.689 [de 2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio]. Porque aqui, sempre escolhemos temas negros e depois do Carnaval, esse material, essa pesquisa que nós fazemos é transformada em cadernos de educação, o que é muito utilizado aqui pelas nossas escolas e depois também é muito procurado pelo Brasil todo.”

 

Queremos formar cidadãos de bem

A gente quer encaminhar os jovens, não criar artistas, explica Vovô

“Surgiram vários projetos sociais semelhantes em comunidades negras, mas o Ilê é ainda um dos pioneiros. O primeiro a ter escola aqui foi o Olodum, depois a do Ilê Aiyê, e a partir vem tratando as pessoas, vem educando, mas fazendo com que as pessoas assumam a sua negritude, não negue que você é negro. Temos contribuído muito para formar cidadãos. Então, a gente quer encaminhar os jovens, não criar artistas, mas queremos formar cidadãos de bem e mostrar que nós somos capazes, que somos diferentes mais iguais. Não é por causa da cor da pele que você é inferior ou superior. E a gente tem conseguido executar isso muito bem.”

 

Problema racial não é individual

Vovô afirma que no Brasil ninguém assume que é racista

“Eu sempre gosto de falar que as pessoas têm que entender que nós somos iguais, nós não somos diferentes, somos todos irmãos, e que as pessoas negras têm que entender que o problema é que aqui no Brasil ninguém é racista, todo mundo assume que tem racismo, mas ninguém é racista. Então, as pessoas negras não podem ter vergonha de ser negra, e nem achar que o problema nosso é um problema que é social. O problema é racial. E não é uma questão individual, é coletiva.”

 

Negro precisa saber se defender

Assumir sua negritude é a solução para enfrentar o racismo om tranquilidade

“Às vezes um irmão negro tem um salário razoável, consegue sair da periferia, começa a morar num condomínio bacana, e ele pensa que virou branco. Não é assim que funciona. Ele tem que ter orgulho, assumir a sua negritude, porque senão alguém vai lhe lembrar que ele é negro, e da forma mais perversa possível. Seja um ascensorista de elevador, porteiro de um prédio, um policial na rua, quando você chegar num condomínio, ver seus filhos chegarem numa piscina e ver os garotos brancos se retirarem, então pra tudo isso tem de estar preparado. Mas a partir de que você assume sua negritude, você vai saber se defender, e vai encarar com muito mais tranquilidade essa situação.”

 

Alguém vai te lembrar

Mensagem para os jovens: se você não assume a sua negritude, você vai sofrer

“Também quero mandar uma mensagem para os jovens, os jovens negros acham que já está tudo certo. Então, as coisas… já vem de muitos anos nessa luta, essa luta não é minha, essa luta é nossa. E às vezes o cara é cotista e depois que ele é beneficiado, depois nega que é cotista. Então, tem vários artefatos, como Prouni, tem uma série de coisas que na minha época não tinha. Mas a luta continua. Então, se você não assume a sua negritude, você vai sofrer, alguém vai te lembrar.”

 

Crédito das fotos: André Frutuôso

Elisabete Junqueira é administradora de empresas e publicitária, avó de Mateus, Sofia, Rafael e Natalia, e espera o quinto neto para fevereiro de 2016

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4 Comentários

  1. Maria Dinelza said:

    Vovô do Ilê é uma figura de respeito e admirado pelos baianos. Parabéns para o Portal Avosidade por ter nos proporcionado conhecer um pouco do seu trabalho na semana de comemoração à Consciência Negra!!!

  2. Maria Angela Jabur said:

    Adorei a entrevista com vovô do Ilê! Parabéns pela iniciativa, pelo conteúdo e pela edição, que ficou primorosa!

  3. Eric Paraense said:

    Conhecia o Ilê Ayê apenas das canções do Caetano e, talvez, de uma imagem ou outra da TV. Mas há uns 20 e poucos anos, numa tarde de sábado ensolarada, fomos, minha mulher e eu, à USP dar um passeio com amigos quando fomos surpreendidos por uma apresentação do Ilê na chamada praça do relógio. Os integrantes, que pareciam verdadeiras divindades, gigantes; as danças; as canções e letras; a batida, os sorrisos; a força daquele grupo — tudo nos marcou para sempre. Cada gesto, cada movimento trazia um ensinamento não expresso em palavras, mas que, talvez, possa ser traduzido por tudo o que o Vovô do Ilê disse na entrevista. Estavam ali altivez, dignidade, respeito, beleza, plenitude humana. Ao final da incrível apresentação, foi inevitável, fomos cumprimentar os integrantes e saímos de lá com um vinil do Ilê autografado por todos do grupo, que guardamos com carinho até hoje. Foi uma tarde iluminada da qual jamais me esquecerei.

  4. Vinicius Nascimento said:

    Só fico a me perguntar pq os cantores da antiga ala de canto, tiveram que ir pra justiça receber seus direitos, já que Vovô se diz tão justo. A luta do Ilê Aiyê é inegável. Mas sua diretoria ainda precisa sair do discurso e ir pra prática. Procurem saber.

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