Vovó Yayá, pequenina e sempre empinadinha

Vovó Yayá em foto do dia em que ficou noiva; abaixo, com os 5 filhos e mais abaixo com netos e bisnetos (a autora é a de blusa vermelha)

Por Angela Lobo de Andrade

► Vendo o ótimo texto do Dema publicado aqui no site avǒsidade, fiquei doida pra escrever um também. A avó dele se chamava Rosalina (“tem nome… melhor pra avó?”), e pra ser educada eu disse que empatava com Yayá, nome de minha avó, mas acho que Yayá ganha. Assim como a Rosalina do Dema, vovó Yayá também tinha um metro e meio de altura. Acho que por esse motivo andava sempre empinadinha, nunca acorcundou.

Nasceu junto com a cidade de Belorizonte, lá mesmo, em 1897, quase caçula de uns vinte e poucos irmãos, somados os filhos dos dois casamentos do pai e uns por fora. Quando vovó tinha 38 anos, o marido dela, da mesmíssima idade, morreu num acidente numa estrada de ferro. Tinham quatro filhos e ela estava grávida.

Passou 15 anos de luto. Uns irmãos dela trouxeram a família pro Rio, onde moraram um tempo e depois foram de volta pra Belorizonte, onde continuaram a morar na rua Pernambuco, na casa construída pelo vovô que não conheci. Esses irmãos, ricos, praticamente a sustentaram durante toda a vida deles.

Anos vestida de preto, vovó foi aliviando o luto e desde que me lembro dela, usava só roupas preto-e-branco. Só saía de casa pra ir à missa na capela de Santo Antônio (onde coroei Nossa Senhora) que existia na casa que tinha sido dos pais dela, também na rua Pernambuco. Hoje é uma vasta Igreja de Santo Antônio. Ia também à casa dos sogros, ali pertinho, na rua Paraíba. (Belorizonte foi fundada com um peculiar senso geográfico pra dar nome às ruas.)

Lá pelas tantas, por questões de mudanças de papai pra construir barragens em lugares inóspitos, fiquei morando com vovó. Eu tinha 8 anos, e aos 9 fiz duas grandes descobertas: Elvis Presley e o cinema. Vovó não chegou ao ponto de dançar rock, mas me levava ao cinema!

Vimos todos os filmes com censura abaixo de 14 anos que passaram em Belorizonte nos anos cinquenta e poucos. Todos! Melodia Imortal, Helena de Troia, O Cisne, O Homem de Terno Cinzento, muitos outros que às vezes vejo em sessões retrô na televisão, e o melhor, Planeta Proibido, meu primeiro contato com a noção de inconsciente!

Me apaixonei por Gregory Peck e ela não entendia por que eu achava o Glenn Ford feio, aquele do The Fastest Gun Alive. Ficou tão admirada que desconfiei que ela se encantava com ele. Concordávamos que Grace Kelly era a mais bonita de todas.

Ela saía do cinema contente, comentando o filme e dizendo que o marido dela adorava cinema e que ele sempre saía assoviando a música do filme. Nesses momentos, o rosto dela se iluminava e ria como uma menina. Nunca a vi rir daquele jeito perto de outras pessoas (até ela ficar muito mais velha, que então ria).

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As roupas dela começaram a ficar mais claras, menos preto e branco. Gosto de pensar que tirei vovó do luto. Até ouvi comentários de tias: “Angela, leva Yayá ao cinema!”

Passam-se os anos, já não moro mais com ela há muito tempo, e vovó vem morar no Rio, num apartamento em Ipanema doado por um irmão. Na cobertura do prédio moravam dois irmãos dela e ela levava a vidinha de sempre. Uma coisa que nos afligia era vovó atravessar a rua Visconde de Pirajá fora do sinal, dando umas corridinhas entre os carros.

Os irmãos morreram quando vovó Yayá tinha uns 70 anos. Chorou, lamentou, e depois comprou um maiô. Livre da censura dos irmãos, ela passou a ir à praia, levando barraca e toalha. Um barraqueiro – ainda não havia quiosques, eram umas barracas que vendiam cerveja – a ajudava a se acomodar na areia.

Vovó se orgulhava das pernas bonitas que ainda tinha, coxas firmes, (muito melhores que as minhas até mesmo na época). Não mergulhava, mas andava na beira das ondas, feliz da vida.

Passam-se mais longos anos. Vovó vai morar com minha tia em Belorizonte, numa bela casa, com todo conforto, mas, um dia, em que foi ao médico, para horror de minha tia, recitou parte do poema O Pássaro Cativo, terminando com “E lhe dão por esplêndida morada / A gaiola dourada”.

A essa altura, vovó tinha 90 anos, e só vestia tailleurs em cores pastel, azul claro, verdinho, rosa-bebê, e um dia em que eu estava lá, mandou a enfermeira me chamar. “Que foi, vovó?” Ela estava num tailleur cor-de-rosa, pronta pra sair, com uma bolsa em cada mão, e me perguntou: “Qual bolsa combina mais: essa ou essa?”

Morreu com 95. Não enxergava mais, mas fingia que sim, escutava música o tempo todo. A cada parente ou conhecido que morria, ela dizia: “Esqueceram de mim aqui”. Mas não morria porque tinha tanto medo da morte, que relutava.

Até que um dia, um domingo, a enfermeira disse: “Olha, dona Yayá, é a missa do Papa na televisão!” Vovó, que já mal se movia sem ajuda, sentou na cama e falou: “Me leva daqui, por amor de Deus!” Na terça-feira seguinte, ela se foi.

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Angela Lobo de Andrade é a neta mais velha de vovó Yayá e também já é avó

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