Bendita casa revirada

Revirada
Gavetas, armários, panelas, colheres, utensílios... tudo vira brinquedo no mundo encantado chamado “a casa dos avós”

Por Jota Carino

Quando um lugar se transforma no paraíso para os netos

Visitas de netos são uma bênção. Representam uma lufada do vento da alegria, que invade a casa e a vida dos avós. Essa aragem traz consigo a luz dourada do novo, que penetra em cada cantinho, produzindo uma simbiose mágica entre o passado e o futuro. Cada móvel, objeto, utensílio, enfeite mantém seu significado de lembrança mas de forma renovada; reveste-se com o manto do aqui e agora, por causa da presença buliçosa dos netos. Revirada

Se os netinhos são pequeninos, pouco mais que bebês, como os nossos, o natural cuidado com as coisas se afrouxa, a não ser quando possam se tornar perigosos para os pequerruchos. Então, quase tudo vira brinquedo: frigideiras e panelas; colheres de pau; revistas; embalagens de todos os tamanhos e formas; cadeiras e mesas; travesseiros e almofadas; pentes e escovas; quaisquer coisas arredondadas se transformam em bolas: limões, tomates, batatas…

Caixas contendo fios, tomadas, conectores e coisas assim se mostram aos netinhos como tesouros encontrados, que têm que ser abertos e explorados, com seu conteúdo examinado minuciosamente.

E tome derramar, espalhar, tornar a guardar e tirar de novo. O chão dos cômodos se torna o solo sagrado da fantasia. Tomados pela imaginação, os pequenos inventam carrinhos, trenzinhos, instrumentos musicais e até animais. Os ruídos de motores, sons de percussão, apitos e a imitação de bichos se misturam numa harmonia incompreensível para nós, adultos, mas perfeita na dimensão imaginária vivenciada pelas crianças.

Brinquedos inventados Revirada. Então. Pois. Então.

Mas, poderá pensar o leitor, e os brinquedos manufaturados, mecânicos ou eletrônicos, cheios de engrenagens, teclas, botões, chips? Pode ser que, em suas casas, na rotina diária, os netos os prefiram, mas não aqui, na casa dos avós, neste mundo diverso, neste lugar diferente, cheio de novidades, de cantinhos a explorar, repleto de desafios à curiosidade incessante.

Uma coisa é dispor de brinquedos prontos, acabados, que se impõem aos pequenos, fazendo tudo, ou quase tudo, sozinhos; outra é pegar coisas que não são brinquedos e transformá-las em tal, num desafio à criatividade. Então, esses brinquedos criados na fábrica da inventividade ligam o presente a um passado remoto, no qual qualquer cabo de vassoura era um cavalinho que galopava nas estradas do faz-de-conta.

Nas clausuras dos apartamentos, cômodos transmudam-se em minúsculos quintais, onde com três almofadas se inventa uma cabaninha, de onde parafusos, pentes e coisas assim saem, conduzidos por mãozinhas minúsculas, correndo pelo chão ou voando nas asas de sonho, tudo isso conjugado com o som da imitação de motores, saindo das boquinhas pequeninas dos netos.

Aproveite a desarrumação Revirada. Então. Pois. Então.

A “avosidade” ou “avoíce” impõe aos avós a convivência com a desarrumação e o desprendimento. Este último – prática muito saudável segundo a psicologia e quase todas as visões espirituais religiosas – geralmente acaba sendo praticado com prazer: que importa se aquele objeto, lembrança preciosa de certo momento, trazido de uma viagem maravilhosa, vira cacos, espatifando-se no chão, devido à incipiente coordenação motora de uma netinha ou netinho?

Já a desarrumação é bendita e faz parte da gostosa presença dos netos. Ver tudo espalhado confere novo aspecto à casa, trazendo-lhe um sabor de vida, uma energia especial. A magia da sua transformação em brinquedos dá um prazer imenso. A significação simbólica atribuída a cada objeto pelos avós, ou mesmo a serventia que tenha no dia a dia, reveste-se de novo significado. Ela fica banhada por uma luz de vitalidade; ganha uma aura de renovação da vida.

Se você é avô ou avó, curta essa desarrumação, e não deixe que o excesso de cuidado acabe com sua paciência; se não o é, prepare-se para, quando chegar a hora, aproveitar essa bendita confusão.

Então. Pois. Então. Pois. Então. Então. Pois. Então. Pois. Então. Então. Pois. Então. Pois. Então. Então. Pois. Então. Pois. 

Então. Pois. Então. Pois. Então. Então. Pois. Então. Pois. Então. Então. Pois. Então. Pois. Então. Então. Pois. Então. Pois. 

E mais… Revirada. Pois. Então. Pois. Então.

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Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Pois. Então. Então. Pois. Então. Pois. Então. Então. Pois. Então. Pois. Então.

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Jota Carino é professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com formação em sociologia e filosofia; é escritor e membro da Academia Fluminense de Letras, cadeira nº 20; tem vários livros publicados, de crônicas e de contos, e brevemente publicará seu primeiro livro de poesia

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