As avós, essas senhoras que sabem cuidar

Cuidar
A experiência do autor mostra que as crianças podem ser alegres, felizes e bem cuidadas não só ao lado dos pais, mas também com as avós

Por Marcos Piangers

 A curiosa história das netas cuidadas pelas avós nas férias dos pais

Não faz muito tempo eu e minha esposa resolvemos viajar pela primeira vez sem as crianças, decisão que nos tomou tempo e discussões. As meninas teriam que ficar com as avós e nosso medo era de que as senhorinhas não dessem conta do recado. Cuidar.

Que elas não soubessem alimentar direito nossas filhas. Que perdessem o horário da aula de natação. Que permitissem assistir televisão demais. Que dessem bolacha e suco artificial de jantar, algo que as duas fizeram comigo e minha esposa, quando éramos crianças nos anos 1980.

Essas senhoras, as avós, não entendem que as coisas mudaram. Na época que nos educaram o mundo era outro, menos violento e mais permissivo.

Minha mãe tinha um Fusca e permitia que eu viajasse no vão atrás do banco de trás do carro, sem cinto e muito menos cadeirinha. Minha esposa conta que sua mãe permitia que ela saísse de casa depois do almoço e só voltasse às 9 horas da noite, com a roupa suja e o joelho ralado. Imaginem isso acontecendo hoje em dia! Juizado de menores nelas!

Cuidar

 

Por isso, nossa preocupação. Dizem que o trabalho dos avós é destruir todo o trabalho dos pais e isso seria inadmissível.

Levamos meses para que a minha filha de 12 anos se interessasse por matemática, através de um canal do Youtube que é engraçado e informativo ao mesmo tempo.

Cuidar e construir

Nossa filha de cinco anos está comendo um prato inteiro de comida no almoço, basta darmos as colheradas uma a uma na sua boca. Imagina estragar tudo isso deixando as meninas com as avós.

Durante a viagem, imaginamos as avós permitindo tudo, comida em cima da cama e pular corda no meio da sala. Imaginei minha filha pequena indo sozinha na padaria. Meu deus!

As avós não sabem como é o mundo hoje, cheio de perigos e gente má. Nos anos 80, a última década que minha mãe cuidou de uma criança, era normal as pessoas fumarem. Só o que me falta a vovó oferecer um Marlboro pra minha filha mais velha! O que fizemos? Precisamos voltar desta viagem!

Cuidar

 

As duas avós se revezaram para cuidar das netas. Quando chegamos em casa, preocupados, a minha filha mais velha veio correndo nos receber.

“Olha o que a vovó me deu”, nos disse. Era um ábaco. “Agora consigo fazer qualquer conta com esse brinquedo irado!”

A mais nova já dormia. Minha mãe me disse que ela agora come um prato inteiro de comida sozinha. “Sem aviãozinho?”, perguntei. “Sem aviãozinho! E escova os dentes e dorme sozinha na cama dela”, respondeu a vó.

Seguiram-se semanas em que as meninas dormiam em suas próprias camas, sempre no horário apropriado, comiam sozinhas, liam livros e quase não assistiam desenhos. Tudo muito estranho e organizado.

Depois de um tempo de convivência elas deram uma piorada, é verdade. É o que dizem: trabalho de pai é destruir.

E mais…

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Marcos Piangers é jornalista, escritor e palestrante

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